Quarta-Feira, 20 de Setembro de 2017 - 09:58 (Colaboradores)

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ESCOLHEMOS ABORTAR - POR PH BENTES

O feto já possui reflexos, reagindo se alguém mexer na barriga da então mamãe, nesse momento as mãos se fecham e os dedos dos pés se curvam. Esse também é o prazo limite de gestação previsto por lei para que um aborto ocorra sem ser considerado um crime.


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Toda mulher irá se deparar com o aborto algum dia. Seja o aborto de um feto ou o aborto da própria ideia de abortar. “Eu não planejei nenhum dos meus filhos. Mas se me arrependo de tê-los tido? Jamais”, afirma Mulher I, 41 anos.

Aos três meses de gestação ainda não é possível identificar o sexo, mas os órgãos genitais já estão formados. Os olhos já começam a ir para o lugar certo, bem como, as orelhas. O feto já possui reflexos, reagindo se alguém mexer na barriga da então mamãe, nesse momento as mãos se fecham e os dedos dos pés se curvam. Esse também é o prazo limite de gestação previsto por lei para que um aborto ocorra sem ser considerado um crime.

Somente a mulher conhece os prós e contras de trazer à vida o mais novo membro de uma comunidade, no entanto, essa mesma sociedade não a consulta e muito menos se importa que futuro essa criança e sua mãe terão, mas julga se essa última optar pela interrupção da gravidez. Porém, essa mesma comunidade também não consulta, e muito menos julga o homem, quando este se abstém da obrigação paterna quando bem lhe convém.

A Pesquisa Nacional do Aborto afirma que em 2015 foram realizados mais de meio milhão de abortos, ou seja, uma mulher a cada minuto em algum lugar desse país democrático assumiu o controle de sua vida e se viu perante a uma grave escolha. Grave pelo sentido de ter consequências negativas para ambos os lados. E foi no final de 2015 que Duda (nome fictício de nossa entrevistada) entrou para essa estatística:

“Na verdade, foi mais simples do que se pode imaginar. Foi como uma equação. Minha condição financeira, problemas de saúde de minha outra filha, minha vida profissional e o fato do pai não assumir seu papel foram as vertentes dessa equação. Mas não foi difícil. O aborto foi a melhor opção não somente para mim, mas para o bebê também. Imagine como seria desesperador nascer nessas condições”.

A gestação só demonstra seu lado positivo quando é bem-vinda e planejada. Quando é acidental, fruto da falta de prevenção ou até mesmo em casos de estupro, ela se torna um fardo e tem tudo para dar errado. Muitos são os motivos que levaram essas mulheres a tomarem a decisão de “assassinar” um feto.

O Cristianismo restringe o significado de VIDA, pois para a Igreja, vida é o encontro de um óvulo e um espermatozoide, mas, tendo em vista que milhares de óvulos fecundados não vingam nos primeiros dias, sendo eliminados na menstruação, temos, portanto, um genocídio sem algoz?

A corrente que prevalece no Brasil é a de que a vida surge a partir dos primeiros sinais de atividade cerebral. No entanto, vida para uns é quando o indivíduo já possui consciência de seus atos. Para outros ela começa na autonomia. E para alguns ela pode nunca chegar, mesmo que um coração pulse e pulmões respirem.

Em seu egoísmo, a sociedade julga o assassinato de um feto e afirma que óvulos fecundados são mais importantes que a vida de uma mulher independente e pagadora de impostos. Contudo, não há velório para um aborto espontâneo, não há sequer o nome do feto na declaração de óbito, constando somente como natimorto, devendo o médico alegar se a criança nasceu ou não com alguma atividade respiratória, critério para afirmar se o bebê nasceu com vida.

Para uma mulher que sofre um aborto só restam palavras de motivação para uma futura gestação. Não há o mesmo tratamento como dado a uma mãe que perde um filho aos sete anos por exemplo. Para a sociedade, uma mulher que tenha sofrido vários abortos nunca foi mãe, pelo simples fato de não ter vivenciado as experiências e particularidade da maternidade, ao passo, que afirmam que todo feto é vida.

Mulheres que optam por dar seguimento a uma gravidez não planejada, são mulheres que escolheram sim a vida, mesmo que essa ainda não tenha o sentido de uma. E mesmo que uma grave doença esteja envolvida elas ainda acreditam que não possuem o direito de privar ninguém da superação e quem sabe serem felizes mesmo que seja em um curto prazo de tempo. Nuna (nome fictício de nossa entrevistada) foi uma dessas que seguiu com a gravidez:

“Antes de ter o bebê cheguei a pensar em aborto. Peguei o dinheiro para a compra do remédio. Foi muito difícil e era meio que inacessível porque foi cobrado R$ 1.000,00 por uma caixa de Citotec (Misoprostol, medicamento usado na medicina veterinária para proteção estomacal de animais). Mas, na hora, eu e meu ex-namorado desistimos e optamos por ter a criança. Mas foi uma situação terrível com 16 anos. Uma vida inteira pela frente, escola e trabalho e você pensar em desistir de tudo isso. Já era tarde, quase três meses e o ‘recomendado’ é praticar o aborto até a nona semana, por isso, meu ex-namorado ficou com medo de acontecer algo de ruim comigo, pois eu teria que tomar mais pílulas do que a dosagem correta, podendo ter uma hemorragia. E optamos por ter a criança, mesmo sendo uma situação bem desagradável. Você está prestes a ir para a faculdade, construir sua vida e ter que lidar com isso. Eu só sabia chorar e dizer que não queria a criança, mas era uma decisão que não era só minha, pois eu era menor de idade. Você até consegue fazer suas coisas, mas depois fica sem dormir, sem comer direito, sem poder tomar um banho em paz. É muito difícil. Sinto uma mágoa muito grande por ter destruído os planos que meu pais tinham para mim e pelas marcas que a gravidez deixou em minha vida e no meu corpo, que para uma adolescente é uma das piores partes, pois destrói a autoestima. Não quero mais filhos, mas se ocorrer uma nova gravidez e ainda der tempo de abortar, recorrerei sim ao procedimento”.

“Foi um aborto cirúrgico em uma clínica particular, o que é muito seguro. Estava com 14 a 15 semanas de gestação. Foi meu ginecologista de rotina que me falou sobre a interrupção, me indicando um profissional e explicando o procedimento. Fiz exames pré-cirúrgicos e como tudo estava certo, marquei a cirurgia três dias depois. Foi anestesia geral, pois o feto já estava ‘grandinho’. Só acordei no outro dia passando mal e tendo hemorragia. Mas algo me chamou a atenção, a preparação da equipe. Havia psicólogas e assistentes sociais o tempo todo, além das enfermeiras serem estranhamente educadas. Parecia que já tinham experiência na área, pois havia outras moças também. Eu era a mais nova, na época com 19 anos.

O procedimento custou R$ 5.500,00, eu arcando sozinha, fora os custos extras, pois o pacote inclua somente três dias. Depois, peguei o atestado médico de trinta dias em que nele constava uma complicação na gravidez, resultando na morte do feto. A assinatura não era do médico que fez a cirurgia, era carimbada por um hospital público. Achei isso superestranho. Marquei a laqueadura para o ano que vem, mas mesmo que viesse a engravidar nesse período, o que é difícil pois uso DIU, abortaria novamente. Já tenho duas filhas. Não quero outro bebê. Nenhuma mulher consegue carregar a culpa de dissipar uma vida sozinha. O aborto precisa ser discutido na mesa do jantar."

A brasileira pobre, por sua vez, tem que se deparar com a automedicação e clínicas clandestinas que se assemelham a matadouros para a realização do procedimento. Quando não há dinheiro e coragem, a mulher desassistida socialmente opta por trazer ao mundo uma criança que não terá boas condições de vida, como educação, saúde e segurança pública eficientes que possam lhe garantir o mínimo de dignidade humana. É um ciclo vicioso que se repete todos os anos no país, resultando em jovens marginalizados que só contribuem ainda mais para o gritante quadro de desigualdade social no Brasil. Esse jovem, que a sociedade conservadora tanto batalhou por seu nascimento, agora não recebe nenhum apoio governamental, e muito menos assistência dos grupos religiosos que demonizariam sua mãe se essa tivesse recorrido ao aborto. Esse jovem tão desejado se encontra agora em um quadro de miséria, vendo como única saída, o envolvimento no crime. No futuro ele será preso e custará muito mais aos cofres públicos do que um estudante, cuja mãe não se arrepende de tê-lo dito, mesmo sendo fruto de uma gravidez também indesejada.

A sociedade não valida a escolha da mulher no que cerne ao aborto, mas a responsabiliza isoladamente pelas ações errôneas de seus filhos, como se ela suprisse todos os papéis de uma figura paterna e de um Estado justo.

Todo ser humano se depara com a opção do aborto algum dia. Uns escolhem abortar o respeito, outros a ignorância. Alguns abortam o direito, outros o machismo. Muitos políticos vão além e abortam vidas prematuras através da corrupção, outros optam por abortar a desigualdade social. Uns abortam seus próprios sonhos estando tão mortos quanto um óvulo que se esvai na menstruação.

A gestação com certeza proporciona momentos incríveis que ficarão para sempre na memória de uma mulher. A descoberta do sexo, o primeiro chute, a escolha do nome, o nascimento, o primeiro choro, a primeira troca de olhares, a amamentação. Posteriormente, ela se encantará com os primeiros passos, as primeiras palavras, o aperto no peito no primeiro dia de aula. Chegará ao limite com as peculiaridades da adolescência e se orgulhará com a entrada de seu filho na faculdade e no mercado de trabalho. Possivelmente, virão casamentos e os netos. São momentos lindos que o Estado e uma sociedade conservadora tentam impor a uma mulher, só que nem todas nasceram para serem felizes assim. A única conclusão que podemos chegar é de que todas as mulheres já nascem condenadas a felicidade sendo, ou não, MÃES.

PH Bentes – Não planejado

Fonte: PH Bentes

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