AMOR ALUCINATÓRIO – Por Max Diniz Cruzeiro

É um querer bem que transita com uma abundância de sentidos em que o fator de realidade é distanciado por um evento alucinatório.
Terça-Feira, 06 de Dezembro de 2016 - 08:28

É um querer bem que transita com uma abundância de sentidos em que o fator de realidade é distanciado por um evento alucinatório. O indivíduo que ama caminha sua idealização de amor para um sentido projetivo distante do momento oportuno do agora de realização deste sentimento.

Então o fluir da sensação do amor é a inspiração para que ele passe a gestar o seu conceito de percorrer a vida desejando bem ao ser que se ama.

O efeito alucinatório distancia os indivíduos da realidade, provocando emanações de sentimentos na forma de afetos conflituosos pela distância, e afetos de identificação positiva quando correspondências subjetivas configuram o saber do indivíduo que se sente correspondido.

Então gera-se um fator de indecisão. Quando um está positivamente aderente a um desfecho que o desejo una os corpos, o outro logo percebe e perde o interesse, colocando barreiras para que a realização deste amor não seja consentida no momento atual. E quando o outro decide por si próprio arriscar, o enlace do ser amado gera-se um desencanto que os momentos não se fundem para que a experimentação seja sentida.

Na realidade o encontro que se deseja é o pretexto para que o casal continue cultivando emanações e ondas de amor que os fazem sentir queridos e amados por mais tempo, longe da convivência que a dura realidade mostra os apegos particulares geradores de conflitos dentro de uma unidade relacional.

Como um processo indutório de encantamento, o repercutir pelo caminho que faz crer figura grata, no sentido de um querer bem demonstrado na forma de gestos e ideações de correspondência, viciam os sensores humanos e torna o homem refém do sentimento que deve a cada amanhecer ser renovado a fim de que a construção do delírio seja sustentada.

Ao mesmo tempo é um desejar estar perto condicionado a um estado de declínio da identidade pessoal para fazer com que o senso de pertencimento passe a ignorar a si mesmo para dedicar ao ser que se pressupõe amar neste estado gerencial.

Então cria-se uma condição fictícia de que o agora é momento ingrato, e que a felicidade somente pode ser conquistada no futuro, mas o vínculo que se forma entre os amantes não estremece e o fator alucinatório cria uma lei de compensação no qual faz perceber que o par relacional fora fundido em nome do amor. Então emanações de raciocínio cobrem os casais separadamente indicando-lhes a certeza subjetiva da correspondência, enquanto os destinos seguem de forma disjuntas a trilhar caminhos não coincidentes.

A certeza é tão profunda que o pensamento se funde em ciclo alucinatório, que em muitos casos a sua condensação é representada por fantasias de manipulação expectral do próprio corpo, como se fosse a emanação do espírito e alma do ser que se ama, em partilha de sensações e sentimentos.

Estes fantasmas energéticos na forma de incumbes e sucumbes, apresentam-se de forma em que a carga energética de um indivíduo está em profunda efervescência libidinal, não havendo outra solução de que usar a ilusão projetiva como elemento para saciar o desejo reprimido da carne que não consegue esperar porque o seu sintoma de amor já está na própria pele ejaculando.

Porém tais fantasmas energéticos não passam de protofantasias que a pressão do desejo exige uma manifestação histérica sobre o corpo que compense esse conteúdo amoroso que se gesta e que se espera não acabar com o tempo.

Longe de ser considerado uma paixão, é um tipo de mecanismo que tenta compensar uma falta que é gestada para sempre carregar um sentido incompleto de correspondência, a fim de que as sensações libidinosas possam por mais tempo despertar o vigor da estrutura corpórea de um indivíduo.

A sensação de saciedade, em muitos casos rompe pela pele, mesmo sem o contato, com um orgasmo somente de ter a pessoa próxima. Como se um acoplamento vital estivesse estabelecido entre os seres que se amam e um pertencimento oferecesse o gozo para a pessoa amada como prova de vinculação amorosa.

O amor alucinatório confunde a psique, porque cada vez mais exige correspondência que não pode ser estabelecida fisicamente, provocando um distanciamento do ser que se ama, para uma acoplagem com a projeção que se cria de correspondência deste protoplasma que se enlaça gerando correspondências dinâmicas no próprio corpo.

Tudo passa a ser vago, vazio, incipiente, insignificante se na projeção alucinatória, o sentido do outro não esteja presente, como uma representação que oferta uma geração de sentido para o ato que se pratica como ação ao qual se vincula com um teor físico, que está no mundo real, mas que motivacionalmente somente tem sentido realizar a tarefa se esta protofantasia indicar que o ser que se ama é o objeto que oferta a ação.

Enquanto isto o tempo, isto mesmo, o tempo, se encarrega de afastar os indivíduos que simularam seu amor, para se perderem em outros envolvimentos projetivos, onde se pode identificar traços deste mecanismo em outros indivíduos identificados com a diretiva de serem correspondidos.

E o que sobra do amor alucinatório é um caminho, cristalizado na mente pronto para ser utilizado em outros projetos da vida que se destinam postergar para se construir a sensação de alcance, ou merecimento, de vitória ou de autorrealização. Porque se construiu um ambiente interno que está sujeito as leis da repetição, onde apenas os papéis são representações secundárias que se alternam conforme o cotidiano enredo de nossas vidas. Amar é ir além junto, em comunhão, na construção de um diálogo em que o crescimento é definido fisicamente, no qual a projeção conjunta é um lance de fé construído dia após dia.

Fonte - 010 - Max Diniz Cruzeiro

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