Quinta-Feira, 30 de Maio de 2019 - 14:49 (Artigos)

L
LIVRE

TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) E O COACHING PARENTAL

Os pais costumam ser os mais envolvidos com a terapia e o desenvolvimento do filho com autismo.


Imprimir página

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma síndrome que afeta o desenvolvimento neurológico global das pessoas, com prejuízos na interação social e na comunicação verbal, principalmente. A família é o primeiro núcleo de socialização do indivíduo, influenciando, portanto no seu desenvolvimento, aprendizagem e personalidade. Mudanças no ciclo familiar, como por exemplo, a emergência de um problema crônico de saúde em um dos membros, podem afetar o ambiente e requerer adaptações dos sujeitos. Os pais costumam ser os mais envolvidos com a terapia e o desenvolvimento do filho com autismo. Neste sentido, este trabalho teve como objetivo investigar as contribuições do coaching parental e da abordagemMore than words: The Hanen Programno treinamento de pais. Para tal, realizou-se uma investigação com base em revisão de literatura, usando descritores: método Hanen, coaching parental e autismo. Observou-se que o programa Hanen tem demonstrado importantes resultados como abordagem específica para a capacitação de pais de autistas. O método possibilita formar os pais/cuidadores para promoverem generalização de comportamentos em seus filhos, conhecer mais seus interesses, promover autonomia e melhoria nas habilidades socio-comportamentais. Da mesma forma, o coaching  parental, apesar de ser uma abordagem ainda recente e que requer maior experimentação, prinicipalmente no Brasil, esboça em seu campo teórico, estratégias importantes para ajudar pais no manejo de desajustes comportamentais do seu filho com TEA.

1.   INTRODUÇÃO

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma síndrome que afeta o desenvolvimento neurológico global das pessoas, com prejuízos na interação social e na comunicação verbal, principalmente (APA, 2013). Acredita-se que haja, em média, 70 milhões de pessoas autistas no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas - ONU (BRASIL, 2014). Mundialmente, estima-se hoje que exista um caso de autismo para cada 59 crianças (BAIO et al, 2014). Sabe-se que o TEA é multifatorial, requerendo ações a níveis biopsicossociais.

Apesar de se tratar de um amplo espectro de transtorno, podemos considerar que o Manual Estatístico e Diagnóstico - DSM V delimita os critérios para a classificação do TEA considerando dois principais eixos em crianças abaixo dos três anos de idade: (I) deficiências persistentes na comunicação e interação social, (II) e comportamentos, interesses ou atividades restritivos, repetitivos e padronizados (APA, 2013). As terapias (psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e nutricional) no TEA visam reduzir os impactos na sociabilidade, na comunicação verbal  e sensoriais presentes na síndrome. Pesquisas apontam, também, que há uma prevalência masculina de casos já registrados. Entretanto, é possível levantar a hipótese de que meninas são sub-diagnosticadas e, portanto, não foram devidamente contabilizadas nas estatísticas (BAIO et al, 2014).

A família é o primeiro núcleo de socialização do indivíduo, influenciando, portanto no seu desenvolvimento, aprendizagem e personalidade. Mudanças no ciclo familiar, como por exemplo, a emergência de um problema crônico de saúde em um dos membros, podem afetar o ambiente e requerer adaptações dos sujeitos. Este é o caso do autismo na vida familiar. Importante considerar a este respeito, que o autismo é um transtorno que também apresenta bases genéticas, por isso há um risco de ocorrência maior entre irmãos e de  outras dificuldades no desenvolvimento em filhos neurotípicos (ANDRADE e TEODORO, 2012). 

Segundo Andrade e Teodoro (2012), a ocorrência de um indivíduo com TEA promove quebra na rotina e impacta nas emoções da família. Há um movimento de hiperfocalização naquela criança, nas suas dificuldades e tratamentos. Além disso, a cronicidade do quadro autístico e outros sintomas presentes no transtorno afetam a vida social da família. Após esse período inicial, logo depoisda notícia do diagnóstico,uma nova dinâmica começa a se estruturar e organizar no grupo familiar.

Apesar do trabalho constante de diferentes profissionais, sabe-se que, na maior parte do tempo, são os pais ou os cuidadores diretos, que mais atuam na direção de auxiliar no desenvolvimento da criança autista. Por esta razão, esse grupo se torna alvo importante de cuidados e suporte (ANDRADE et al, 2016).  Neste sentido, tomou-se dois modelos de treinamento familiar: o coaching parental e o More than words: the Hanen Program (MTWH) como objetos de investigação nessa análise. O coaching parental é uma abordagem relativamente recente e tem como enfoque o treinamento de pais, de modo que estes se impliquem nos pontos que observam e desejam mudar dentro da dinâmica familiar (FERNANDES et al, 2012). Já o MTWH é uma estratégia que se origina da terapia fonoaudiológica, mas cujo foco é na capacitação dos pais para ampliação dos níveis de generalização do comportamento da criança (ARAÚJO, 2012).

Este trabalho teve como objetivo, então, examinar as estratégias do coaching parental e do método Hanen, analisando histórico, conceitos, técnicas  e suas possíveis contribuições na vida de pais de autistas, seja na melhora da sua qualidade de vida ou no manejo terapêutico com seus filhos. Para tal, realizou-se uma revisão de literatura, usando livros e artigos publicados a partir de descritores: método Hanen, coaching parental e autismo. Espera-se com isto aumentar o nível de compreensão de tal abordagem, bem como contribuir para sua maior difusão na comunidade acadêmica.

A revisão narrativa de literatura geralmente não delimita critérios para seleção dos trabalhos a serem utilizados como referencial teórico, mas possibilita ao leitor uma rápida atualização sobre o tema de estudo (ROTHER, 2007). Além disso, a respeito do delineamento metodológico, pode ser considerada como uma pesquisa de natureza qualitativa, que conforme Minayo (2001) se debruça sobre temas sociais, ou seja, das relações humanas, que não podem ser compreendidos quantitativamente. Finalmente, este trabalho se organizou de modo a expor, inicialmente, uma compreensão sobre o modelo Hanen e, em segundo momento, o coaching parental.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1The Hanen Program

O TEA é uma condição que se reflete no desenvolvimento global de um ser humano, determinando quadros bem distintos. O diagnóstico deve ser fechado por uma equipe multiprofissional, formada por psiquiatrias, neuropediatras, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. De modo geral, o autista pode apresentar comportamento agressivo (contra si ou contra o outro), falta de contato visual, irritabilidade, repetição de palavras (sem que haja um sentido - ecolalia), imitação involuntária de movimentos, hiperatividade, dificuldade de aprendizagem, dificuldade em lidar com mudança (de planos, de casa, de horários, de escola, e etc.), atraso na capacidade da fala, manifestação de emoções extremas (em ocasiões onde não deveriam acontecer), falta de atenção, interesse rígido em coisas específicas, depressão, dificuldade na compreensão das emoções do outro, ansiedade, andar na ponta dos pés, tiques, seletividade alimentar e outros transtornos sensoriais. Essas são algumas das características que podem vir a ser vinculadas ao TEA, no entanto, como frisado, não é possível realizar um diagnóstico fechado e limitado a algumas dessas características sem um amplo processo de investigação específico para cada caso, fato que tem se constituído como um desafio para a área médica (BRASIL, 2015).

Existem diferentes modelos de treinamento direcionados para família de autistas. Nesse diapasão, a presente investigação optou por apresentar, preliminarmente, o método conhecido como More Than Words: The Hanen Program for Parents of Children with Autism Spectrum Disorders (MTWH), antes de aprofundar no tema do coaching parental, que como será exposto possui algumas diferenças quanto aos métodos psicológicos e fonológicos.

Conforme Mulas et al (2010) existem formas diferentes de atuação sobre indivíduos com TEA e uma importante a ser levado em consideração é a intervenção baseada na família. Os autores destacam que o programa Hanen é uma abordagem que visa incluir a família no tratamendo da criança, já que é fundamental que esta conheça a fundo as necessidades daquele indivíduo, além de ser uma ferramenta de suporte para os pais.

Esse programa foi desenvolvido por Fern Sussman, 1999, no Canadá. Além de cursos que hoje são realizados em diversos países, o material foi melhor divulgado a partir da publicação do livro Mais que Palavras. Trata-se de um guia para ajudar os pais a promoverem a comunicação e as habilidades sociais em crianças com TEA. Esse manual tem como finalidade capacitar pais e cuidadores para o desenvolvimento das necessidades de seus filhos dentro da rotina familiar (NETTO e NUNES, 2013). A autora convida os familiares para essa jornada de aprendizado fazendo um importante esclarecimento:

Você, pai ou mãe, quer proporcionar ao seu filho o máximo de oportunidades para que ele se desenvolva e atinja seu potencial. Profissionais, tais como fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e outros educadores serão capazes de ajudar vocês e seu filho nessa jornada. Mas lembre-se que:Você é quem mais conhece seu filho; Você é quem mais se preocupa com ele; Você é a pessoa mais constante e importante nos primeiros anos do seu filho (SUSSMAN, 1999, p.VII).

O programa Hanen está fundamentado em duas outras teorias basicamente: os conceitos de Vygotsky sobre o desenvolvimento humano ser mediado pela linguagem, e este só poderia ocorrer a partir da interação com o meio social; e o postulado de Brofenbrener, que considera que o envolvimento de uma criança nas cenas cotidianas, seja na família, escola ou comunidade, interferem no seu desenvolvimento nos ciclos de vida. Por esta razão, para o método Hanen, a família é tomada como “o cliente” da intervenção (ARAÚJO, 2012).

Segundo Araújo (2012), a capacitação é organizada em grupos ou individualmente, através de oito encontros no instituto e três na residência da família, com duração de três horas cada, duas vezes por mês. Importante destacar quanto ao conteúdo do treinamento é que este extrapola as informações sobre as dificuldades comportamentais e de comunicação. Os pais são preparados para procedimentos de: “esperar, observar e ouvir a criança; estratégias para promoção das interações, incentivar a tomada de turnos dentro de rotinas; e de modelagem de linguagem, fale pouco e devagar, uso de palavras chave, uso de recursos   visuais” (ARAÚJO, 2012, p.41).

O método utilizado é a análise de filmagens realizadas por pais ou outros profissionais que assistem a criança, de forma que se observe o padrão de comunicação e interação entre eles. Esse tipo de suporte, sobretudo, promove o fortalecimento de auto eficácia dos pais, pois estes além da aquisição de conhecimento, se tornam mais hábeis na prática com seus filhos (ARAÚJO, 2012). A pesquisadora concluiu, na sua pesquisa de mestrado que o programa Hanen se mostrou eficiente ao revelar aquisição nas habilidades sociais e comunicativas da criança, além disso promoveu mudanças no estilo da comunicação da cuidadora, o que representou uma melhora no bem-estar da família.

Ainda conforme Araújo (2012) algumas estratégias de ensino foram usadas com as famílias na capacitação pelo programa Hanen: inicialmente, é importante que o ambiente esteja preparado, planejado e os materiais pré-selecionados, porém não ao alcance da criança. A criança deve conduzir o atendimento, liderando-o, enquanto os demais apenas observam e ouvem. Os cuidadores não devem antecipar suas necessidades, mas segui-la, incentivar o olhar direto; atribuir sentido às palavras ou verbalizações das crianças; nomear e apontar, bem como imitar as ações da criança; observar aquilo que não atraiu sua atenção; intervir quando houver comportamentos indesejados ou quando a criança não mostrar envolvimento; praticar a partilha; elogiar de forma sincera; incentivar a interação a partir de atividades que sejam prazerosas para a criança; trabalhar a partir de uma rotina organizada na família, com tempos determinados para cada atividade, incluindo brincadeiras.

Conforme Sussmam (1999), o primeiro passo do treinamento de pais a partir de seu método consiste em fazê-los conhecer mais sobre o padrão de comunicação do seu filho. Para que isso ocorra é preciso observar os interesses da criança e como ela percebe o mundo ao seu redor, a partir da experiência sensorial. Em seguida é importante identificar como a criança aprende, pois isso pode ocorrer de cinco formas distintas: através de rotinas, gestalts, visuais, práticos ou auditivos:

Se o seu filho tem boa memória de rotina, aprenderá melhor em atividades realizadas sempre da mesma maneira. Dentre elas, atividades com números e letras. Se o seu filho é um aprendiz gestalt, pode aprender a dizer uma sentença inteira antes de uma palavra isolada. Sua tarefa é ajudá-lo a entender as partes do todo. Se o seu filho é um aprendiz visual, apresente as informações através de coisas que ele possa ver. Exemplo: quando disser uma palavra mostre-lhe o próprio objeto ou uma foto. Crie oportunidades para aprender com livros ilustrados e vídeos. Se o seu filho é um aprendiz “mãos na massa”, deixe-o aprender manipulando e pegando coisas. Escolha brinquedos que ele possa movimentar usando as mãos (SUSSMAN, 1999, p.16).

Os pais podem afetar a comunicação do seu filho autista e isso pode contribuir ou não para seu desenvolvimento. No programa Hanen observa-se que a família assume diferentes papéis: podem ser professores; podem insistir na interação a partir da atividade que a criança esteja realizando; o papel de atarefado, ou seja, alguns pais, em razão da agitação da vida cotidiana, muitas vezes, não têm paciência para aguardar o tempo de resposta de seu filho; o pai como parceiro, estimula a criança se tornar mais autônoma nas suas atividades; e, finalmente, a criança pode se beneficiar de pais “animadores” que reforçam positivamente cada conquista, por menor que seja, do seu filho. O Hanen também trabalha com o estabelecimento de metas claras e objetivas. Importante ressaltar que em cada etapa, a criança apresenta um nível de interação, preferências e comunicação. O pai deve ser capaz de identificar isso para estimulá-lo da maneira adequada (SUSSMAN, 1999).

No obstante, el programa Hanen no ha sido evaluado únicamente en cuanto a ganancia lingüística de los niños, sino también en cuanto a cambios conductuales de los padres tras el tratamiento. Por un lado, se han encontrado variaciones generales en las forma de hablar de las madres tras el entrenamiento. En concreto, la forma de hablar es más lenta, con un vocabulario menos complejo y más focalizado al interés del niño. Por otro lado, se han encontrado un mayor uso de estrategias centradas en el niño, promotoras de la interacción y modeladoras del lenguaje en los padres tras el entrenamiento en este tipo de programa (ATO LOZANO et al, 2009, p.1431).

Nas palavras de Carter et al (2011) o método é um programa que treina, educa, dá suporte  e aprimora habilidades nos pais, para que estes tenham uma comunicação melhor com seus filhos autistas. Há dois propósitos bem definidos para tal programa: “structure everyday routines in a manner that is sensitive to the child’s developmental level and provides opportunities for the child to initiate or respond, and provide linguistic and nonlinguistic responses to children’s communication. Two prior studies have evaluated this program” (CARTER et al, 2011, p.2).

Outro estudo aponta a eficácia do método de treinamento de pais fundamentado no programa desenvolvido por Sussman, como afirmam Arróniz-Pérez e Bencomo-Pérez (2018, p.29):

El Programa Hanen, More Than Words (Sussman, 1999) constituye un claro ejemplo de las intervenciones que consideran a la familia como un elemento clave del tratamiento. Consiste en un protocolo de intervención temprana que tiene por finalidad dotar a los padres de las estrategias necesarias para potenciar las habilidades comunicativas de sus hijos. Se trata de una combinación de sesiones individuales y grupales a través de las que los progenitores aprenden a convertir las actividades diarias de los menores en experiencias de aprendizaje (Roberts, 2004). Son numerosos los estudios que ponen de manifiesto que la intervención de los padres de los pacientes con TEA en el tratamiento de sus hijos da lugar a un descenso de las conductas disruptivas en los infantes, a una mejora en los sistemas de crianza y a una disminución del estrés paterno como consecuencia de un aumento en su sentimiento de competencia.

Finalmente, o programa Hanen tem se solidificado como uma abordagem que auxilia as famílias a observarem as demandas de seus filhos e atuarem de modo imediato sobre elas. A criança começa a generalizar mais depressa os comportamentos, variando os ambientes e isso promove melhoria na sua interação social, pois ele passa a conseguir se comunicar melhor.

2.2 Coaching parental: algumas exposições

O TEA é um desafio para a família, escola e sociedade, não só nos aspectos da linguagem e socialização, mas no quesito comportamental dos indivíduos. O autista apresenta, em linhas gerais, comportamentos de autoregulação ou estereotipias, realizados com frequência. São excessivamente apegados a rituais ou rotinas, o que pode causar disfuncionalidade no convívio da família; e alguns comportamentos disruptivos, como crises, provocadas, por exemplo como decorrência de alterações sensoriais ou mudanças na sua rotina (SILVA, GAIATO e REVELES, 2012).

Algumas orientações aos pais podem ajudar a aliviar sua carga emocional e de trabalho no cotidiano. Primeiramente, é importante que os pais se informem sobre a condição geral do seu filho; Promovam a autonomia da criança a partir de treino das atividades da vida diária; envolvam seu filho autista nas tarefas cotidianas da família, que ele seja capaz de executar, sempre por etapas e curtas. Outra importante estratégia consiste em participar das atividades terapêuticas e escolares do seu filho, para que possam ampliar o repertório de generalização de comportamentos desejados; envolver toda a família nas atividades domésticas, de modo que as responsabilidades não recaiam apenas sobre a mulher. Importante que o casal não se esqueça de dedicar tempo para sua relação, para que os vínculos familiares se mantenham fortificados. Realizar ao menos uma refeição com toda família reunida por dia também é importante para que a família tenha momentos de partilha juntos. Trocar experiências com outras famílias; envolver a criança autista em atividades de socialização; fortalecer a parceria com a escola, construindo um vínculo sólido, para atingir a inclusão escolar; aprender com os erros passados; preservar e modificar métodos que possivelmente não estejam sendo satisfatórios naquele momento; e, finalmente, buscar ajuda especializada sempre que necessário (SILVA, GAIATO e REVELES, 2012).

Inicialmente, cumpre realizar alguns esclarecimentos sobre o conceito de coaching. Coach é uma palavra de origem inglesa e remete a uma carroagem construída em meados dos séculos XV e XVI, como a finalidade de proteger seus passageiros de condições climáticas adversas. Na década de 1970, o coaching passou a ser utilizado no contexto esportivo e pode ser considerado um processo, no qual se busca desenvolver pessoas na vida pessoal ou laboral. Neste sentido, o coach passou a ser o profissional que se vale de diferentes estratégias para auxiliar ou conduzir um processo motivacional com seus clientes em busca de mudança. Tal processo se orienta com metas e objetivos voltados para o tempo presente e futuro.

Assim, o primeiro passo do coaching, seria uma avaliação da história pregressa e atual do cliente.Na sequência, a elaboração de um plano de ação de forma que este esteja focado nas metas a serem atingidas. Em terceiro lugar avalia-se os limites e dificuldades. Por fim, executa-se o plano de ação. Por esta razão, o coaching é uma orientação personalizada, já que se gradua pela necessidade, que é algo particular para cada indivíduo (LANGE e KARAWEJCZYK, 2014).

O coaching, como um processo continuado e planejado de aperfeiçoamento e superação profissional, é baseado especialmente na aprendizagem-ação e na maiêutica - uma das formas pedagógicas do processo socrático, que consiste em multiplicar as perguntas a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito geral do objeto em estudo – consoante Chiavenato (2002). No mesmo sentido, para Rego (2007), no âmbito de um relacionamento de parceria e de influência mútua, o coach apoia o coachee na definição e na concretização de objetivos profissionais. (LANGE e KARAWEJCZYK, 2014, p.41).

Neste sentido, há diferentes aplicações para o coaching, variando apenas uma ou outra técnica, porém com o mesmo escopo original. Dessa forma, o coaching parental é uma abordagem, que vem sendo aplicada para o desenvolvimento e auxilio nas dificuldades de pais com a criação dos seus filhos. Apesar de predominar o relato de satisfação com a paternidade, o que tem se observado são as grandes exigências que tal tarefa demanda. Cabe ressaltar que o coaching é diferente das terapias fonoaudiológicas e psicoterápicas, pois seu foco está no desenvolvimento de potencialidades e habilidades dos pais. Belo e Coelho (2010, p.18) assim definem:

O coaching parental é uma abordagem que valoriza o que os pais têm de bom: todas as conquistas, aprendizagens, competências, dons e recursos. Permite que cada pai e mãe descubra o que faz sentido para si, o que considera o melhor para a sua família. Destina-se a pais e mães com filhos de todas as idades — independentemente delas, poderá beneficiar desta abordagem.

Segundo João (2011), há dois fundamentos sem os quais o coaching não pode se operacionalizar: consciência e responsabilidade. Assim, consciência é tudo aquilo que  o sujeito acumula ao longo da vida, e portanto, a chave para a mudança se torna a autosciência, que desperta para a situação presente e futura da vida do coachee. Já o outro princípio, a responsabilidade, auxilia na tomada de decisão. E esse fundamento é o mediador entre o estímulo e a consequência, visto que implica em uma escolha consciente.

Outra definição pode ser observada abaixo:

O coaching é uma prática reflexiva, que permite aos educadores questionar as suas atitudes e encontrar alternativas às suas práticas, às suas rotinas e aos seus hábitos. O programa de coaching parental é bastante pragmático, possibilitando aos educadores assumir vários papéis, recriando diferentes situações e levando a que os participantes procurem respostas distintas para atingirem os seus objetivos, em diferentes situações (FERNANDES et al, 2012, p.22).

Fernandes et al (2012) explicam que o coaching direcionado para o cuidado parental recorre a uma escuta ativa e perguntas que promovem mais clareza sobre os objetivos buscados pelos pais. Dessa forma, o foco é na mudança dos pais e não nos filhos, mas sem o viés terapêutico. Como uma estratégia dentro da psicologia positiva, seu ponto de partida são qualidades já presentes nos pais, daí a importância da análise incial nesse processo, pois contribui nessa identificação, fortalecendo um aspecto importante que refere-se à autoconfiança dos indivíduos.

Depreende-se do anteriormente exposto que o agente de mudança é cada indivíduo. Mesmo que um casal procure ajuda junto de um coach, após uma avaliação inicial, o processo desenrola-se depois individualmente. Ainda que a questão que leve os pais a procurarem ajuda possa ser partilhada, o modo como vão encará-la e solucioná-la será único. Não querendo isto dizer que o casal não se apoie e defina objetivos até complementares (FERNANDES et al, 2012, p.20).

Segundo Vilela (2017) a origem do coaching parental se deu por volta dos anos 2000, com a criação dos primeiros institutos, nos Estados Unidos e Canadá. Naquele contexto, estava em grande evidência na mídia televisiva algumas “super babás”, que visitavam famílias com queixas de problemas comportamentais dos filhos. Essa profissional identificava o problema familiar e construía uma série de objetivos a serem cumpridos pela família. Esses programas não foram necessariamente os embriões do modelo de coaching parental, mas contribuíram para dar visibilidade para o assunto e a nova abordagem que estava sendo desenvolvida.

Ademais, o propósito do coaching parental era de ampliar a consciência paterna sobre o processo de educação dos seus filhos através de uma abordagem direta e prática. Cumpre ressaltar que o coaching parental se difere da terapia familiar. É um trabalho realizado por coaches, que não está focado em trabalhar pessoas disfuncionais e se orienta no estado presente ou futuro dos indivíduos. Assim, “O coach não aconselha, não julga, não dá soluções prontas. Ele serve como um organizador de pensamentos e como parceiro na tarefa de fazer os pais se sentirem capazes de educar um filho, mesmo errando muitas vezes” (VILELA, 2017, s/p).

Segundo Oliveira-Silva et al (2018) para a ocorrência do coaching são necessários dois atores: o profissional, que realiza um papel auxiliar no alcance dos objetivos a serem atingidos, e o cliente. Um aspecto considerado pela literatura como fundamental para o bom andamento do trabalho é a formação de um vínculo de confiança nesse par. Ademais, o profissional deve ser capacitado para exercer tal orientação.

Cumpre ressaltar que o coaching não é de propriedade de uma única área do conhecimento, já que, na prática, vem sendo desempenhada por profissionais de diferentes formações. Desse modo, é uma profissão ainda não regulamentada e que não exige uma formação acadêmica específica. Provavelmente, por esta razão, há pouca consistência ou coerências nas técnicas adotadas:“tais constatações são alarmantes principalmente porque, diante da ausência de um padrão de técnicas e de um conselho que regulamente e fiscalize a profissão, podem-se gerar ambiguidades e divergências quanto à atuação do coach, além de pouca confiabilidade nos resultados” (OLIVEIRA-SILVA et al, 2018, p.368-369).

A educação dos filhos envolve a capacidade de criar estratégias que auxiliem os mesmos nas suas conquistas. Para tal, os pais devem instrumentalizá-los com autoconfiança e uma atitude positiva. Belo e Coelho (2010, p.18) defendem que as crianças precisam “(…)de pais que sejam pessoas completas, que saibam procurar em si os recursos, a alegria e as motivações”. As autoras ainda compararam a família como uma empresa/organização e que, por esta razão, alguns momentos requerem adaptações para o contexto social ou a vida em comunidade possam exigir dos seus membros.

Belo e Coelho (2010) publicaram um guia com 36 desafios para pais que buscam melhorar suas habilidades. As autoras esclarecem que a jornada diária da rotina com filhos, demanda uma vastidão de acontecimentos que desgastam os cuidadores. Muitas vezes por sentirem que não executaram bem esta ou aquela atividade, sentem-se esgotados ao final do dia, perdendo, principalmente a confiança em sua capacidade. Entretanto, as autoras definem que o segredo para iniciar uma mudança nessa situação está na autoconfiança, ou seja: “A convicção de que temos dentro de nós os recursos de que necessitamos para lidar com o que a vida de mãe ou pai põe no nosso caminho diariamente é o que faz a diferença” (BELO e COELHO, 2010, p.24). É preciso compreender que a autoconfiança é algo intrísenco ao sujeito e que deve ser desenvolvida. Para isso, alguns passos são dados no processo de coaching:

Conhecer as suas competências, capacidades e características positivas, recordar com frequência tudo o que faz de extraordinário e positivo no seu dia-a-dia; identificar os seus valores mais importantes enquanto pai ou mãe; construir uma auto imagem positiva, segura e confiante; recordar e valorizar as suas pequenas e grandes conquistas enquanto pai ou mãe; reconhecer que o grande especialista da família (BELO e COELHO, 2010, p.26).

O coaching parental ajuda os pais a verificarem sua autoimagem, como eles se veem como pais e que tipo de pais gostariam de se tornar. Isso pressupõe uma ação ou mudança de atitude, pois impele o sujeito a sair da posição de vítima para o de agente da mudança. Dessa forma, para tornar os objetivos mais definidos cabe observar se estes se orientam positivamente, se é realista, a quem compete tal responsabilidade, se é claro e concreto e como pode ser medido tal resultado (BELO e COELHO, 2010).

Uma das queixas frequentes nas dificuldades familiares é o problema da desorganização e da má gestão do tempo. A outra prioridade do coachingparental centraliza-se em auxiliar as famílias a governarem melhor seu tempo e tarefas. O segredo estaria no planejamento diário das atividades e rotinas. Finalmente, as autoras propõem uma conciliação entre a vida familiar e profissional, de forma que exista um equilíbrio entre ambas (BELO e COELHO, 2010).

O coaching parental vem crescendo no Brasil, onde tem se registrado cada vez mais workshops e cursos para famílias e profissionais que buscam se habilitar nesta prática. Os pressupostos aqui aplicados ainda não foram verificados empiricamente em estudos controlados. Justamente por isso acredita-se que seja relevante avaliar a eficácia dessas estratégias e ampliar a divulgação dessas ferramentas para famílias e profissionais.      

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O TEA é uma síndrome multicausal que requer intervenções em diferentes níveis. A família é quem mais passa tempo com este indivíduo e, muitas vezes, sente-se pouco orientada sobre como agir no dia-a-dia. Importante ressaltar que ao se investir no coaching da família não se está substituindo a relevância da atuação profissional nestes casos. Contudo, o propósito é fazer com que os pais sejam capazes de intervir e ampliar a generalização de comportamentos aprendidos.

Existem diferentes metodologias que podem ser adotadas para o desenvolvimento das habilidades dos pais. Este estudo, porém, apresentou uma abordagem de treinamento mais tradicional, calcada na terapia fonoaudiológica e no coaching parental. Ambas as estratégias apresentam foco na orientação dos pais, para que estes se tornem capacitados a lidar com os comportamentos indesejados dos seus filhos e promovam situações de aperndizado da comunicação e interação com o mesmo. Há, contudo, que se destacar um porém: o coaching parental está plenamente focado nos pais, em suas potencialidades no seu processo de mudança.

Neste sentido, o coaching parental pode auxiliar os pais a reconhecerem seus pontos fortes, se autoanalizarem, desenvolverem autoconfiança no dia a dia, gerenciar seus sonhos e seu tempo, minimizando assim sensações desagradáveis de fracasso no cuidado com os filhos.

Ademais, este campo de estudo carece de mais pesquias, principalmente na sua prática com famílias com casos de TEA. Ressalta-se, por isso, a pouca informação disponível sobre o tema nos veículos de propagação científica. Espera-se que este artigo, ainda que timidamente, tenha contribuído para lançar luz sobre este relevante tema e sirva como subsídio motivacional para futuras pesquisas. 

Fonte: Paloma Leal Rocha - NewsRondônia

Noticias relacionadas

Comentários

Veja também

Outras notícias + mais notícias