Sexta-Feira, 16 de Junho de 2017 - 17:53 (Colaboradores)

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PROFESSOR JOÃO BENTO DA COSTA: A ESCOLA REDENTORA (?)

Em um segundo momento, além de ser capaz de dominar as habilidades mencionadas, o aluno “de verdade”, que “deu certo”, é o aluno aprovado nos cursos que compõem a Santíssima Trindade: Medicina, Direito e Engenharia (seja ela qual for).


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Por Hugo Paiva

Sempre que se fala em João Bento da Costa, é comum que imediatamente os melhores adjetivos venham à tona. Claro, com razão:nos últimos 4 anos a escola tem ocupado as melhores colocações no ranking entre escolas públicas e privadas nos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Os dados do Ministério da Educação revelaram que a escola chegou a ocupar o primeiro lugar no estado de Rondônia, com média superior aos 514 pontos na prova objetiva e 574 na Redação, e dentre as escolas estaduais da região Norte e do país, ficou em terceiro lugar, perdendo apenas para o Colégio Militar da Polícia Militar do Estado do Amazonas e para a Escola Estadual de Tempo Integral Marcantonio Villaça, no ano de 2013.

De fato, com esses números, não há de se negar, a escola é digna dos elogios que recebe. O Projeto Terceirão tem auxiliado em muito nos índices alcançados pelo colégio João Bento. Entretanto, a afirmação – ou a pergunta – que faço no título desse texto é que me causa certa preocupação. Sim, preocupação talvez seja a melhor palavra para definir a motivação para escrever esse texto.

Antes de mais nada, gostaria de reforçar e insistir: a escola tem desenvolvido, através do Projeto Terceirão, um trabalho altamente louvável para essa modalidade de ensino (pré-vestibular, e demais concursos), e como já mencionado, apresenta bons resultados, atingindo, dessa forma, os objetivos a que se propôs.Embora comentado os acertos, que evidentemente estão em maior peso, o foco é outro: o “outro lado da moeda”, as consequências de um modo de ensino estruturado e pautado em vestibulares e outros concursos, o método elitista – e às vezes até excludente –, os discursos e as práticas nas relações pedagógicas e o direcionamento à superficialidade.

Para ser mais claro, gostaria de começar com um exemplo. Certa vez, elaborei uma questão para uma avaliação que perguntava a respeito dos Cinco Processos de Escrita, tema das aulas daquele bimestre. O aluno, genialmente, respondeu à questão de modo impecável. Perfeito. Sem acréscimos. Outro aluno, porém, respondeu à pergunta de modo satisfatório. Normal. Atendeu às expectativas. O terceiro aluno, no entanto, me intrigou: me deu uma resposta corretíssima, também muito bem redigida, argumentada. Porém, esse último aluno respondeu B no lugar de A, isto é, respondeu magnificamente ao que eu não tinha perguntado. Tinha um conhecimento que não servia para aquela circunstância.  Assim vejo a escola João Bento da Costa: responde muito bem àquilo que não queremos saber, ou, pelo menos, ao que não deveríamos querer saber. E agora pode parecer clichê, mas é necessário saber o que se pretende para identificar o que não se pretende. Se não ficou claro, prossigo, agora, direto ao ponto.

Fui aluno do João Bento da Costa durante todo o Ensino Médio. Concluí lá o terceiro ano, então tudo o que digo aqui é resultado tanto da experiência como aluno quanto das experiências/observações enquanto ex-aluno. Para começar, a ideologia que rege a metodologia de ensino da escola tem como base um perfil de aluno ideal: leitor, atualizado, politizado, escritor de bons textos, atento aos acontecimentos à sua volta, etc; espera-se o alunado tenha, minimamente, alguma dessas características. A concepção de aluno de sucesso é o aluno capaz de gabaritar questões de simulado ou de fazer redações nota mil, saber a diferença entre E e É, na escrita, que “a gente” não é o “agente 007”, que é 3ª série, e não 3º série, dentre outras inutilidades. Uma escola que espera ter alunos perfeitos, é o mesmo que esperar encontrar em hospitais pacientes absolutamente saudáveis. Perde sua razão de ser.

É bom lembrar queesseconceito de aluno de sucesso não é exclusivo da escola; claro, vai muito além dos muros do colégio: é resultante do mercado que criou-se a partir dos vestibulares, vide a infinidade de cursinhos pré-vestibular que abrem anualmente nas esquinas. E a respeitoda ideia de aluno que “dá certo”, vimos recentemente nas mídias o caso da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (INEH), na qual os alunos do ensino médio participaram de uma atividade chamada “e se nada der certo”, a qual vestiram-se com roupas e uniformes de profissões ditas “fracassadas”, que “não deram certo”: revendedores de cosméticos, garis, motoristas, empregadas domésticas, etc. Esse episódio me fez lembrar de algumas aulas do João Bento, em que o professor dizia que o McDonald’s e o Bob’s precisavam de funcionários, e que empregaria, com folga, os alunos que não estavam atentos à aula, ou que não correspondiam às expectativas estabelecidas.Dito isso, faço uma observação que, assim como todo o texto, expressa uma opinião particular: a maneira como a escola tem conduzido o seu formato de ensino, tem se tornado uma fábrica de alunos absolutamente medíocres e proporcionalmente arrogantes. Dada as exceções, obviamente. Talvez a escola lhes tenha conferido o título de “alunos elite”, por usarem uma camisa diferente e terem aula com “os melhores professores do Estado.”

A gravidade desse discurso aponta especialmente para duas questões: a redução à insignificância das pessoas que desempenham essas funçõesatravés do preconceito e da humilhação, e a incapacidade de lidar com questões que dizem respeito intrinsecamente às questões educacionais, e quando digo educacionais, me refiro não somente à educação formal, acadêmica, mas também a educação familiar: os valores, a moral e a ética. Mas não irei entrar nesse mérito.

Outro problema digno de nota, que a meu ver é o principal responsável pela manutenção de um ciclo vicioso: a repetição. Assistir a uma aula de 2010, há sete anos, e assistir a uma aula de 2017, não muda em absolutamente nada. Até as “piadas” são as mesmas. Digo isso porque tive a oportunidade de assistir os chamados aulões, e algumas aulas na condição de estagiário. Os aulões, que costumo dizer, são um grande espetáculo de nada. Na verdade, além de resumirem-se, na grande maioria das vezes, em disputa de egos, é, também, uma chuva de metalinguagem e conceitos que atendem a um propósito ainda desconhecido. Isso me faz refletir sobre uma questão: ou os professores têm um gabarito, um conteúdo imutável, com todas as respostas, e que qualquer coisa desvie desse gabarito é desconsiderado, ou a manutenção da mediocridade (no sentido de ter domínio de algo que não vai além daquilo), seria a fórmula para o “sucesso”.

Ao dizer essas coisas, alguns dirão que estou cuspindo no prato em que comi. De certa maneira, não é completamente uma mentira: tive a oportunidade de “cuspir” o que não me servia. O que não me cabia. E talvez esse texto seja prova disso.

Indo adiante, retomo uma questão: o que se espera, para então saber o que não se espera? E acrescento: seria o João Bento da Costa a salvação, a redenção para o problema com educação no Estado de Rondônia, e em específico, em Porto Velho? Assim como atribuído o rótulo de “aluno de sucesso” a um aluno idealizado, seria proporcionalmente coerente atribuir ao João Bento o título de redentora?É claro que com isso eu não invalido o seu mérito, seus acertos. Nenhuma escola é perfeita, isto é, “feita por completo”, “concluída”, recorrendo à etimologia da palavra. Mas é necessário que façamos uma reflexão sobre as consequências de determinadas práticas. Como profissional da Educação, atualmente, não espero que esse seja o modelo de “escola que funciona”. Não são apenas os números ou os nomes dos alunos aprovados pintados nas paredes, como de costume da escola, para evidenciar seus resultados, mas sim a construção de uma formação escolar sólida, capaz de lidar com as questões do cotidiano: da vida, da sociedade e do mundo.

Para concluir, reforço, o colégio (e outros colégios que seguem o mesmo caminho) fazem um bom trabalho, mas respondem, muito bem, às questões de uma concepção de Educação que eu não acredito. Insuficiente por excelência. E que não é a que eu espero para as gerações que virão.

Fonte: Andressa Vianex

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