NEM TANTO AO MAR, NEM TANTO A TERRA

Imagine você, servidor público, ser mantido sob vigilância para que sua integridade seja testada por integrante do Ministério Público ou Polícia Federal.
Segunda-Feira, 05 de Dezembro de 2016 - 08:16

A impressão que se tem após assistir a votação de medidas contra a corrupção pela madrugada e avaliar a reação de procuradores de cuja responsabilidade do cargo se exige discrição e apreço redobrado pela democracia, é que o país endoidou de vez. Mais do que isso, tristemente evidenciado, é a existência de interesses inconfessáveis por parte de representantes de instituições pilares da República do Brasil, que na opinião do historiador Marco Antônio Villa está em fecundação, prestes a nascer.

Uma decorrência da Lava Jato e suas descobertas.

É a conclusão a que chego. Faltam bom senso e análise dos fatos. De gritaria, estou farta. O ponto é que na última semana equilíbrio e verdade faltaram de um lado e outro, com as posições antagônicas reverberadas pelo noticiário, que por oportunismo, má-fé ou ignorância, da votação da madrugada só diz que os deputados desfiguraram o pacote do Ministério Público Federal, apoiado por milhões de pessoas, e que se vingaram da Lava Jato patrocinando com 313 votos um destaque do PDT ao projeto, responsabilizando magistrados e membros do MP por abuso de autoridade.

Nada de festejar a inclusão da corrupção como crime hediondo, do crime de caixa dois no Código Penal, a punição ao eleitor que vender voto, a retirada do teste de integridade, da figura do reportante do bem e da extinção do domínio de propriedades, antes mesmo de ser comprovado que foram obtidas com dinheiro ilícito.

Imagine você, servidor público, ser mantido sob vigilância para que sua integridade seja testada por integrante do Ministério Público ou Polícia Federal. É evidente a inconstitucionalidade de uma medida que trataria o funcionário público como corrupto em potencial, nem precisaria ter investigação em curso.

Do texto foi extirpada também a possibilidade do horror de pessoas delatando outras para auferir vantagens financeiras – até 20%, salvo engano, do apurado em recursos recuperados na corrupção – em processos nos quais provas ilícitas seriam válidas, também retirado do projeto. Estes exemplos são para mostrar que nem todas as 10 medidas contra a corrupção eram boas, e para colocar as coisas no lugar: quem faz leis são deputados e senadores.  Corruptos ou não, eleitos por todos nós.      

Procuradores e juízes são endeusados, quando se sabe que nenhuma classe especial de servidores públicos no Brasil é infalível e aceita renunciar a privilégios inconciliáveis com os interesses da população, que não aguenta mais trabalhar cinco meses do ano para pagar impostos e ter serviços públicos imprestáveis, entre eles justiça morosa e ineficiente. Juízes e promotores em comarcas por aí afora acabam com a vida de prefeitos, servidores e, pior, de cidadãos que com nada contam para se proteger.

Procuradores prestam um desserviço ao país quando jogam a população contra a democracia, e deputados e senadores quando atuam vergonhosamente movidos pelo instinto de sobrevivência, como na madrugada de terça-feira (29), em defesa de interesses econômicos, em manter foro privilegiado, quando desdenham do sofrimento da população, dispensam criminalizar o enriquecimento ilícito para servidores e se negam a cortar na carne regalias insustentáveis nos dias que correm. 

Debates importantes para o Brasil, o combate à corrupção e o abuso de poder das autoridades só entraram na pauta do Congresso Nacional por causa dos bravos operadores da Lava Jato e da pressão da sociedade. No rastilho das retumbantes e diárias revelações das investigações, do medo dos poderosos das prisões temporárias, preventivas, buscas e apreensões.  

O conflito entre instituições está instalado. Isso interessa à nação. Não interessam as posições plebiscitárias, os embates ideológicos desprovidos de análise real dos fatos, com base em gritarias sem sentido e destruição criminosa de patrimônio, sem admitir que o sistema político-partidário apodreceu, e que a corrupção drena o esforço descomunal da nação.

Dizer não às incríveis manifestações verde-amarelas convocadas pelas redes sociais porque são coisa de coxinha, da direita ou do PSDB é embotamento das mentes esculpidas em dogmas politicamente indefensáveis, que não existem mais.  Quem está na rua em sua grande maioria detesta partido, e com toda razão.

É hora de união.

Fonte - MARA PARAGUASSU

Comentários

Siga-nos:

POLITICA DE PRIVACIDADE

Todos os direitos reservados. © News Rondonia - 2021.