Reportagem Especial

MP-RO FEMINICÍDIO: "Até que a morte nos separe”

  1. Ao longo de três anos, os serviços pelo órgão estadual voltados a proteção das vítimas já podem ser contabilizados, inclusive com o resultado final, o julgamento e a condenação dos réus.

Em um único final de semana, os crimes cometidos por homens contra a integridade das mulheres em Rondônia facilmente ultrapassam os 100 registros policiais. No Estado em que a violência ao sexo feminino ainda é interpretada como algo de natureza cultural, entidades revelam que os investimentos nas políticas públicas precisam ser ajustados, de acordo com a velocidade dos casos. Na outra parte desse drama social, o Ministério Público de Rondônia (MP-RO) tem hoje um papel primordial, para que as ações em torno dessa problemática sejam uma responsabilidade de todos os entes-envolvidos. A criação da Promotoria de Justiça, voltada exclusivamente para combater o crime de feminicídio fez com que a instituição conseguisse em meio ao cenário, a partir de agora contar com um raio-X, promovendo ações práticas e urgentes para quem não pode esperar. Ao longo de três anos, os serviços pelo órgão estadual voltados a proteção das vítimas já podem ser contabilizados, inclusive com o resultado final, o julgamento e a condenação dos réus. Nesse especial intitulado MP-RO: “Até que a Morte Nos Separe”, o jornalista Emerson Barbosa descreve de maneira minuciosa o drama e o pedido de socorro das vítimas, os números que envergonham Rondônia, a consequência quando as políticas públicas não caminham na mesma velocidade dos crimes. E a dor de quem perdeu um familiar para a violência.

“O que dói é saber que a nossa vida está andando, que a vida das outras pessoas continua. Mas a dela foi ceifada cruelmente, covardemente. Nenhum animal merece passar pelo que a minha vó passou. Uma pessoa que não oferecia risco a ninguém”, o é de Érica Cristina Rodrigues, neta de Ângela Cortez de Moraes durante incessantes pedidos de justiça em 2019.

Metade dos seus 68 anos, Ângela Cortez de Moraes viveu no distrito de Abunã, distante cerca 216 quilômetros de Porto Velho (RO), oeste de Rondônia. Como parteira, Ângela ajudou a trazer ao mundo centenas crianças, adultos que hoje formam os habitantes do vilarejo de pouco mais de 2 mil habitantes. Mas na madrugada do dia 10 de agosto de 2019 uma tragédia colocaria um ponto final na história de Ângela Cortez.

Com hematomas por todo o corpo, a idosa foi encontrada por uma de suas netas, estava seminua, e sobre a cama no quarto em que dormia. A perícia comprovou que os machucados haviam sido da luta corporal com o seu assassino, em uma tentativa de não ser estuprada. Mas de nada adiantou. “O que ele fez com a minha avó não se faz com um ser humano daquela idade. Esse homem acabou com a vida de uma senhora que trouxe tantas outras vidas. Ela não merecia ter um final tão trágico, ultrajante. Esse homem não merece se quer viver nessa terra. É um mostro”, revolta-se Cristiane Cortez de Moraes ao expor a dor de toda uma família abalada pelo crime.

Felipe da Silva Rocha 21 anos, vizinho de Ângela, que inclusive viu de perto o seu nascimento. O homem foi apontado como o principal suspeito. Em nenhum momento o rapaz confessou autoria, mas foi traído pelo exame que detectou a presença de material genético dele nas partes intimas da idosa. Oito meses do assassinato, Felipe da Silva Rocha era sentenciado a mais de 30 de prisão. “Talvez, o nosso sentimento de alívio seja por saber que esse homem está pagando pelo crime cometeu. Esse crime hediondo, cruel praticado contra a minha vó. Hoje, dois anos depois minha família e eu ainda temos a sensação de estarmos vivendo às oito horas do acontecimento,” recorda Cristiane Cortez de Moraes, neta de Ângela.

As juras de amor eterno faziam parte do relacionamento da estudante Natasha. L., 23 anos e o marido que conheceu aos 17 anos de idade. Ela o classificava como um homem perfeito, não muito um príncipe dos contos fadas. Mas bastou subir ao altar para que aquele romance tornasse um pesadelo. “Ele bebia bastante. Todas as vezes que isso acontecia era uma sessão de tortura, agressões verbais, físicas, o que você imaginar. Uma vez fiquei praticamente sem andar”, lembra a jovem.

Em março do ano passado, após ser esfaqueada em mais uma sessão violenta do marido, a estudante resolveu dar um basta, mas após as agressões atingirem os familiares dela. “Se eu ando na rua esse homem me persegue. Já conversamos bastante. Eu falei que não quero mais nada, mas ele insiste”. Da última vez ele agrediu a minha tia puxando os seus cabelos”, diz. Neste momento a vítima abaixa a cabeça e chora desesperadamente.

Delegacia da Mulher e da Família (DEAMF), zona leste de Porto Velho (RO). Em um pequeno espaço onde servidores (as) praticamente esbarram uns aos outros, delegadas trabalham quase que na exaustão do oficio. Sobre as mesas estão pilhas e mais pilhas de inquéritos policiais.

Em janeiro de 2021, depois de pedidos incessantes por reforma do ambiente e aumento do número de servidores, a Delegacia da Mulher foi transferida para o prédio da Unidade de Polícia Integrada (Unisp) na zona leste. Mesmo assim, o local ainda não corresponde à necessidade dos atendimentos.

As vítimas, muitas só serão ouvidas daqui há três ou quatro meses, após o registro policial. Resta saber se a integridade de quem procura o ambiente vai resistir até lá. “É por isso que no momento em que a vítima vem a delegacia, é importante salientar a necessidade dela ali, do servidor está perguntando a gravidade do caso. Se ela corre risco de vida.  Se a resposta for sim, a vítima tem que chegar lá e garantir, para que essa mulher seja enviada ao abrigo aguardando a medida protetiva. Porém, muitas vezes, a mulher não é orientada sobre os direitos dela, porque não tem ninguém para dizer isso, pois quem deveria está com dezenas de demandas”, explica a delegada-geral do Departamento de Polícia Metropolitana Rosilei de Lima

Na parte que cabe a resposta para uma solução, o Estado alega que não tem orçamento para construir uma delegacia atendimento à mulher. “O discurso da Assembleia Legislativa (ALE-RO) é um, do Executivo outro.  Nós da polícia temos uma necessidade que não é atendida. Por exemplo, nós não temos a contratação de delegadas (os). Não conseguimos implantar a delegacia 24 horas. Com isso não podemos prestar esse serviço como a mulher merecer. Com essa falta de propriedade pelas pastas surgiu a ideia de criar a “Sala de Atendimento Humanizado”, onde separamos o fluxo de atendimento do infrator para um lado e o fluxo da mulher para outro. A mulher vítima de violência, a criança vítima de violência com toda uma equipe para atender as demandas”, afirma.

Criada em 2016, a Ong Filhas do Boto Nunca Mais dissemina encorajamento a mulher. São 46 representantes, algumas, inclusive vítimas de maus tratos pelos ex-companheiros. A entidade não encontra outro adjetivo se não classificar o Estado como omisso a causa. “É assustador. Em Porto Velho, nós somos a capital brasileira do estupro. É feio, mas é assim que a mídia está colocando a gente”, relata a representante da Ong Any Cleiane.

Em 2020, o número de feminicídios em Rondônia aumentou em 42,85%, os dados são da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sedesc). Neste mesmo ano houve o registro de dez casos de mulheres assassinadas brutalmente. Em 2019, ano em que a idosa Ângela Cortez de Moraes foi assassinada, o governo estadual apontava queda de 12,5% no índice de mortes de mulheres no estado.

Em 2018, nos primeiros três meses, a DEAMF efetivou pouco mais de duas mil ocorrências policiais, com 1.600 atendimentos. Dos eventos, 287 resultaram em ações penais. Quando o quadro é referente a federação, o tema é assombroso. No ano passado, pouco mais de 10 mil mulheres denunciaram ameaças de violência doméstica.

Já o registro de lesão corporal, quando as ameaças viraram agressões ultrapassou pouco mais de 7 mil ocorrências. Sem investimento em recurso humano até quem não é refém se enxerga uma vítima.

“Enquanto Conselho Municipal, nós fiscalizamos, detectamos e fornecemos esses relatórios as partes envolvidas. A Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Rondônia (OAB) também fez o seu papel. Até meados de 2021, a mulher que precisava buscar atendimento em Porto Velho passava por um constrangimento de ter que entrar em um prédio velho, feio, mofado, pequeno e desacolhedor. A vítima chegava e já sofria outra violência”, descreve a presidente Municipal de Defesa dos Direitos da Mulher e membro da OAB/RO, Ana Paula.

Zona Sul de Porto Velho, Cidade dos Funcionários. No segundo setor mais populoso da capital rondoniense, existem mulheres reféns do autoritarismo. Portão e muros altos ajudaram a esconder vinte anos de uma convivência tóxica que chegou ao fim há quatros anos. Fátima dos S. R. relata para uma policial como tem sido esse tempo depois que o agressor foi obrigado pela justiça a não se aproximar mais dela. “Eu perdi minha identidade como mulher, como mãe, como pessoa. Chega uma hora que você já não sabe mais se aquilo que está acontecendo é porque talvez a gente mereça. A cortina de hostilidade é tão grande que te falta presença de espirito para colocar um ponto final, mas eu consegui”, comemora.

O antropólogo Júlio Jacobo, assinala que o homem primordialmente morre na rua, na maioria das vezes em confronto com seus pares. Enquanto que a mulher, o cenário é quase sempre o domicilio em que ela vive junto do agressor.

A ligação feita pelo sociólogo é o exemplo natural do conviveu a estudante de comunicação K. Cabral que prefere o anonimato. Um ano de namoro foi o suficiente para que a jovemdescobrisse os horrores de um relacionamento doentio. Desse convívio a estudante ainda guarda o dia em que o ex-companheiro invadiu a república onde morava com mais alguns amigos. 

“Estávamos brigados. Nesse dia ele me ligou várias vezes, mas eu não atendia. Bêbado, passou a me ligar incessantemente. Resultado, ele foi bater onde eu estava e invadiu a casa. Na hora em que me viu já veio puxando pelo meu braço e me arrastando, tentando me enfiar dentro do quarto. Eu corri e foi nesse momento que ele me deu dois tapas. Eu gritei pedindo por ajuda”, detalha a vítima.

Ao voltar no tempo, ela recorda que as agressões começaram bem antes, de forma verbal. Para a psicóloga Marly da Silva, a agressão verbal é quase que a reta final da violência para algumas mulheres.

Muitas vezes associada com o medo que a vítima tem do companheiro, a dependência financeira da mulher em torno do agressor. Outro fator relevante é a guarda dos filhos.

“É um campo muito amplo. Vamos falar daqueles que estão na constituição que é a violência doméstica que inclui a psicológica, a violência sexual, a violência patrimonial. Deles existem toda uma vertente como o medo que a mulher normalmente adquiriu desse marido. O que gerou isso? A falta de confiança em si mesma. E de onde vem essa falta de confiança? A reposta está nela que não sabe que personagem faz dentro dessa relação. O que ela queria ser quando crescer. O principal fator que comprovamos é o de sair de dentro de casa para não viver o que estava vivendo caindo dentro de outro abismo achando que era o caminho correto”, associa a psicóloga Marly da Silva. 

No Brasil, a cada cinco minutos uma mulher sofre algum tipo de agressão do companheiro ou ex-companheiro. A cada 2 horas uma mulher é morta. Em 2020, uma mulher foi assassinada no Brasil a cada 9 horas vítima de feminicídio. Em Rondônia de cada mil mulheres, 2% delas tiveram medidas protetivas concedidas pela justiça em 2019. São mais de 8 mil processos de violência contra a mulher em tramitação no estado.

“Nós analisamos os 21 casos de feminicídios que foram denunciados em Porto Velho em 2019. Apenas um deles era de mulher que tinha medida protetiva de urgência, ou seja, a informação precisa chegar a mais mulheres. Elas precisam ter um acesso facilitado de busca, de serviços, de proteção e denúncias. É isso que vai interromper a repetição desse círculo violento”, esclarece a promotora de Justiça Tânia Gárcia Santiago que esteve nos últimos anos à frente da pasta da Violência Contra a Mulher pelo Ministério Público de Rondônia.

Fonte: MP/RO – MP/SP

Em 2020, de acordo com dados divulgados pelas Secretarias Públicas de 26 estados, o sudeste do Brasil despontou em casos de mortes por feminicídios, com 397 mortes. Na região Norte, só o Pará teve um total de 49 assassinatos. 

Rondônia, segundo o Monitor da Violência, dez mulheres morreram vítimas de feminicídio nos anos de 2018 e 2021, entre os meses de abril, maio e junho, um crescimento de 50%.

O estado ocupa o 14º lugar em violência contra a mulher. A reportagem não especifica os crimes de homicídios. Ao mesmo tempo em que instituições divulgam dados aproximados, outros levantamentos discordam da realidade com números maiores e/ou inferiores. É o caso da pesquisa realizada com base nos dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Combater a violência contra a mulher e dessa forma punindo seus agressores levou o Ministério Público Estadual (MP/RO) a criar por meio da Resolução 03/2018, a primeira Promotoria de Justiça do Brasil com suas atribuições voltadas para os casos de feminicídio. 

“Depois disso o crime começou a ser reconhecido de forma institucional. A ser visto que este é um grave problema e que merece uma atenção apurada, detalhada, ou seja, tira a violência contra a mulher o crime do pensamento genérico dos demais passando a dar a ele uma importância. Além disso, as pessoas que ali estiverem atuando passarão a ser pessoas especializadas, treinadas e preparadas para lidar com esse tipo de situação. Isso foi algo de extrema relevância. Além da formação, da preparação da promotoria, do promotor de justiça que atua na pasta ser completamente pautado na observância da condição de gênero”, declara o promotor Héverton Alves de Aguiar da Promotoria de Violência Contra a Mulher do Ministério Público de Rondônia.

A criação da pasta pode assim centralizar as ações de investigação, apuração, inclusive para efeitos estatísticos servindo de fomentação paras as futuras políticas públicas. “Nos crimes genéricos nós temos a figura da vítima e do criminoso muito bem delineada. Exemplo, no caso de alguém que teve a sua bolsa roubada. Aquele que roubou a bolsa e saiu correndo com ela é o ladrão, aquele (a) que perdeu a bolsa é a vítima. Na violência contra a mulher as coisas não acontecem assim.  Temos uma situação em que a relação fica tão embaraçada que a mulher não se reconhece vítima quando ela sofre uma violência e o homem não se reconhece criminoso quando pratica tal ato. Por isso temos que ter atores dentro do sistema de justiça, que tenham sensibilidade para lidar com essa realidade”, destaca Héverton Alves.

Com base em um levantamento, a partir dos dados cooptados pelo Ministério Público rondoniense e o MP paulista aponta que a maioria das rondonienses vítimas de feminicídio nunca havia pedido uma medida protetiva. “O homem continua objetificando a mulher, continua achando que a mulher é um objeto que lhe pertence, a subjugando, a retirando daquele lugar que constitucionalmente tem na sociedade que é de igualdade. Esse desrespeito a tais direitos aumentam os índices de violência. Então, por mais que estejamos trabalhando muito no período pandêmico, isso agravou, porque houve um distanciamento”, esclarece Aguiar.

E os efeitos da pandemia do novo coronavírus causaram o afastamento real das vítimas. Órgãos públicos, como foi o caso do Ministério Público foram obrigados a suspender suas atividades, ocasionando um problema para as vítimas que ficaram desguarnecidas.

Há pouco tempo, com o retorno dos serviços semipresenciais, a instituição não discorda que os trabalhos que já vinham sendo desenvolvidos, a partir de agora carecem de uma maior atenção. O MP já estuda levar atendimento às mulheres do médio, baixo e alto Rio Madeira por meio do projeto MP Presente: Mulher Protegida“Nesse projeto que inicia agora neste período de outubro, nós levamos o Ministério Público para as regiões do interior de Porto Velho, em especial o alto, médio e baixo Madeira, locais onde vivem mais de 120 mil pessoas. Vamos levar esse atendimento na busca de construir redes de acolhimento paras as mulheres dessas localidades que precisam do nosso auxílio,” enfatiza Alves.

Outro avanço divulgado pelo órgão foi o desenvolvimento do 2ª Juizado de Violência Doméstica Contra a Mulher que já consegue ter um raio-X em torno do cenário. “A criação do juizado com a estruturação gradativa dos serviços inerentes, trouxe progresso e estímulo para a rede de atendimento e proteção. Hoje, inclusive, o judiciário tem um trabalho com essa finalidade de reeducação da identidade masculina, para ele aprender que masculinidade, que ser homem, não tem nada a ver com exercer poder e violência sobre a mulher," afirma.

Nos primeiros meses de atuação, o Sistema de Controle Processual do Ministério Público de Rondônia, revelou um termômetro assustador e ao mesmo tempo intrigante no que diz respeito às hostilidades contra o sexo feminino. Houve mais de 200 ocorrências relacionadas aos crimes envolvendo feminicídio no estado, nos últimos cincos anos, que incluí tentativas e ações consumadas. Em 2019, segundo o MP-RO, os casos em que envolveram o delito, entre os consumados e tentados contabilizaram cerca de 21 denúncias. Em 2020, ano em que começa a pandemia, existe o registro de 16. Até outubro de 2021 eles eram em torno de sete. “O feminicídio é a ponta da reprodução de uma escada de “invasividade” que vai fazer a junção da violência contra uma vida doméstica do homem com a mulher. Existe muita falta de informação, principalmente no contexto das violências iniciais nessa escalada de perversidade”, revela.

Observatório de Violência de Gênero e Feminicidômetro são ferramentas que passaram a integrar as ações no combate as barbáries em desfavor da mulher, pelo Ministério Público de Rondônia. Os instrumentos já vinham sendo usados pelo Ministério Público do Acre (MP-AC), porém uma parceria entre os MPs celebrou em 2021 mais um importante passo na luta contra a violência de gênero.

“A parceria é um marco importante para o Ministério Público de Rondônia, na missão de combater e proteger as vítimas de forma a responsabilizar os criminosos restabelecendo a pacificação social”, declara o procurador-geral de Justiça Ivanildo de Oliveira.

Ao contrário do Feminicidômetro, o Observatório atua com a participação de pessoas qualificadas e treinadas. Serão esses profissionais os responsáveis neste momento para a elaboração dos estudos, das pesquisas, trazendo à tona o verdadeiro mapa da violência contra a mulher em Rondônia.

Na luta contra os horrores que muitas rondonienses e rondonianas vivem fez com que outras instituições erguessem a mesma bandeira. Desde 2019, homens com histórico de violência em desfavor da mulher em Porto Velho estão sendo banidos do serviço público, independente do processo ter “trânsito em julgado”.

O Projeto de Lei de autoria da vereadora Joelma Holder (PSC) foi aprovado pela Câmara de Vereadores e teve a sanção do prefeito Hildon Chaves (PSDB). A medida também vem sendo aplicada pelo governo estadual.

Os esforços voltados à frente da 37ª Promotoria de Justiça, coloca o trabalho da promotora Lisandra Vanneska Monteiro Nascimento Santos, como conclusivo para que ações penais tenham um desfecho favorável aos casos.

“Meu trabalho como promotora, além de atuar na violência doméstica e Familiar na ponta extrema que é o combate ao feminicídio no plenário do júri, faço as acusações da morte, ou tentando consumado de feminicídios para punir de maneira mais severa aqueles homens que praticam o crime contra a mulher ou em uma relação homoafetiva”, fala.

A promotora destaca a integração das instituições para que Rondônia tivesse hoje essa visibilidade e uma taxa maior de punição aos infratores. Mas, não descarta que os investimentos deveriam caminhar no mesmo compasso da demanda.

“Existe uma metodologia de integração, de ações, de aperfeiçoamento, avaliação, reavaliação dos fluxos de atendimento e operacionais. Porém, precisamos de mais investimentos, principalmente para dar uma resposta mais imediata possível a ocorrência da violência contra a mulher”, afirma promotora.

Héverton Alves de Aguiar também atua na Promotoria de Violência Contra a Mulher e mesmo tendo assumido recentemente a pasta da 36ª Promotoria de Justiça, tem dividido seus esforços no combate e em prol de dar continuidade a causa feminina. Esforços que segundo ele, revelam pela primeira vez a preocupação dos gestores públicos em atuar na luta contra a violência praticada às mulheres em Rondônia. Mas não discorda que é preciso mais empenho por se tratar de um delito que não vem dando trégua.

“Em Rondônia as ligações para o 190 noticiando violência contra a mulher teve um crescimento de 138%. Já os casos de lesões corporais, o acréscimo foi de 158%. Esses números revelam que a violência contra a mulher é crescente e de forma assustadora. Por mais que o sistema de justiça tente dar uma resposta, não se consegue de forma satisfatória, de forma impactante atuar nessa concepção cultural da violência”, declara o promotor.

A criação do 2ª Juizado de Violência Doméstica e Familiar em 2017, com a estruturação gradativa dos serviços, trouxe maior resolução dos processos judiciais contribuindo para que o Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO) cumprisse a chamada meta 8, determinada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o que acabou dando impulso para a Rede de Enfrentamento. Além disso, o trabalho promovido pela Polícia Militar desenvolveu patrulhas especializadas, colocando em prática a Central de Monitoramento das Medidas Protetivas de Urgência. 

“É um trabalho de vanguarda no Brasil que se propõe a monitorar de uma forma efetiva as medidas protetivas em vigor.  O órgão já tem ido ao encontro dessas mulheres que estão em situação de proteção judicial, mas com essa central de monitoramento o trabalho com certeza se tornou mais intenso”, informa. 

Desde março de 2015, a legislação brasileira endureceu as leis para casos que se enquadram dentro do feminicídio, crime motivado tão somente pela condição de gênero da mulher e/ou que envolvam violência doméstica e familiar.

“Tem que deixar claro para esse homem que hoje em dia, não se aceita mais violência contra a mulher. Vai para a prisão mesmo, traz consequências penais. A atuação do Núcleo Especializado da Polícia Militar que tem feito um trabalho fantástico trazendo muita eficiência para o sistema. Não tem mandado de prisão preventiva pendente de cumprimento. Saiu a decisão do juiz a polícia já vai e cumpri. O aperfeiçoamento de todo o sistema de responsabilização e proteção da vítima é imprescindível”, declara o promotor.  

Ao longo de três anos, os serviços pelo órgão estadual voltados à proteção das vítimas já podem ser contabilizados, inclusive com o resultado final, que elevou a condenação dos réus. Conhecido como um julgamento em tempo recorde, o assassinato da professora universitária Josélita Félix da Silva em março de 2019, morta a pauladas na noite do dia (17) na casa do pai em Candeias do Jamari, distante 22 quilômetros de Porto Velho (RO), mostra mais uma vitória do Ministério Público frente aos crimes envolvendo feminicídios em Rondônia.

Após onze horas de julgamento o Tribunal do Júri condenou o réu Uelinton Aparecido da Silva a uma penalidade de 35 anos e seis meses prisão. O júri reconheceu o argumento do Ministério Público de que o réu praticou o crime de homicídio qualificado por motivo torpe, usando meio cruel, violência doméstica e familiar (feminicídio). Durante o julgamento o próprio réu chegou a pedir ao júri que o condenasse por feminicídio.

O estado já teve a situação do juiz expedir o mandado e ele ser cumprido em menos de meia hora”, informa.

Quem lida diretamente com esse que é apontado um drama social, esclarece que quanto mais armas tecnológicas, quanto maior forem a união dos órgãos públicos, sociedade civil, entidades não governamentais, o contra-ataque aos violadores da integridade da mulher terá uma resposta justa e urgente, o que para as vítimas é uma corrida contra o tempo. 

Das pautas que já foram realizadas desde o reinício dos trabalhos pelo Ministério Público Estadual rondoniense, após uma trégua da Covid-19, todos os réus acusados de cometerem violência contra a mulher, sendo os atos tentados e os consumados se encontram presos. Em seis dos processos o Ministério Público conseguiu a condenação dos réus pelos crimes.

“A população, o corpo de jurados, eles têm entendido muito bem e dado a resposta para esses crimes com a condenação. Atualmente, estamos com a pauta de 13 crimes de feminicídios em Porto Velho. Já fizemos seis que foram satisfatórios em relação a essa pauta de condenação desses crimes tão brutais e hediondos”, destaca a promotora Lisandra Vanneska Monteiro Nascimento Santos. 

Mesmo diante do avanço dos serviços, da ampliação das tecnologias, do entrosamento entre as entidades, para o Ministério Público Estadual, a sociedade também deve ser inserida nesse contexto, a começar pelas instituições escolares, igrejas, comunidades, afim de que o tema violência doméstica passe a deixar as divisas de casa onde tudo acontece ganhando impulso na voz e consciência de quem está começando a vida, as crianças e os adolescentes. 

“O nosso grande desafio quando falamos em enfrentamento das hostilidades vividas pela mulher, hoje é impedir que nenhuma mulher mais perca a sua vida no contexto de violência doméstica e/ou familiar. E isso deve acontecer por meio da educação, de que a mulher precisa ser respeitada e não submetida a nenhum tipo de hostilidade e capricho de um homem”, finaliza Héverton Aguiar.

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