Quinta-Feira, 27 de Outubro de 2016 - 09:35 (Colaboradores)

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LIVRE

O MERITOCRÁTICO OREIA SECA

O causo do ilustre cidadão que diz que se fez doutor, chefe de repartição sozinho, sem apoio do Estado “ladrão”.


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Há um defeito humano que cala fundo na Minh’ alma: o egoísmo misturado com a ingratidão!

O sujeito nasce numa família pobre e só estuda porque na cidade onde ele mora existe uma Escola Pública. Ruim e cheio de defeitos, mas é a única que existe a disposição dele. Seus pais não podem pagar uma escola privada. Nessa escola ele é escolarizado: faz todo o ensino fundamental e o médio. ok? Enquanto isso ele faz bico de "oreia Seca" [ajudante de pedreiro] para ajudar em casa. É batalhador e quer crescer ok! Isso é uma virtude para o ideário liberal clássico.

Daí o sujeito quer ir para uma universidade, no entanto o dinheiro que ganha fazendo bico não possibilita pagar uma FIMCA ou UNIRON da vida e seus pais nem pensar: são pobres! O sujeito muito esforçado é estudioso também e consegue passar no vestibular e onde vai estudar? Numa universidade PÚBLICA! Muitas vezes precisou de um vale transporte de alguns colegas de academia para pagar o ônibus para poder estudar na universidade pública cheia de defeitos, que vive em greve e maioria dos professores são simpatizantes da esquerda.

Ok. O sujeito é batalhador e cresce. É destemido, estuda e cresce. Alguém consegue uma boquinha para ele numas das faculdades privadas da cidade, opa, a vida está melhorando. Mas, sua formação até agora ele deve a Escola Pública e a Universidade Pública. Passa o tempo, o sujeito, além de trabalhador sabe do grande valor do dinheirinho soado que recebe e começa a despertar outra grande virtude tão louvada pelo liberalismo clássico: ele se torna um poupador!

Enquanto isso, o sujeito vai progredindo na vida acadêmica e depois de muita luta vira doutor numa universidade PÚBLICA! Nesse interim também, outra grande virtude liberal clássica desperta nele: ele vira investidor. E com qual capital? Aquele recurso que ele juntou oriundo de dupla forma da iniciativa privada e passa a investir em imóveis para alugar.

O sujeito é muito sabido. Fez dinheiro também até com uma casa simples que ganhou do velho pai para ele morar com a bela e inteligente esposa com quem se casou. Mas, a inteligência dele é incansável e, como nunca precisou de ninguém na vida- como costuma dizer aos amigos-, o sujeito incentivou a esposa que também estudou em escola PÚBLICA a vida inteira a fazer universidade PÚBLICA, a ser formada por ela e por tabela fazer um concurso PÚBLICO FEDERAL e não é que a danada passou! Putz! Quando o talento natural e isolado se casa com a oportunidade o resultado é batata! Sucesso atrás de sucesso!

Hoje o casal casou casando até o capital por eles poupado individualmente e hoje mora num merecido condomínio de luxo, gostoso de morar. Como os dois são profundamente religiosos, hoje gastam seu pouco tempo livre praticando caridade aos que não tiveram a mesma oportunidade de prosperar. Não tem filhos, só felinos e caninos para cuidar.

Mas, publicamente, depois de tantas conquistas fantásticas, aquele “oreia Seca” do passado que estudou a vida inteira na Escola e Universidade PÚBLICA, virou mestre, doutor e hoje complementa sua renda na Universidade PÚBLICA onde pode sua vida cevar. Mesmo assim, depois disso tudo vitupera com toda profunda força de seu coração esse mesmo Estado, desejando sua diminuição quiçá extinção.

O sujeito o responsabiliza em si mesmo como se o Estado fosse um clube, uma diretoria de uma empresa, um mero amontoado de burocratas, tecnocratas, todos absolutamente parasitas geridos por algum grupo político colocado nesta posição pela vontade do povo via eleição. O sujeito debita todos os males da sociedade ao ente: Estado com muita paixão. O grande Leviatã Vilão! A instituição que, para ele, existe como chocadeira da corrupção e da depravação. De um tempo para cá o mito do Laissez-faire domina o seu coração. Tornou-se crente que é meritocrático e que não deve nada a ninguém não!

Como ele conhece mais a história do próprio umbigo que a história desse ente; nunca aprendeu a ler historicamente o surgimento e a evolução dessa entidade demoníaca que para ele agora odeia de paixão. Ele nunca se lembra de que durante um pouco mais de quinhentos anos o Estado, que ele passou a odiar tanto, ficou sempre em pequenas mãos: primeiro dos reis de Portugal, depois dos escravocratas Senhores de Engenho e do sertão, depois nas mãos dos Fazendeiros de Café, especialmente, do sudeste brasileiro e por fim nas mãos dos descendentes desse pessoal que viraram todos liberais-capitalistas de plantão.

Para arrefecer seu ódio, um partido mequetrefe de centro-esquerda [PT] conseguiu pelo voto direto assumir o governo do País e que só governar por treze anos porque deu bobeira e foi apeado do poder por um golpe parlamentar, dados pelos representantes do que pior existe no país. Treze anos de governo que teve poucas virtudes em meio aos muitos defeitos. Treze anos que para este sujeito vale muito mais que os 500 [anos] de história de muita corrupção. Hoje se tornou algoz do Estado que até ontem deu aquela forcinha que o fez de "oreia seca" o atual chefe de repartição.

Hoje ele diz que é um “self-made-man”, mas, “esqueceu” que sempre foi e ainda é uma cria viva do Estado que, por traz de tanto aparente ódio, no fundo não quer é que outros como ele tenha a mesma oportunidade de ascensão. No seu mundo só os meritocráticos tem razão.

Fonte: Moisés Peixoto

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