Segunda-Feira, 06 de Abril de 2020 - 11:02 (Internacional)

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RETOMADA: DEPOIS DO PIOR DA EPIDEMIA, CHINA VIVE 'NOVO NORMAL' E TEME SURTO IMPORTADO

Retomada do convívio social é lenta, sob controle extremo e sujeita a idas e vindas


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Passado o pior momento da epidemia na China, o país começa a reativar sua economia, retoma aos poucos o convívio social e se prepara para a vida pós-coronavírus, ainda muito longe da realidade anterior. É um novo normal,  no cotidiano marcado por severas precauções de saúde e um aparato de controle extremo até para os padrões chineses. Com a transmissão comunitária contida, segundo as autoridades chinesas, os casos importados e o risco de uma segunda onda de infecções passam a ser a maior preocupação.

A normalização é gradual e sujeita a reviravoltas que mostram as incertezas de uma caminhada em terreno desconhecido. Depois que cerca de 500 cinemas reabriram no país no fim de março, com salas vazias, o governo ordenou que fechassem novamente. Em Xangai, principal centro financeiro do país, atrações turísticas chegaram a reabrir por 19 dias, antes da determinação de fecharem de novo, num sinal de que a volta ao normal é um percurso errático. A ordem também se aplica a bares, boates e  os populares karaokês.

As aulas recomeçaram em certas províncias, sob um rígido esquema de contenção do vírus. As medidas incluem desinfecção das escolas várias vezes por dia, checagem dos alunos por reconhecimento facial e exames de temperatura e uso obrigatório de máscaras. Mas na maior parte do país as escolas permanecem fechadas, muitas com ensino à distância. O gaokao, exame nacional de acesso à universidade, foi adiado para o início de julho, prolongando em um mês o estresse dos quase 11 milhões de estudantes inscritos.  

O uso de máscaras é a norma, mas em Pequim alguns já se arriscam a sair de cara limpa. Nos poucos bares e restaurantes reabertos, a nova ordem social é limitar a três pessoas o número de pessoas por mesa.  Antes desertas, as ruas já têm movimento, e o transporte público, que nunca parou, já não está mais vazio. Estrangeiros que moram na China contam que o clima piorou para eles por causa do medo de casos importados. Há relatos sobre bares, restaurantes e academias de ginástica que barraram estrangeiros. O governo chinês condenou os incidentes e afirmou que não permitirá discriminações.

Nos bairros, um passe emitido por comitês comunitários é usado para controlar entrada e saída. A liberdade de movimento depende de aplicativos desenvolvidos por plataformas populares, como Alipay e Wechat, que atribuem um código QR e determinam o risco de contágio com base no histórico de saúde e locais visitados. Se der verde, o usuário está livre para circular. Na prática, o aplicativo tornou-se obrigatório, pois é difícil entrar em estabelecimentos comerciais ou chamar um Didi (o Uber chinês) sem o status verde. Algumas cidades ofereceram recompensas a quem informar sobre vizinhos infectados. Muitos temem que a ampliação do monitoramento se torne permanente.

Em Wuhan, onde apareceram os primeiros casos do coronavírus, o isolamento total declarado em 23 de janeiro termina na próxima quarta (8). O afrouxamento começou nos últimos dias, com a permissão a quem tem o código verde para saídas curtas. Mas a maioria dos 10 milhões de habitantes da cidade completará 11 semanas sem sair de casa, como o consultor de negócios camaronês Pisso Nseke, que mora há seis anos em Wuhan. Além da dificuldades financeiras, por ter ficado sem renda, ele disse ao GLOBO que o maior desafio do isolamento é mental. Para enfrentar o longo período em solitária, criou um grupo de amigos para ajudar pessoas em dificuldade e se dedicou à meditação.

— Muita gente enfrenta depressão, ansiedade, pânico, porque você não sabe o que realmente está acontecendo. E a cada dia tudo o que você faz é acompanhar notícias de como a situação está pior.

Na economia, a tímida retomada do convívio social afeta mais duramente o setor de serviços e o consumo, mas há indícios de reaquecimento em outras áreas. Depois do tombo recorde da produção industrial nos primeiros meses do ano, a atividade das indústrias já atinge 80% do nível registrado no ano passado, segundo monitoramento da consultoria Capital Economics com  base no consumo de carvão e eletricidade.

Para o economista Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral, apesar da inevitável desaceleração não existe entre as autoridades chinesas um  dilema entre a contenção do vírus e a retomada da economia. Residente em Xangai, ele marcou sua volta para o dia 4 de maio, na expectativa de que até lá a China reabra as fronteiras. Segundo Zeidan, o governo chinês já deixou claro que está disposto a segurar a economia enquanto houver risco considerável à saúde pública, com a promessa de que os empregos perdidos voltarão mais na frente.

— A escolha da China é simples: saúde acima de tudo, porque um dos valores mais caros ao Partido Comunista é a ordem social — diz.—- O papel do governo é proteger a vida das pessoas. Senão, para quê aceitar um governo autoritário? Esse é o contrato social.

Embora o dia a dia ainda seja marcado por restrições, para a maioria da população o novo normal é um alívio depois de semanas de um isolamento sem precedentes, que transformou metrópoles vibrantes em cidades fantasmas. Changchang, 26, calcula que 70% dos funcionários da agência de relações públicas em que trabalha, em Xangai, têm optado em continuar trabalhando de casa, apesar de já poderem ir ao escritório. Feliz em voltar a treinar com seu time de basquete, ela entende que a abertura deve ser lenta para evitar um novo surto, principalmente em cidades com muitos migrantes, como Xangai.

— A preocupação não é só com estrangeiros, mas principalmente chineses que estão voltando do exterior. Como Xangai recebe muitos vôos internacionais, o estresse é grande.

Fonte: Marcelo Ninio, especial para O Globo

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