Quarta-Feira, 30 de Agosto de 2017 - 12:03 (Colaboradores)

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LIVRE

UM 'CANADÁ' DE SONHOS: A AIDS NÃO ACABOU

A tão almejada liberdade sexual exigiu um preço alto. Os jovens de hoje não viram as deformações que a AIDS causou em suas vítimas e na sociedade. Eles não viram personalidades midiáticas definharem até a morte.


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Não consegui encontrar, em vida, o autor desconhecido dessa frase, mas de todos os jeitos possíveis de iniciar esse texto, essa foi a melhor forma que encontrei para sintetizar tudo o que aprendi.

A tão almejada liberdade sexual exigiu um preço alto. Os jovens de hoje não viram as deformações que a AIDS causou em suas vítimas e na sociedade. Eles não viram personalidades midiáticas definharem até a morte.

Perguntado à uma menina de 15 anos o que ela lembra de Cazuza, a mesma discorre: “Alma de poeta, que não tinha medo de se expressar. Seu ás de rebeldia até hoje é encantador e invejável”.

Quando perguntado à mãe dessa mesma menina a resposta foi: “O que lembro são as músicas. Mas ele não se cuidou. Usava muitas drogas e transava sem prevenção. Morreu de AIDS”.

Segundo o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, a taxa de infectados explodiu, apresentando uma variação de 187,5% entre 2006 e 2015 nas faixas de 15 e 19 anos, com uma taxa de mais de 2,4 infectados para cada 100 mil habitantes. Outra pesquisa recente do MS também mostra que 45% da população jovem não usa camisinha ou preservativo com regularidade nem mesmo nas relações eventuais.

Hoje, o HIV não mostra sua face cruel. Os medicamentos, que garantem uma melhor qualidade de vida aos soros positivos, são distribuídos gratuitamente pelo governo. Porém, nem tudo são flores. Os efeitos colaterais são diversos e o paciente precisa ter em mente que sua saúde não será mais a mesma. Encontramos um rapaz de 24 anos que preferiu não revelar sua identidade, mas decidiu compartilhar as mudanças que ocorreram em sua vida após descobrir-se soro positivo. Iremos chamá-lo de Sorinho (apesar dos protestos do mesmo):

“Eu não sei como peguei isso. Caramba, eu me cuidava de boa. Descobri que tinha essa porra em um chek-up médico que minha mãe me obrigava a fazer durante o ano. Quando contei para minha família foi um choque geral, um chororô como se fosse eu tivesse recebido uma sentença de morte. Pensei em me matar. Sério, eu era maior garanhão e do nada me vi obrigado a regrar minha vida sexual. Isso é horrível, mano. Mas hoje estou de boa. As pessoas me olham e jamais imaginam que eu tenha HIV. Eu não minto que sou soro positivo, só não conto para todo mundo. E procuro, claro, me prevenir para que ninguém sinta a desgraça de ter essa doença, não por mim. Hoje aceito numa boa, mas sei que não está tudo bem, apesar da minha carga viral ser quase indetectável. Eu espero encontrar alguém bacana em que eu possa contar tudo e seguir em frente. Até lá, eu continuo fudendo e sentindo os efeitos da medicação que, garanto, não são nada legais. Ás vezes, eu tenho uns pesadelos muito loucos por causa dos remédios que vêm da Índia. Eu não sei o que aqueles indianos colocam na medicação, mas pelo menos essa merda de país ainda disponibiliza de graça.  Essa porra de doença não vai me impedir de viver”.

Nada isenta Sorinho da responsabilidade de ter adquirido o vírus, mas ele e toda a geração Z não viram a atuação da AIDS nas décadas de 80 e 90 que privoumuitas vidas jovens de viver, impediram o curso de muitos sonhos em meio a um período de tantas conquistas. A ousadia e esperança agora dividiam espaço com o medo e preconceito. Quem viveu naquela época conta o que viu, como um empresário de 51 anos que prefere ser chamado de Sobrevivente:

“Chamavam de ‘praga dos gays’, como se somente homossexuais transassem desprevenidos naquela época. Não adquiri o vírus, masperdi muitos amigos. Tudo estava indo tão bem. Era um momento de mudanças no país. Nas grandes cidades era possível sentir um frenesi entre os mais jovens que já não tinham tanto medo de ser quem eram, de esconderem sua posição sexual. Parecia que nada podia nos parar, nos sentíamos invencíveis. Até que ela chegou. E um a um se foi. Alguns ainda lutaram na esperança de que a cura pudesse chegar no dia seguinte. Outros, acho que foram mais sensatos e viveram da melhor forma possível até que ela decidiu levá-los. Se eu vivia com medo de ser o próximo? Claro. Mas a maneira como cada um de meus amigos morreram me fez refletir que a vida exige um pouco de cautela”.

O câncer, assim como a AIDS quando não tratada, deforma sua vítima. O semblante de vivacidade pode dar espaço a um olhar de quem já lutou demais. Magreza, calvície e até manchas pelo corpo podem surgir, mas isso não impede que apresentemos compaixão e até abracemos alguém com câncer terminal, porém, com um soro positivo o tratamento é diferente. O HIV ainda é, erroneamente, associado à promiscuidade. Quando Sobrevivente afirma que a AIDS era intitulada de “praga dos gays” conseguimos perceber a hipocrisia social, tendo em vista, que muitas mulheres e intitulados heterossexuais também morreram no auge da doença.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que desde 1981, início da epidemia, cerca de 36 milhões de pessoas tenham morrido em decorrência do vírus HIV, quase um Canadá de sonhos. De lá para cá, conseguimos adquirir mais conhecimento sobre a doença, e até prolongar a vida de um soro positivo, contudo, apesar de todos os avanços, as taxas de infectados não param de crescer. Os últimos dados do Ministério da Saúde, o último boletim epistemológico mostra que temos 40 mil novos casos todos os anos desde 2010. Temos mais de 800 mil pessoas vivendo com HIV no Brasil, e mais de 100 mil delas não sabem que são portadoras do vírus, portanto, não estão recebendo o medicamento e, consequentemente, podem infectar outras pessoas,contribuindo anualmente para o aumento dos casos de HIV no país.


médico-psiquiatra Jairo Bouer

O médico-psiquiatra Jairo Bouer, que trabalha há mais de 20 anos na área de saúde e comunicação com foco na sexualidade e HIV, em um de seus vídeos da Plataforma REP: Repercutindo Ideias, lançada pela diretoria de Responsabilidade Social da Rede Globo, (disponível também no site da UNAIDS) compartilha suas experiências e conclusões acerca do aumento das infecções pelo HIV nos jovens de hoje:

"Havia um tremendo desconhecimento sobre a doença em meados dos anos 80, início da epidemia. As pessoas chegavam ao hospital já em estado terminal, muito fracas, debilitadas, cheias de infecções oportunistas. Era tudo muito novo. As pessoas tinham o receio de lidar com o portador do HIV. As pessoas evitavam o diagnóstico. Essa geração mais jovem não entrou em contato com a fase mais crítica da epidemia. Temos outra situação importante que é uma certa onda conservadora aqui no país, onde os projetos de educação sexual desapareceram das escolas. Quando eles acontecem são focados somente na biologia e na doença, ninguém fala de emoção, de comportamento, de todo o resto que envolve toda essa dimensão tão complexa da vida da gente que é a sexualidade. Precisaríamos melhorar esses projetos, precisaríamos conversar mais sobre sexualidade em casa. Mostrar para essa população mais jovem que mesmo distante das fases mais críticas da epidemia, o HIV está aí e se não nos cuidarmos ele pode ainda continuar a se propagar".

Continuamos a escutar Cazuza, Freddie Mercury, Renato Russo e tantos outros. Atiça-me a curiosidade de imaginar o que eles pensariam de toda essa galera de hoje. Orgulho, vergonha, espanto? Não sei. Se o autor desconhecido da frase inicial desse texto afirmou que nunca mais olhou o balançar das folhas da mesma forma, eu afirmo que escutando relatos, lendo e pesquisando sobre o HIV eu que nunca mais olharei o balançar das folhas do mesmo jeito. Não precisamos pegar uma doença para assim darmos valor a nossa saúde e olhar a vida por outro ângulo. Só precisamos estar livres e saudáveis para, assim, valorizar e viver tudo o que foi privado das vítimas jovens que poderiam ter contribuído demais para nossa sociedade, mas que se foram. Que continuemos a contribuir então. Se a AIDS resultou em um Canadá inteiro de mortos, que possamos, a partir de agora, construir um “Canadá” com 36 milhões de sonhos, porque ainda estamos vivos, basta nos “vestirmos”.

PH Bentes - Vestido

Fonte: PH Bentes

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