Terça-Feira, 16 de Janeiro de 2018 - 09:21 (Colaboradores)

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O FILME REI DO SHOW E A CELEBRAÇÃO DA HUMANIDADE

O filme é uma adaptação livre de sua vida e se pauta em grande parte no “show de horrores” que ele criou, após contratar pessoas diferentes para se apresentar no seu show.


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Não gosto de musicais! Tenho muito pouca empatia por este tipo de filme, mesmo aqueles mais importantes. Mas então por que eu fui assistir este filme? Fui porque a minha família queria assistir e fomos então. E não me arrependi!

O filme conta a história, de forma livre e romanceada, de P. T. Barnum, um empresário norte-americano do ramo do entretenimento, sendo responsável pela criação de um dos circos mais famosos da história e dos chamados Freak Show (Show dos Horrores), onde se apresentavam pessoas com deficiências, deformidades, doenças ou aparência pouco usual, tais como anões, gêmeos siameses, homens muito altos, magros ou gordos, mulheres com barba, entre outros exemplos de pessoas que fugiam do parâmetro estético convencional.

O filme é uma adaptação livre de sua vida e se pauta em grande parte no “show de horrores” que ele criou, após contratar pessoas diferentes para se apresentar no seu show.

Eram pessoas fora dos padrões da normalidade, estranhas, de aparência pouco usual e que eram relegadas do convívio da sociedade por serem diferentes, mas que passaram a se apresentar neste show, fazendo tremendo sucesso.

Neste show, uma série de pessoas se unem para um espetáculo inusitado e acabam dividindo os seus problemas e a discriminação que sofriam, formando uma “família” de pessoas diferentes, já que passaram a se aceitar e conviver harmoniosamente. Porém, isso não impediu que os outros continuassem com a discriminá-los, com achaque, o preconceito e o ódio, inclusive promovendo atos de violência contra estas “monstruosidades” só por serem diferentes.

Num certo momento, o show do Sr. Barnum é indicado como uma celebração à humanidade, já que trazia a todos o conhecimento das habilidades de pessoas que eram marginalizadas, demonstrando a necessidade que as sociedades fomentem a convivência com estas diferenças.

Este ponto é que nos importa neste filme para a realização de uma crítica jurídica, já que vivemos num mundo em que, cada vez mais, as pessoas apresentam a sua real identidade, deixando de se preocupar tanto com certos padrões “normais” de vida. Mas, embora o mundo tenha permitido que as pessoas se expressem como realmente são, ainda há discriminação, preconceito, ofensas, discursos de ódio e violência contra o diferente, aquele indivíduo que foge dos padrões, desde questões relativas a vestimenta, passando pela sexualidade, até questões relativas a problemas físicos de cada indivíduo. Isso ainda causa o mesmo tipo de reação que na época dos fatos contidos no filme, século XIX.

Pelos preceitos que o Direito descreve, todos são iguais, portanto não importa quais são as particularidades que diferem as pessoas, não é possível proceder a discriminação de alguns por outros, pois tal ato importa na promoção da descrição da suposta superioridade de uns em detrimentos dos outros.

Claro que quando a norma jurídica fala em isonomia entre todos, não está falando de uma isonomia material, mas meramente formal, pois as pessoas são diferentes, portanto a lei pode criar benefícios a uns em detrimento de outros a fim de igualá-lo, já que isonomia não significa que todos são iguais, mas sim que a lei vai tratar os indivíduos desiguais de forma distinta, a fim de torná-los iguais perante o Estado e a sociedade em que se encontram.

Outro ponto que toca a esta questão, é a promoção do ódio ao distinto, ao diferente. Temos vivido cada vez mais situações em que aqueles que expressam a sua própria personalidade e que esta é distinta da maioria, acabam estes sofrendo preconceito, discriminação e ofensas, que muitas vezes ocorrem por expressão da força física. Tais atos não podem ser permitidos ou tolerados, já que podem importar em atos ilícitos, tanto na esfera cível, como criminal e administrativa.

É necessário se propagar o discurso da celebração da humanidade, portanto de que todos são seres humanos e merecem respeito, não podendo aquele que é diferente ser ofendido pelo simples fato de assim se expressar. Claro que a norma vai descrever punições para aqueles que acabam por ofender o outro ou seus bens, materiais ou imateriais, sendo esta a razão da existência de um Direito Penal, de punir aqueles que não respeitam as regras de convivência dentro da comunidade onde está inserido.

Mas não devemos pensar que isso só vale para quem comete crimes graves, assim reconhecidos pela sociedade ou parcela dela, mas para todas condutas que a norma assim estabelecer. De forma que a promoção da ofensa ao outro que é diferente, por via da discriminação, do preconceito e da ofensa física ou verbal deve ser também punida com bastante rigor.

Uma sociedade não tende a ser homogênea, portanto terá sempre pessoas que apresentam distintas características, não podendo estas se prestarem a vilipendiar a humanidade destas pessoas.

Desde as normas internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos humanos, até a Constituição Federal, passando por outras normas infraconstitucionais vão garantir e preservar este estado de diferença entre os seres, não podendo aqueles para quem certas características parecem estranho, promover qual ofensa a individualidade do outro.

É necessário cada vez mais celebrar a humanidade, no seu todo, sem parcimônias, sem vírgulas ou diferenciações, já que se nos ofendermos e dividirmos seremos menos humanos. Ao não celebrarmos as nossas diferenças e como isso pode ser bom para que avancemos enquanto sociedade, acabaremos por cair na barbárie, num Estado de exceção, onde o Direito e a diferença não imperam.

Esta é uma lição que é possível tirar deste filme, que possui boas músicas e uma boa capacidade de entreter, mas também de nos fazer refletir sobre a necessidade de percebermos a beleza na diferença, pois só assim estaremos celebrando a nossa característica de humanidade.

PS: o objetivo deste texto não foi dar qualquer spoiler, mas sim chamarmos a pensar sobre este problema retratado no filme, mas que é bastante vivenciado nos dias de hoje.

Sobre o Autor:

Advogado. Doutorando em Direito pela UNESA/RJ. Mestre em História pela PUC/RS e Mestre em D. Internacional pela UAA/PY. Especialista em Direito Processual Civil pela FARO - Faculdade de Rondônia e em D. Processual Penal pela ULBRA/RS. Professor de Hermenêutica Jurídica e D. Internacional da FARO e da FCR - Faculdade Católica de Rondônia. Membro do Instituto de Direito Processual de Rondônia - IDPR. Membro da ABDI - Academia Brasileira de Direito Internacional. Ex-Secretário Geral Adjunto e Ex-Ouvidor Geral da OAB/RO. Presidente da Comissão de Ensino Jurídico da OAB/RO.

Fonte: Walter Gustavo Lemos - NewsRondônia

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