Domingo, 28 de Outubro de 2018 - 18:57 (Eleições 2018)

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JAIR BOLSONARO: O NOVO PRESIDENTE DO BRASIL

Com apenas 8 segundos em tempo de rádio e TV no primeiro turno, Jair Bolsonaro adotou o discurso direto na campanha, com os mais variados temas.


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IAN FERRAZ
RENAN MELO XAVIER
EUMANO SILVA

Os brasileiros decidiram: Jair Messias Bolsonaro (PSL) será o 38º presidente da República. Neste domingo (28/10), a maioria do eleitorado do país elegeu um ex-capitão do Exército para comandar o Brasil. Bolsonaro é um político de perfil improvável, forjado no confronto com a redemocratização e com a liberação dos costumes.

Desde o fim da ditadura, em 1985, nenhum militar assumiu o Palácio do Planalto, tampouco um político como Jair Bolsonaro, que já está na reserva das Forças Armadas. Chegou ao comando do país depois de sete mandatos como deputado federal. No Congresso, integrou por 28 anos o baixo clero, ala numerosa e com líderes de pouca expressão na cúpula do parlamento brasileiro.

Embalada pelo antipetismo, a vitória nas urnas foi construída na esteira de escândalos políticos como Mensalão e Petrolão, e dos fatos que levaram ao impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016. Ao conseguir a maioria dos votos válidos neste domingo, o ex-capitão superou seu adversário no segundo turno, o petista Fernando Haddad, e siglas do campo da esquerda, como PSB e PDT, aliadas do ex-prefeito de São Paulo na tentativa de barrar a ascensão do militar reformado.

Natural de Glicério (SP), Bolsonaro sedimentou o próprio caminho rumo ao Palácio do Planalto com bandeiras de fortalecimento dos sistemas de segurança pública e de combate à corrupção, temas que nortearam seu discurso político. Pela força das manifestações a seu favor, ele terá amplo apoio popular, mas também será cobrado pelos seguidores em temas como educação, economia e saúde.

Igo Estrela/Metrópoles

O começo do sonho

Os primeiros passos de Jair Bolsonaro para chegar à Presidência da República foram dados em abril de 2014. Ele apresentou ao Partido Progressista (PP), sua legenda à época, a proposta de lançar-se ao Palácio do Planalto na eleição daquele ano. Mas a falta de interesse do comando da sigla em atender suas pretensões impediu a realização do projeto pessoal do deputado.

Após idas e vindas, o PP decidiu formalizar aliança com Dilma Rousseff, candidata à reeleição ao Planalto pelo PT. Bolsonaro avaliou a postura do partido como “antidemocrática”. Restou ao parlamentar concorrer, mais uma vez, à reeleição para a Câmara dos Deputados.

Em meus tempos de Academia Militar, aprendi que soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é covarde. Meu sonho de mudar a realidade social e econômica do Brasil não acabou. Ao contrário, sinto-me ainda mais disposto a me entregar por meu país.

O resultado nas urnas naquele ano, no entanto, animou Bolsonaro. Com 464.572 votos, ele ficou em primeiro lugar na disputa pelas cadeiras destinadas ao Rio de Janeiro no Legislativo Federal e foi reconduzido para seu sétimo mandato na Câmara.

O início da campanha

Desde 2014, viagens para palestras e eventos por todo país e o uso intenso das redes sociais foram estratégias adotadas por Jair Bolsonaro para se cacifar como opção viável ao Planalto.

Apesar do apelo por sua candidatura, o deputado ainda tinha um dilema: por qual partido ele concorreria à Presidência da República? Após deixar o PP em abril de 2015, ele ingressou no Partido Social Cristão (PSC). Não deu certo. Bolsonaro entrou em atrito com a direção da nova legenda e perdeu espaço. Informalmente, o deputado deixou o PSC em agosto de 2017, já em meio a negociações com outras siglas.

A busca por uma legenda pela qual chegaria à Presidência foi marcada por uma traição. Por alguns meses, Jair Bolsonaro aproximou-se do Partido Ecológico Nacional (PEN). Fez e recebeu promessas. Entre as propostas defendidas pelo presidente da sigla, Adilson Barreto, estava a mudança de nome para Patriota, o que se concretizou. Isso era uma demanda reivindicada pelo pré-candidato a presidente. Mas o ingresso de Bolsonaro no partido não se tornou realidade.

No início deste ano, o deputado de sete mandatos firmou compromisso com Luciano Bivar e filiou-se ao Partido Social Liberal (PSL). A chegada do parlamentar incomodou membros do Livres, movimento de renovação interna da legenda.

Uma debandada de integrantes do PSL ocorreu em reação ao ingresso do militar da reserva e seus aliados na sigla. O PEN/Patriota, por sua vez, deu o palanque de presidenciável negado a Bolsonaro para outro recém-chegado na legenda: o igualmente polêmico deputado federal Cabo Daciolo (RJ), expulso dos quadros do PSol, pelo qual foi eleito para a Câmara dos Deputados em 2014.

Em 22 de julho deste ano, Jair Bolsonaro foi anunciado como pré-candidato à Presidência da República pelo PSL durante convenção no Rio de Janeiro. Cercado por apoiadores e figuras importantes do partido, mas sem aliados de outras siglas, o presidenciável levantou as bandeiras que o fizeram vencedor do pleito de 2018: amor à pátria, antipetismo, promessas de combate à corrupção e linha dura para enfrentar a criminalidade.

Isso tudo sem enfrentar os debates entre candidatos. No primeiro turno, Bolsonaro participou apenas de dois confrontos com concorrentes: o primeiro foi na TV Bandeirantes, em 9 de agosto; o segundo, organizado pela Rede TV, no dia 17 do mesmo mês. Em ambos, ele se transformou em alvo dos adversários. Outros encontros foram cancelados. As críticas a Jair Bolsonaro levaram o presidente do PSL, Gustavo Bebianno, a dizer que o presidenciável não participaria mais de debates eleitorais.

Na madrugada de 1º de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou o registro de candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), até então líder das pesquisas, com base na Lei da Ficha Limpa. A decisão abriu o caminho para Bolsonaro, que, desde outubro de 2017, aparecia como líder nas sondagens de intenção de votos nos cenários sem Lula. Quando o líder petista foi oficialmente posto pela Justiça Eleitoral para fora da disputa, o militar assumiu a liderança isolada da corrida presidencial.

O PT optou por anunciar Fernando Haddad, até então vice na chapa, para substituir Lula somente em 11 de setembro. A estratégia era associar o máximo possível o nome do novo presidenciável ao do principal líder do partido.

Apelo familiar

Com apenas 8 segundos em tempo de rádio e TV no primeiro turno, Jair Bolsonaro adotou o discurso direto na campanha, com os mais variados temas. A equipe do militar foi norteada por apelos populares, do sentimento de insegurança à valorização do formato tradicional de família. O perfil conservador provocou simpatia no eleitorado e criou condições para a defesa incondicional por parte de militantes que inundaram as redes sociais com propagandas e mentiras a fim de ajudar a inflar a candidatura ao Planalto.

A participação de familiares foi um dos pontos fortes na campanha de Bolsonaro. Políticos de profissão, os filhos Flávio, Eduardo e Carlos (na foto abaixo, com Jair Bolsonaro) montaram palanques para o pai e, também, cativaram os eleitores. O primeiro foi eleito senador pelo Rio de Janeiro. O segundo conquistou a reeleição por São Paulo, com votação recorde para deputado federal. Carlos não se candidatou neste ano.

Da esquerda para a direita, o clã Bolsonaro: Carlos, Flávio, Jair e Eduardo

Na jornada rumo ao Palácio do Planalto, Bolsonaro teve a companhia de uma cidadã do Distrito Federal: Michelle de Paula Firmino Reinaldo, a futura primeira-dama do Brasil. Natural de Ceilândia, ela é a terceira esposa do presidente eleito. Eles se casaram em 2007 (foto abaixo) e tiveram a filha Laura, a caçula de Bolsonaro, hoje com 8 anos.

Michele e Laura, contudo, mantiveram-se afastadas dos holofotes da campanha, assim como o penúltimo filho de Bolsonaro, Jair Renan, de 20 anos.

A facada

Em 6 de setembro, Jair Bolsonaro viveu o momento mais conturbado e traumático das eleições de 2018. Durante agenda de campanha em Juiz de Fora (MG), ele foi vítima de um atentado: o garçom Adélio Bispo de Oliveira, 40 anos, desferiu uma facada no ventre do presidenciável (foto abaixo).

Socorrido pela emergência da Santa Casa da cidade, o militar reformado precisou ser operado após apresentar lesões nos intestinos grosso e delgado. No dia seguinte, viajou em avião particular para São Paulo, onde ficou internado por 22 dias no Hospital Albert Einstein.

Nas primeiras semanas de recuperação, o candidato não teve paz. Bolsonaro precisou mediar crises provocadas por membros da campanha, como o general da reserva do Exército Hamilton Mourão, candidato a vice, e o economista Paulo Guedes, possível futuro ministro da Fazenda e Planejamento, além de guru do novo presidente nessa área. Declarações polêmicas dos principais aliados levaram o capitão da reserva a usar as redes sociais, a partir do quarto hospitalar, para contornar a situação.

Poucos dias depois do atentado, o presidenciável conquistou uma vitória na Justiça. Em 11 de setembro, a 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) recusou o recebimento de uma denúncia contra ele. Jair Bolsonaro era acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) de racismo e manifestação discriminatória contra quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros). A acusação teve como base uma palestra do então deputado, feita em abril de 2017, no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro.

“Eu fui em um quilombola [sic] em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador eles servem mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano gastado com eles”, disse, na ocasião.

Em geral, ao longo da campanha, Bolsonaro conseguiu contornar situações que poderiam tirar, massivamente, seus votos. A ausência em debates e manifestações contra ele realizadas em todo país, como o movimento #EleNão, foram episódios minimizados pela estratégia de comunicação do capitão da reserva e de seu exército de apoiadores.

No primeiro turno, o candidato do PSL arrebatou 49.275.358 milhões de votos válidos. Embora expressivo, o apoio do eleitor não foi suficiente para torná-lo presidente sem segundo turno. Fernando Haddad (PT), seu adversário, obteve 31.342.005 milhões de sufrágios, o equivalente a 29,28% do resultado total, levando a disputa para mais uma rodada.

Polêmicas

A campanha do peesselista sofreu um golpe em 19 de outubro. Reportagem do jornal Folha de S.Paulo mostrou que empresas pagaram R$ 12 milhões para envio em massa de conteúdos pelo WhatsApp contra o petista Fernando Haddad. A prática é considerada caixa 2, visto que empresas estão proibidas de doar para campanhas políticas. O TSE investiga o caso. Segundo o PT e siglas aliadas, isso beneficiou Bolsonaro com a proliferação de notícias falsas. O militar negou todas as acusações.

Outra denúncia, da revista Época, mostrou que uma produtora de vídeo existente apenas no papel e registrada em Petrolina (PE) recebeu R$ 240 mil da campanha de Jair Bolsonaro para produzir vídeos para televisão e redes sociais.

A denúncia diz se tratar de uma empresa fantasma, uma vez que o endereço da “Mosqueteiros Filmes Ltda.” é uma casa vazia e com anúncio de venda. Os donos do imóvel disseram à reportagem da Época que a produtora alugou um escritório no local há muitos anos.

Apoiador do candidato do PSL, o dono da loja de departamentos Havan, Luciano Hang, é suspeito de usar sua influência para induzir funcionários a votar em Bolsonaro. O Tribunal Superior Eleitoral interveio, ordenou que o empresário interrompesse a conduta e o obrigou a gravar um vídeo declarando aos trabalhadores serem livres para decidir o voto.

A revista Veja também levantou fatos que poderiam atrapalhar a corrida pela Presidência. De acordo com reportagem publicada no fim de setembro, a segunda ex-mulher de Bolsonaro, Ana Cristina Valle, havia declarado à Justiça, durante processo de separação litigioso, que uma das razões para o término do casamento foi a “desmedida agressividade” e o comportamento “explosivo” do parlamentar.

A ex-esposa disse também que o militar da reserva ocultou patrimônio em declarações. Após a revelação do caso, ela minimizou as informações dadas à Justiça na época da separação.

Jair Bolsonaro ainda enfrentou resistência na mídia estrangeira, que produziu diversos artigos condenando suas opiniões e pensamentos. Durante turnê no Brasil, o cantor Roger Waters, um dos fundadores da banda Pink Floyd, também se manifestou contra o parlamentar. Mensagens com a hashtag #EleNão e a inclusão de Bolsonaro na lista divulgada durante o show do músico, com o nome de neofascistas no poder ao redor do mundo, dividiram o público, que se manifestou com aplausos e vaias.

Fonte: metropoles

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