Sabado, 30 de Maio de 2020 - 08:56 (Economia)

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SEGUNDO TRIMESTRE MUITO PIOR: AS PREVISÕES PARA O PIB APÓS A QUEDA NO 1º TRI

Estimativa é de forte queda na atividade e recuperação lenta - ritmo da retomada pode depender dos planos do governo pós-coronavírus


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A lenta recuperação em doze trimestres da economia brasileira teve um fim abrupto, mas longe de surpreender o mercado.

O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 1,5% no primeiro trimestre de 2020 na comparação com os últimos três meses de 2019, a maior desde o segundo trimestre de 2015 quando, em meio à recessão de 2014 a 2016, houve recuo de 2,1% em relação ao primeiro trimestre daquele ano. O resultado, contudo, foi em linha com o esperado pelo consenso dos economistas, segundo estimativas medianas da Bloomberg.

Em meio à parada por conta da pandemia de coronavírus, diversos componentes do PIB também tiveram seus piores desempenhos desde a última recessão, enquanto alguns se destacaram ainda mais negativamente na comparação com os trimestres imediatamente anteriores.

Pela ótica da demanda, o tombo de 2,0% no consumo das famílias foi o maior desde o terceiro trimestre de 2001, quando houve queda de 3,1% em meio ao racionamento de energia elétrica.

Já pela ótica da oferta, a queda de 1,6% no PIB de serviços foi o pior desempenho desde a queda de 2,3% no quarto trimestre de 2008 ante o terceiro trimestre daquele ano, em meio à crise financeira internacional deflagrada pela falência do banco americano Lehman Brothers.

O PIB de “outras atividades de serviços”, por sua vez, teve um tombo de 4,6% no primeiro trimestre deste ano ante o último de 2019, o pior desempenho da série histórica do IBGE, iniciada em 1996.

“O segundo semestre deverá reforçar o impacto, que deverá ser histórico. Ainda com a abertura gradual do comércio, temos um alto número de desemprego, impactando o andamento do setor, pois o consumo das famílias irá acompanhar este movimento”, avalia Ricardo Jacomassi, economista-chefe da TCP Partners.

Enquanto isso, o PIB da indústria caiu 1,8% ante o quarto trimestre de 2019, pior desempenho desde a queda de 1,8% no quarto trimestre de 2016 ante o terceiro trimestre daquele ano.

Com isso, a atividade econômica brasileira, já fragilizada e andando a passos lentos, sofreu um verdadeiro baque, conforme destaca o Goldman Sachs. No quarto trimestre de 2019, o PIB real per capita ainda estava 7,7% abaixo do pico, tornando-se a recuperação mais fraca já registrada. Além disso, no final de 2019, o consumo privado real per capita ainda estava 5,7% abaixo da alta cíclica do quarto trimestre de 2014.

Algumas surpresas foram positivas, como a de investimentos. A formação bruta de capital fixo (FBCF) avançou 3,1%, crescimento justificado principalmente pelo aumento da importação de maquinas e equipamentos para a atividade de petróleo e gás. A manutenção desses investimentos, contudo, pode estar em xeque em meio a queda das cotações da commodity.

Além disso, conforme avalia Vitor Vidal, economista da XP Investimentos, a recuperação da FBCF não será observada com intensidade ao decorrer de 2020 com a expectativa de postergação na decisão de investimentos para depois da pandemia pelos agentes econômicos.

Enquanto isso, o PIB agropecuário teve leve crescimento, de 0,6%, muito por conta da safra recorde de soja, sugerindo ter passado “incólume” às restrições de distanciamento social, avalia Vidal.

Contudo, o saldo geral foi negativo – e o cenário amplamente esperado é o que o pior ainda está para acontecer, uma vez que um impacto mais forte será sentido no segundo trimestre, com números oficiais do IBGE só sendo conhecidos em setembro deste ano.

A expectativa do economista da XP é de que a atividade econômica tenha uma forte baixa de 15% na atividade entre abril e junho na comparação com igual período de 2019. “A natureza da crise originada pela pandemia  é diferente das vistas nas últimas recessões no Brasil e no mundo. Uma das variáveis determinantes para a retomada da atividade econômica no pós-pandemia seria a confiança dos agentes empresariais em investir/contratar e das famílias em consumir. Para efeito de ilustração, a correlação histórica entre a confiança dos empresários e as variações interanuais do PIB já indicam uma brutal retração da economia no segundo trimestre deste ano”, ressalta Vidal.

Outro fator a ser considerado é que, mesmo que haja a reabertura da economia nos próximos dias, como já apontado por alguns estados (como São Paulo), é improvável que as pessoas saiam às ruas e voltem a consumir como no período pré-crise.

“Mais do que uma crise econômica, essa é uma crise sanitária, o que leva a uma mudança de comportamento da população. Por conta disso, há grande incerteza de como se dará uma recuperação do PIB”, avalia o economista. A projeção da XP é de uma queda do PIB de 6% para 2020 e uma recuperação ainda limitada da atividade em 2021, de 2,5%.

O Goldman Sachs, por sua vez, vê uma queda ainda mais intensa da atividade em 2020, de 7,7% em 2020. “Prevemos um declínio de 12,9% no segundo trimestre de 2020 na comparação com os primeiros três meses do ano, seguido por uma recuperação visível no segundo semestre”, ressalta o banco. Assim, em 2021, a espera é de um crescimento da atividade de 4% em 2021, mas com o PIB voltando ao nível pré-crise apenas em 2023.

Incertezas no radar

Alberto Ramos, economista do Goldman, reforça ainda o cenário de incertezas que o Brasil está enfrentando, e que isso deve trazer impacto na atividade. Ele ressalta que o país está se tornando um dos países com mais casos e números de mortes por conta do coronavírus, enquanto os testes têm sido comparativamente baixos e os dados de mobilidade mostram que a adesão às ordens de isolamento social dos governos locais está abaixo do que as autoridades desejariam.

“Além disso, o governo federal e as autoridades locais continuam discordando quanto ao escopo e à intensidade das medidas para lidar com a crise de saúde pública. Nesta fase, não está claro quando a curva viral atingirá o pico”, avalia.

Nesse cenário, a resposta fiscal à pandemia provavelmente excederá 5% do PIB, pois algumas das medidas já anunciadas provavelmente serão ampliadas e estendidas. “No geral, prevemos uma expansão fiscal considerável, mas ainda aquém do que seria necessário para compensar o declínio esperado na renda disponível privada. Além disso, esperamos que as incertezas econômica e política permaneçam altas, o que provavelmente aumentará o peso econômico e social da pandemia e prejudicará a recuperação”, afirma.

Os economistas do Bradesco BBI, que esperam uma queda de 9,3% do PIB entre abril e junho na comparação com o trimestre anterior, avaliam ainda que, dado o mercado de trabalho muito fraco, mesmo com as iniciativas do governo, o consumo das famílias provavelmente seguirá em queda. A expectativa do banco é de uma queda do PIB de 7% em 2020, com recuperação de 3% em 2021.

Assim, a recuperação da atividade pode depender muito das medidas pós-pico da pandemia, conforme destaca o economista da XP, avaliando ainda que o Brasil está fazendo um esforço fiscal além dos emergentes, mas com a eficácia sendo questionada em alguns casos.

Vale destacar que Paulo Guedes, ministro da Economia, Paulo Guedes, apontou que as medidas de crédito anunciadas pelo governo com o intuito de socorrer as empresas brasileiras durante a pandemia do novo coronavírus não estão sendo efetivas, prometendo lançar “uma nova rodada de programas de crédito” em breve. Além disso, segue no radar uma extensão das medidas de auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal.

Assim, os investidores e os economistas seguirão acompanhando os anúncios e a efetividade dessas medidas, além do ritmo do coronavírus no Brasil. A expectativa é de uma forte queda na atividade, mas a magnitude do tombo ainda é difícil de ser prevista. O que se aponta, por enquanto, é que a economia demorará para se recuperar do baque.

Fonte: Lara Rizério / Infomoney

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