Terça-Feira, 15 de Agosto de 2017 - 11:07 (Colaboradores)

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LIVRE

MEU PAI, ANJO DE LUZ: UMA BREVE BIOGRAFIA DE CORRUPÇÃO

O meu desconhecido parecia ter caído do céu. O homem mais lindo e cheio de graça que vendia frutos bonitos a caminho do mar.


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Sou órfão de um país tropical, abençoado por um deus de mil faces e de natureza estuprada. Uma nação que sempre fez esforço para ser engraçada, que se vangloria de sua astúcia e que se julga premeditada ao sucesso. Três senhoras, que reencontraria anos depois tecendo a chamada linha da vida, afirmaram que esta terra jáfoicasa de veraneio dos demônios da danação, na época em que a glória rondava o velho mundo, iludindo a todos acerca de um falso pioneirismo.

Minha história, desde o princípio, se confunde com a dessa nação. Meu pai europeu se envergonha de mim, minha mãe negra,ao conseguir liberdade, fugiu com o circo, meus avós indígenas não me reconhecem como tal. Por isso, fui para as ruas onde fiquei a mercê dos desconhecidos que vadiam pelo mundo à procura de crianças para ensinar-lhes um ofício.

O meu desconhecido parecia ter caído do céu. O homem mais lindo e cheio de graça que vendia frutos bonitos a caminho do mar. Ele era de uma beleza estupenda e de uma oratória invejável. Não havia ninguém que passasse por ali e não adquirisse seu produto. A fome que me acompanhava já havia um tempo, tentava me convencer a roubar uma bela maçã, mas sabia que não era o correto a fazer. Meu orgulho me impedia de mendigá-la. “Se não roubares, não comerás. É um jeitinho peculiar e necessário de viver”, disse Ele. Mal sabia que aquela seria uma das primeiras lições que receberia ao longo de anos.

Chamavam-lhe de Anjo de Luz. Passamos a vadiar juntos pela cidade praticando alguns golpes em trouxas que, segundo ele, mereciam ser passados para trás. “Todo mundo pode ser trapaceado, filho. Todos merecem e estão sujeitos a sofrer isso. Alguns mais, outros menos”. Anjo de Luz me ensinou que o culpado pelo meu abandono era a sociedade e que eu tinha por obrigação liquidá-la. “Eu sei o que estou dizendo, filho. Todas elas são iguais, o que muda são cores, línguas e higiene”. Ele já havia viajado o mundo inteiro e me contara que jamais havia visto um povo tão merecedor de tanta desgraça, e que uma coisa tinha que admitir,nunca vira um povo tão consciente de seus direitos, mas tão inconsciente de seus deveres, e que isso é uma contradição perigosa.

Juntos, escapamos de uma tempestade nos refugiando em uma grande embarcação que transportava animais durante o Império. Brigamos também com um grande ser que deslocou minha coxa ao não querer libertar alguns escravos. Juntos, contemplamos um grande êxodo rumo à terra prometida, localizada ao norte do país. Vimos um rei autoritário que trouxe um período de prosperidade em meio à guerra, e outro que construiu um verdadeiro templo a céu aberto no meio do Brasil. Nos horrorizamos com tiranos que encaminhavam rebeldes a cativeiros, temendo profecias vermelhas. Conhecemos um cara que parecia ser a solução tão esperada. Possuia uma lábia boa e era bem pragmático, contudo, anos depois, acabou crucificado e seus seguidores perseguidos. Prometeu voltar, mesmo depois de morto.

Aprendi a arte da trapaça, do ganho fácil, da sonegação, e cada dia me fascinava mais com a possibilidade de enriquecer, porém, Anjo de Luz havia me dito que isso era só o começo e pequeno, perante grandes coisas que estavam por vir. Ele afirmou que eu precisava sonhar com feitos maiores e que estava na hora de eu me apresentar à essa tal sociedade. Para isso, eu deveria mudar de nome e assumir uma nova identidade, essa, exprimiria meu verdadeiro eu.

Os anos passaram e maturidade eu adquiria, enquanto Anjo de Luz não envelhecia. As eleições foram um alvoroço total. De imediato, conquistei a confiança da maioria, senão de todos. Eu me apresentei como o caminho mais fácil e pragmático, como a única salvação, a terceira via em uma política partidária e maniqueísta. Venci com estilo e honra. Foi fácil convencer a todos. Quando se tem um povo ignorante, mostre-lhe somente promessas e mantenha-os alheios das obrigações, pois os ignorantes normalmente são preguiçosos. Fazendo isso, privei-os da obrigação ética e com isso instaurei o caos que para eles é quase imperceptível. Eles se alienam tanto aos meios de entretenimento que ficam alheios à própria desgraça diária. Se sentem dignos de tudo e principalmente de julgar o seu semelhante, não o seu próximo, mas, o longínquo político, reflexo deles mesmos.

Antes de minha posse, resolvi visitar meus parentes. Já era conhecido por aquelas bandas de que o menino pobre que crescera ali era, agora, o novo chefe desse país. Porém, não fui bem acolhido. Os brancos de minha família paterna apoiavam o candidato derrotado, meus avós me expulsaram a flechadas e os negros de minha família materna me chamaram de “filho do Diabo”. Saí consternado, pois os meus me negaram, mas tinha um povo que me abraçaria.

Encontrei Anjo de Luz, estava pulando de felicidade. Já havia um tempo em que desejava perguntar-lhe algo: “De onde vem, Anjo de Luz?”. Ele me respondeu que havia sido expulso também de sua própria casa. Em seu lar, desejou realizar uma revolução contra a tirania que via. Um lugar onde todos fossem iguais. Ele foi o primeiro ser a corromper a si e aos outros que seguiram sua ideologia quase que libertária. Foi trocado pela nova criação. Como um meteoro, caiu em cima de criaturas gigantes e indefesas que habitavam a Terra. Afirmava que não entendia o porquê que o ser humano era digno de perdão e Ele não, alimentando, a partir daí um ódio mortal da raça humana que ao longo de milênios deixou-se nomeá-la por ele. Já havia nomeado a Hipocrisia, o Orgulho, a Tirania, todos de diferentes nacionalidades. Chegando ao Brasil, resolveu me chamar de Corrupção, pois eu exemplificava o que de mais peculiar e rotineiro havia nessa sociedade.

Senti uma compaixão necessária para com os brasileiros. São pessoas com histórias semelhantes à minha e de Anjo de Luz, jogadas à rua, esperando uma oportunidade de reviravolta, porque a esperança foi a única que não lhes abandonou, contudo, isso não deve ser álibi para todas as atrocidades que eles praticam, mas servir apenas como explicação para um comportamento já normal e corriqueiro. Talvez, quando cometemos atos antiéticos acabamos nos tornandotodos irmãos, uma verdadeira fraternidade, compartilhada sem que ninguém note. E concluo que a partir disso somos todos filhos de Anjo de Luz, criados e educados sob uma moral ainda não discutida no seio social desse país, mas que é a moral de todos os brasileiros.

O apocalipse chegou. Caminhei para fora e encontrei uma multidão que me ovacionava, gritava e ostentava bandeiras de diversos movimentos. Sei que a maioria, se não todos, nem sabiam o motivo de estarem ali. Era quase cômico ver a esperança estampada em vários olhares. Aquele era um momento memorável. A multidão gritava e reverenciava o meu nome, o Brasil inteiro naquele instante se identificava comigo, o Brasil idolatrava a mim, o Brasil amava Corrupção.

Quando Anjo de Luz criou esse país, ele quis um paraíso, e conseguiu a seu modo. Todos os filhos deste solo, hoje são Corrupção, dessa pátria amada que os pariu.

PH Bentes – órfão de pai

Fonte: PH Bentes

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