Segunda-Feira, 09 de Outubro de 2017 - 20:28 (Colaboradores)

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LIVRE

NELSON ESTAVA ERRADO

No início de nossa segunda década de vida nos deparamos com as mudanças corporais e na metade dela já sofremos por amor.


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Quando foi peço ao dramaturgo Nelson Rodrigues um conselho à juventude o mesmo disse: “Jovens: envelheçam rapidamente! ”.

Ele estava parcialmente certo. Hoje sou mais sábio que ontem e amanhã me envergonharei das idiotices que acredito hoje. Ser jovem significa entregar-se tacitamente a neurose e estar fadado a acreditar que desejos podem ser puros. Quem não foi libertário até os 30 anos não tem coração.

Muitos afirmam que só se vive a partir da fase adulta, quando a maturidade nos abocanha e digere-nos lentamente. Eu, entretanto, afirmo que D’us ainda não saiu da casa dos vinte. Ele se encanta a nos ver tomar as ruas em protesto contra os anciãos e suas ganâncias, quando levantamos bandeiras e pintamos a cara, quando nos amarramos as grades de multinacionais ou desafiamos pescadores para salvar baleias que nunca irão nos agradecer pela nossa ousadia. Ser jovem não é acreditar em um mundo melhor, mas exigir que as potencialidades do homem sejam convertidas para o bem coletivo. Que romântico!

D’us se agrada dos jovens, pois na juventude a fé é inabalável e a esperança, um combustível nocivo e traiçoeiro. Acreditamos que tudo é possível e que estamos misticamente destinados ao sucesso e que as frustrações, assim como a aposentadoria, nunca irão chegar.

Acreditamos que a primeira pessoa amada, objeto de nossa atenção e excitação, será o único ser humano passível de nossos afetos e total entrega. Ao fim dessa segunda década descobrimos que nosso coração pode comportar mais pessoas. E no início da terceira década a incerteza sobre o futuro começa a dividir espaço com os estudos, as drogas e o sexo casual.

Nessa época, a indignação passa a ser uma constante enxaqueca e as oportunidades almejadas, a mais cruel das abstinências. Tudo é intenso, nada é regrado, tudo é demais, até mesmo a exclusividade e isolamento. Não há autoridades que impliquem em nossos pensamentos e decisões, pois somos auto-suficientes. Se desejarmos, a fotossíntese passaria a ser nosso modo de sobrevivência, e ai de quem contestasse tal possibilidade, pois a eles desejaríamos um mundo sem Starbucks.

Gostaria de poder dizer que após a faculdade todos conseguem um bom emprego nas áreas que desejam, que alguns encontram a pessoa amada e formam uma bela família com um casal de filhos heterossexuais. Gostaria de dizer que outros irão conseguir levar um estilo de vida bem alternativo e darão prosseguimento aos seus ativismos, e que todos serão resguardados dos acidentes e doenças precoces. Mas não posso.

Que nossa pele ficará flácida, que o apetite sexual poderá diminuir e que tudo que hoje usamos, temos, vestimos e ouvimos serão motivos de chacotas pelos nossos filhos e netos.

Até lá, não temos nenhuma pressa em envelhecer. Que nos perdoe Nelson Rodrigues, mas estamos muito bem com nossas ilusões, com nossos sentimentos ambíguos e sedutora imaturidade, pois quando fecho os olhos só desejo que o tempo se congele para que não precisemos nos deparar com a decepção que a maturidade traz, que a única e real visão de mundo não se demonstre tão cruel e complexa. Desejo que a juventude se perpetue aos homens e mulheres de bons corações e que aos cruéis e pessimistas tenham como destino um mundo sem Starbucks.

Nos perdoem, seres com corações de gelo se nossos hormônios anseiam pelo supérfluo em vez do necessário. Não nos culpem por não desejarmos compartilhar a descrença de vocês, pois se a nós nos fosse dada a chance de governar nações, inauguraríamos bairros com milhões de habitantes, criaríamos mutirões para desarmar bombas e alimentaríamos aqueles que vocês esqueceram. E, por fim, quando abrissem os olhos veriam que fizemos um bom trabalho, mesmo que tudo não tenha passado de um sonho.

PH Bentes – 21 anos

Fonte: PH Bentes/NewsRondônia

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