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Quarta-Feira, 25 de Novembro de 2020

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CIDADE CINZA - POR RENATO GOMEZ

Relações superficiais, tênues como a fumaça, mas que deixam marcas profundas, pois, ao mesmo tempo em que procuramos pelo desapego, nos sentimos sós.
Sexta-Feira, 16 de Agosto de 2019 - 11:48

É estranho acordar e vislumbrar o cinza. O sol aqui já foi amarelo, ora empoeirado, ora enlameado, é verdade, mas isso é normal, os períodos de seca e chuva se alternam durante o ano e colorem o cotidiano. Se em um o sol queima às oito da manhã, brilhando forte em um céu azul, sim, nosso céu já foi azul, no outro, temos o brilho da água lavando a cidade. Hoje o céu amanheceu cinza. O sol está em cinzas. Abri a porta de casa e, num primeiro momento, quis pensar que fosse neblina, mas não era. Era a fumaça da insanidade.

A fumaça tem seu charme. Saindo do cigarro dela, a moça que eu gosto, ou na balada, invadindo o ambiente e criando nuances de sensualidade. Mas aqui, não! No amanhecer da cidade, a fumaça intoxica tudo. Esconde as cores da vida. Um quadro pintado a grafite e carvão. O cotidiano em preto e branco. Armas químicas e poemas diz a letra da música que toca no rádio do carro, enquanto dirijo e fumo. Armas químicas pra quê? Nós mesmos queimamos a vida. Poemas? Houve um tempo em que a fumaça era de livros queimados, tempo tão distante e tão perto ao mesmo tempo.

Lágrimas, tosses, sensação de sufoco… Sintomas do amor que vai e da poluição que vem. Ouço dos amigos que esse ambiente tóxico está contaminando até os sentimentos. Após os tempos líquidos, serão estes os tempos gasosos? Amores que se dissipam no ar, deixando tudo cinza, peitos carregados de fumaça tóxica, das pessoas e do ambiente. Relações superficiais, tênues como a fumaça, mas que deixam marcas profundas, pois, ao mesmo tempo em que procuramos pelo desapego, nos sentimos sós.

Qualquer dia desses, acordaremos e nos colocaremos a rastejar, como se estivéssemos em um grande incêndio, e de fato é, a queimada do retrocesso, o homo erectus, o homo sapiens, regredindo por suas próprias ações, rastejando de tanta sabedoria. Mas há quem diga que o aquecimento global é mentira. Há quem duvide dos buracos na camada de ozônio, da existência desta.

A cidade é cinza. O ser humano é o crematório do mundo. A cidade, o dia, a vida e a alma, tanto quanto a bituca do meu cigarro, se desfazem em cinzas.

Fonte - Renato Gomez - NewsRondônia
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