Quarta-Feira, 22 de Novembro de 2017 - 22:27 (Colaboradores)

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LIVRE

DEUSES DE ALUGUEL - POR PH BENTES

Olhávamos pelas janelas imaginando o que o mundo nos reservaria, esperando o dia em que nossos desejos e decisões entrariam em conflito com a ordem divina.


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Quando criança nossos pais nos ensinavam a orar todas as noites antes de dormir. Entre os pedidos estavam o perdão pelos nossos pecados, proteção à nossa família, lar e amigos. Alguns tiveram a chance de frequentar uma igreja. Em sua maioria, era enfadonho ouvir os sermões morais baseados em escritos bíblicos. Olhávamos pelas janelas imaginando o que o mundo nos reservaria, esperando o dia em que nossos desejos e decisões entrariam em conflito com a ordem divina. Hoje, uma parte de nós olha com questionamento as fachadas dos templos e catedrais. Haverá um dia em que nossos filhos irão interceder por nós antes de dormirem?

Crer em uma entidade divina significa abdicar de toda a potencialidade humana em prol de algo abstrato, atribuir explicação e causa a eventos de nossas vidas, criar esperança no desconhecido e acreditar no melhor cenário possível que seja compatível com nossas ações. Acreditar em um deus é a maior prova de humildade, é reconhecer a vulnerabilidade humana e, por que não, culpar alguém pelos rumos dados à vida. Ser jovem e religioso nos dias atuais é vendar os olhos voluntariamente do mundo e de suas atrações.

“O tempo que passei dentro da igreja não foi de todo inútil, pois aprendi muitas coisas, principalmente sobre que tipo de ser humano nunca ser. No entanto, depois que saí eu abri meus olhos para tudo o que um dia eles me fizeram fechar. Hoje sei discernir e escolher o que é bom ou não para mim. Às vezes, nós precisamos viver coisas ruins para adquirir anticorpos. Eu sinto que hoje vivo o livre arbítrio que eles pregavam que tínhamos, mas que não nos permitiam usar. Sair da igreja me fez ser quem eu sou hoje. Eu era um ventríloquo que eles manipulavam usando o nome de Deus”, afirma Marilí69, 21 anos.

Acreditávamos que se comêssemos toda a comida do prato o “papai do céu” iria prover alimento às crianças da África por causa de nossa gratidão e obediência, porém, quando crescemos concluímos que não importa o quanto sejamos bons e tementes a Deus, parece que todo clamor não é capaz de evitar tanto sofrimento alheio.

Com o tempo, fica claroque a realização de nossos desejos está unicamente sujeita a seres de carne e osso, que nossa cura está em suas mãos, que nossa mesa estará farta graças a eles, bem como, a segurança de nossos lares e pessoas amadas. Portanto, hoje já não oramos mais em direção ao céu, simplesmente olhamos para os lados e concluímos que a santidade e esplendor sempre estiveram mais próximos do que imaginávamos. Oramos para que eles tenham vida longa e tenhamos chance de ver seus grandes feitos.

A fé que antes nos direcionava ao invisível, a tirania e ao fundamentalismo hoje é motivo de chacota. Já não temos uma concepção de deus perfeito, pois enxergamos beleza nas ações errôneas do ser humano. O livre arbítrio não é mais visto como nocivo e quando nos decepcionamos com os nossos deuses, olhamos para dentro de nós procurando resquícios de uma realeza divina, uma legitimidade que dê força à nossa autonomia, mas percebemos que já não conseguimos viver sem a misericórdia desses novos verbos e, assim, abdicamos novamente de toda nossa potencialidade e estendemos a eles nossa felicidade, esperança, prazer, segurança e sobrevivência.

A covardia parece ser um ato sensato em tempos de dúvida. Por isso, antes de dormir ainda oramos, desta vez, clamando para que a humanidade esteja de bom humor nos dias que virão.

PH Bentes

Fonte: PH Bentes/NewsRondônia

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