Sexta-Feira, 29 de Setembro de 2017 - 11:02 (Colaboradores)

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DIA-LOGANDO: ANDAR EM SI MESMO - POR RENATO GOMEZ

É triste caminhar por aí e ver que a cidade não tem calçadas apropriadas nem para os pedestres, quanto mais para um cadeirante ou deficiente visual.


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Hoje eu estava sem carro e resolvi caminhar do trabalho pra casa. Sim, é longe. Seis quilômetros. Mas eu estava afim de ver um pouco do caminho que faço diariamente de carro sob outro ponto de vista.

Em dezembro, faço 20 anos de Porto Velho, em uma semana, completo 33 anos de vida. Vivi mais aqui do que em qualquer outro lugar, vim acompanhando meus pais e irmãos e, quando poderia ir embora, escolhi ficar, criei raízes, construi família e, acima de tudo, me tornei "beradero", amo Porto Velho.

É triste caminhar por aí e ver que a cidade não tem calçadas apropriadas nem para os pedestres, quanto mais para um cadeirante ou deficiente visual. É triste ver que temos poucas árvores pela cidade, que as pessoas nos veículos estão com tanta pressa que não respeitam as faixas de pedestres e nem os semáforos, invadem preferenciais. A gente tem tanta pressa que perdeu o tempo pro respeito. Ajudei uma senhora a atravessar a rua NA FAIXA, observei ela de longe, tentava, mas ninguém parava.

É triste ver que as mulheres andam nas ruas com medo de serem assediadas, assaltadas, estupradas. Tive medo, tiveram medo de mim, todos tem medo de ir e vir. Alguns trechos são escuros, paradas de ônibus mais escuras do que a alma de alguns políticos.

Hoje, eu andei no melhor meio de transporte que existe: andar em si mesmo. E andando em mim eu cai na real, a real que eu já sabia, é difícil andar sem armadura nesse mundo.

Eu ouvi alguns jovens conversando, um deles disse que "ela é maior puta, já ficou com todo mundo". Pensei em parar pra falar pra ele sobre não ser, não agir e não pensar como um babaca, falar que ela tem o direito de fazer o que quiser assim como ele, sem ser rotulada por isso. Desisti, não é porque eu estou chegando aos 33 que eu tenho que bancar o messias. Já melhoro o mundo ensinando meus filhos a não serem babacas. Quando olhei pra ver quem era o pequeno machista, ele estava com a camisa do "mito".

Eu também vi coisas belas, poesias emolduradas, esperando para serem escritas, penduradas em pequenos recortes do cotidiano. Ipês floridos, crianças jogando bola, trabalhadores de uma oficina jogando sinuca no local de trabalho após o fim do expediente. Tomei uma cerveja gelada. Vi pessoas praticando exercícios ao ar livre no parque da cidade.

Os faróis dançam na pista, uma dança eufórica e descompassada, todos tem pressa vestidos em suas armaduras. A rotina é um balé de luzes ao som de buzinas, roncos de motores e xingamentos.

Eu reparei detalhes que me passam despercebidos no dia a dia, meus olhos estão vivos, eu me sinto vivo, a cidade é um organismo vivo, mas minhas pernas estão cansadas, elas não sabem o bem que fizeram a mim. O povo é o par de pernas da cidade.

Fonte: Renato Gomez/NewsRondônia

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