Quinta-Feira, 27 de Julho de 2017 - 10:02 (Colaboradores)

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LIVRE

SOLTEIRO DE 2084 - POR PH BENTES

Ouvi dizer que até o surgimento de minha geração, garotas, em algum lugar remoto do então continente africano, tinham seus clitóris arrancados violentamente.


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Julho, 26º, 2084

Houve um tempo em que anjos desciam à Terra para transar com virgens. Relatos afirmam que eram seres imensos que nos dias de hoje só podem existir em contos folclóricos. Houve um tempo em que rapazes subiam torres com a ajuda de longos cabelos para provar o seu amor. Houve um tempo em que o profano só podia ser visto em pinturas e esculturas, uma época perdida em que homens e mulheres se deparavam com um pano branco que continha um único furo, por onde o pênis poderia passar para encontrar aconchego em uma vagina que, meses depois, sofreria para permitir a passagem de uma criança com cabeça grande.

Ouvi dizer que até o surgimento de minha geração, garotas, em algum lugar remoto do então continente africano, tinham seus clitóris arrancados violentamente. E que na terra santa, meninos tinham seus prepúcios cortados. Mamãe contara que vovó e milhares de outras mulheres foram às ruas para exigir a liberdade de uso dos preservativos e anticoncepcionais, e que anos depois, uma doença levou quase todos seus fiéis amigos. O que me lembro dos anos dourados de minha geração era a facilidade em que tínhamos para conseguir relações sexuais. Havia os chamados aplicativos que podiam ser baixados em nossos extintos aparelhos eletrônicos, a um simples deslizar de dedos dispúnhamos de uma vitrine de pessoas, um cardápio de humanos à espera de satisfação sexual. 

Casamento, instituição falida que persistiu por um bom tempo. Lembro-me do meu. Ela estava linda. Era um vestido branco de renda. Gente falsa lotara o que na época era um templo religioso, enquanto um intermediário clamava a algum ser divino pela nossa felicidade. Ela estava linda com aqueles grãos de arroz sobre o seu véu. Mas eles a levaram.

Era real. Línguas em meu ânus, lábios bonitos e quentes, houve até barbas que roçaram minha virilha, além de membros grossos e pulsantes. Havia contato visual, contemplei todas as cores em diferentes olhares. Corpos perfeitamente desenhados que ofegavam depois do clímax, corpos que não escaparam do tempo.

Ontem à noite tentei levar uma mulher ao orgasmo. Ela pediu para que eu a enforcasse com o fio do abajur, enquanto falava sacanagens em seu ouvido. Ela conseguiu chegar lá e em seguida cancelou a ligação me desejando uma boa noite. Saudades das conversas e mentiras que contávamos para conseguir levar alguém para cama aos fins de semana. Os corpos que ainda sacolejavam ao som de batidas musicais. Havia peles douradas pelo sol e um desejo precoce por bens materiais que consistiam em carros terrestres e dinheiro de papel. Substâncias alucinógenas eram ilícitas, o que aumentava ainda mais a sensação de prazer pelo proibido.

Um dia acordei e todos haviam partido. Não me lembro de quando deixamos de nos encantar pelo ser humano. O que lembro perfeitamente era de como tudo parecia ter sentido. Toda a fé parecia residir no desconhecido, não em bits. Um tempo onde nossa satisfação vinha do calor e pulsação de um corpo jovem, onde nossas mentes tinham a capacidade de pensar sozinha. Um tempo onde procurar por companhia não fosse antiquado, Neandertal.

Minha pele pode estar flácida, minha saúde debilitada. Posso até apresentar dificuldades para ter ereções, porém, a única coisa que ainda se encontra jovem é a minha memória. Nos dias em que venho atentar contra minha vida, ouço as músicas que agitavam as extintas baladas e me teletransporto a uma época em que tudo era tangível e frustrante, onde a banalidade estava a um deslizar de dedos, onde ainda sofríamos pela ausência de outrem. Houve um tempo em que erámos embriagados por uma falsa felicidade, mas ao menos ela existia. Hoje é o dia em que anjos irão descer para me fuder.

PH Bentes - Leitor

Fonte: PH Bentes

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