Domingo, 22 de Março de 2020 - 21:40 (Artigos)

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LIVRE

APRENDENDO COM O LUTO MUNDIAL: POR MOISÉS SELVA SANTIAGO

Tentar entender o luto é tarefa indesejada e desprezada. É mais atraente pensar em coisas boas da vida. Como a alegria, a paz, o pão de cada dia, saúde, família, amigos, dinheiro no bolso e muita satisfação pessoal.


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Que o Covid-19 veio para surpreender o mundo, não é novidade, pois está em todo o globo. A desagradável surpresa é a morte que ele semeia por onde passa, independentemente de fronteiras, ideologias, cor de pele e fé, causando um profundo sentimento de luto mundial. Provavelmente, a última vez que mulheres e homens de todas as idades sentiram essa dimensão foi na 2ª Guerra Mundial.

Tentar entender o luto é tarefa indesejada e desprezada. É mais atraente pensar em coisas boas da vida. Como a alegria, a paz, o pão de cada dia, saúde, família, amigos, dinheiro no bolso e muita satisfação pessoal. Mas ele existe e, inexoravelmente, atinge a cada um na fragilidade da vida pois, como dizia Chicó, "tudo o que é vivo, morre" (Ariano Suassuna). Se é assim, adianta aprender com o luto? E quem pode ensinar?

Rapidamente, surge a professora Religião. Além de outras expressões religiosas, a Bíblia judaica cristã descreve sobre a primeira morte: um irmão mata o outro. Nesse relato, o luto nasce dentro da família. Entre pessoas do mesmo pai e mãe, do mesmo sangue correndo nas veias – embora o sangue de um deles agora estivesse derramado na terra. Depois de Abel, seguiram-se incalculáveis mortes. Os efeitos do luto foram multiplicados e levados pelas nuvens de lágrimas de quem perde alguém. Luta, escravidão, guerra, tortura, traição, genocídio e todas as formas de violência passam a ser cotidianas. E até o bondoso Nazareno é pendurado numa cruz para que a morte dele ensine sobre a vida aqui e depois. Afinal, a cruz que apontou para o céu estava fincada na terra e os braços abertos de Jesus apontavam para os dois lados do mundo. Do mesmo mundo onde todos vivem.

O detalhe que Caim esqueceu diante de Abel e salta aos olhos hoje é que todos os humanos continuam sendo da mesma família. Debaixo da pele negra, amarela, branca, parda ou de qualquer outra tonalidade, flui o mesmo sangue vermelho vital. Os olhos arredondados ou puxados para os lados, verdes ou escuros, desejam ver a mesma felicidade pessoal e coletiva. Os idiomas europeus, asiáticos, africanos ou tribais expressam amor, respeito ao trabalho, cordialidade, solidariedade. Os hábitos e costumes dos povos, tão diferentes – em vez de serem demonizados – procuram manter o frágil equilíbrio entre o tradicional e o moderno com o objetivo de preservar a vida. Sim, há uma só família no mundo, chamada de raça humana.

Se, agora, alguém folheasse o álbum da história da família humana, veria que as pessoas que mais contribuíram para o bem-estar da humanidade foram simples, altruístas e desprovidas de riqueza e poder. Foram (e são!) mulheres e homens amantes da vida que descobrem vacinas, constroem tecnologias, desbravam céus e mares. Gente que opta pela paz como a melhor opção, que educa crianças, adota a não-violência, age em hospitais, recolhe o lixo, filtra a água que se bebe, proclama o Deus do amor ao próximo, gera a energia que conecta o mundo, imprime livros, colhe alimentos, compõe músicas, ergue monumentos, defende a pátria, pinta, esculpe, nina crianças, cria animais, acolhe velhos, defende a justiça, faz a segurança coletiva, planta jardins, ampara viúvas, estende a mão ao próximo... Pessoas que, ao salvarem uma vida, salvam o mundo (Talmude). Infelizmente, nesse mesmo álbum há uns poucos governantes que cometeram (e cometem!) as maiores desgraças da história, matando milhões e milhões de pessoas em nome de uma ideologia de esquerda ou direita, do lucro exacerbado e da fé em si mesmos. Pensam que são de outra família. Sentem nojo de quem lhes é diferente. Anseiam por um tipo de limpeza do mundo onde somente os seus iguais e subordinados existam. Dizem que assim agem em nome de Deus. E atualmente usam o Codiv-19 para empanturrarem-se de dinheiro por causa da calamidade pública, do jogo político, da economia. Por detrás das máscaras que usam, sorriem das vítimas e do luto. Tais líderes jamais entenderam as aulas da religião.

O problema se agrava quando pessoas responsáveis por pessoas subdimensionam o perigo imediato e o luto do outro. Temos visto isto em certos líderes políticos e religiosos que debocham da dor alheia e menosprezam a gravidade da situação. Talvez essa seja a reação mais comum e infantil de todas, porém absolutamente indesejada em adultos com o poder de decisão de milhões de vidas em suas irresponsáveis mãos.

A segunda fase é a raiva: "Ora, por que eu? Isso não é justo! Você é o culpado!". Mais uma vez a imaturidade explode. Pessoas assim se consideram superiores às demais. Merecedoras de total justiça. E logo apontam o dedo para o primeiro Judas que encontram. A verdade é que o Codiv-19 não tem nacionalidade. Assim como as nuvens, os oceanos, os peixes e o mosquito da Dengue. O culpado não é o colega do trabalho, o metrô lotado, o partido tal, o presidente fulano. A malhação do Judas (ato de bater num culpado) em nada contribui, pois nem tudo se resume à dicotomia crime e castigo dostoievskiana.

Agora vem a depressão: "Eu me odeio, nada será como antes... O mundo perdeu a cor!" Entrar num buraco em plena crise é perigosíssimo. Não se trata de uma trincheira de defesa, como a orientação de ficar em casa para evitar o Covid-19. Aqui (como sempre), a depressão age negativamente levando a pessoa a perder duas bases da própria razão de viver: o amor a si mesmo e a esperança. Nenhum vírus escolhe sua vítima pela cor da pele, pela conta bancária, pelo lugar onde nasceu, nem se o enfermo mora num palácio ou num presídio, na favela ou num luxuoso apartamento. Quem escolhe suas vítimas são os poderes ideológicos. Nessas horas de crise, aproveitam para não ajudarem e se enriquecerem mais com a desgraça do outro. Imagine se cada político doasse 10% da verba a ele disponibilizada para a área de saúde de seu próprio país... E o mesmo fizessem os bilionários...

A barganha se segue: "Eu faço qualquer coisa se isso tudo acabar! Já sei: vou fazer o certo e saio ganhando!" Aqui, a pessoa cria uma ficção, uma situação irreal, que a fará vencedora da crise. Além disso, para sair da crise, ela assume o compromisso de ser uma pessoa melhor, mais gentil e cooperativa com as demais – depois. Há clara intenção de negociar um resultado positivo. É como se alguém dissesse ao Codiv-19: "Não me atinja nem à minha família, porque seremos pessoas melhores! Você pode ir por aí, mas não entre na minha casa. Não me importo se italianos ou afegãos, nova-iorquinos ou chineses estão morrendo, contando que eu e minha família fiquemos bem!" Esse comportamento egoísta também atesta que quem assim pensa faltou às aulas do padre, do pastor, do rabino, do mulá, do babalorixá, do Papa ou do Dalai-Lama.

E a última fase, a aceitação: "Tudo dará certo! Tinha que ser assim!" Embora pareça melhor em relação às anteriores, aqui pode residir uma falsa paz, principalmente diante do Codiv-19. Não, nem sempre tudo dará certo. E sempre há algo que pode ser feito para amenizar o mal e construir o bem pessoal e coletivo. Embora o vírus não seja eterno em seu poder destrutivo, há o que ser feito imediatamente. Como o que aconteceu a Golias, vencido por uma pedra arremessada pelo adolescente Davi. A fase da aceitação é importante porque nela a realidade precisa ser corretamente dimensionada e apreendida rapidamente. Trata-se de pegar logo a pedrinha, sem prestar atenção no poder e nos insultos do gigante. É saber que se luta pela família dos humanos em toda terra, e não pelo bem só para si e os seus. É planejar e executar como será o amanhã, depois de passada a crise, pondo em prática o que se tem aprendido em cada batalha.

Platão disse que há três tipos de homens: os vivos, os mortos e os que navegam. Quanto aos dois primeiros, são evidentes. Mas, navegar é o desafio. Ventos erguem ondas. Noites assustadoramente intermináveis. O barulho do medo sufoca o sussurro da prece. Esconde-se na cabine fechada. Lá fora, o fim parece ser inevitável. Porém, no meio da tempestade, ouve-se o eco de Fernando Pessoa, na canção Navegar é preciso; viver não é preciso. O poeta desejou nele o espírito desta frase. Disse que o que é necessário é criar. Desejou sua vida útil à toda a humanidade. Alimentou seu sangue com o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.

Nesta guerra contra o Codiv-19 (é ele nosso inimigo comum!), como eu e você estamos reagindo? Negando o luto mundial? Apontando para culpados? Desesperançados? Com as portas do coração lacradas por rezas egocêntricas e promessas de ser melhor, caso escape? Agindo irresponsavelmente como se nada estivesse acontecendo porque tudo isso tinha que acontecer? Esperando o caos piorar com saques, vandalismos e ameaças ao estado democrático de direito? Fingindo não ver o comportamento inconsequente de alguns líderes dessa pátria amada, que ao lado de um punhado de religiosos irresponsavelmente conduzem as batalhas contra o vírus?

A frase que Fernando Pessoa usou, "navegar é preciso; viver não é preciso", foi dita antes de Cristo pelo general Pompeu, diante de assustados marinheiros que se recusavam a embarcar durante a guerra. Isto é atitude de um comandante. Isto é ser um estadista. Isso é ser um líder político e religioso. Esta é a hora de 220 milhões de brasileiros fazerem bem sua parte nesta guerra. E cantarmos do Oiapoque ao Chuí a poesia de Francisco Manuel da Silva: "Mas, se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte." E assim o Brasil dirá a si mesmo e ao mundo que aprendeu as lições do luto e as porá em prática urgentemente para garantir o amanhecer de um novo mundo para a imensa família de humanos sobre a terra.

Fonte: Moisés Selva Santiago

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