OURO (DE TOLO) NA FESTA DE ABERTURA E NA BUROCRACIA

É coisa de povo que adora ser enganado, só pode, e se contenta em ser campeão da alegria e do prazer, embalando festas para as quais não há competidor a altura.
Terça-Feira, 09 de Agosto de 2016 - 08:50

Não vi a abertura das olímpiadas, mas tentei recuperar o “tempo perdido” no dia seguinte para saber como foi. Então fico sabendo, pela imprensa nacional, internacional e por amigos, que o Brasil ganhou medalha de ouro na cerimônia do superfaturado Maracanã.

Fico sabendo também que Paulinho da Viola, com sua elegância e simplicidade de sempre, com a voz aveludada e linda que a natureza deu, não pôde cantar todo o hino nacional brasileiro por causa de míseros um minuto a mais. Exigência do Comitê Olímpico Internacional, a qual todos os organizadores do evento caninamente sucumbiram, como tem sido praxe, aliás, aos mandachuvas do esporte nessa terra adorada de azul anil. 

Fico sabendo que Anitta e a breguice da Regina Casé tiveram mais tempo que Paulinho da Viola, símbolo do melhor que temos não só por causa da música genuinamente brasileira, entranhada em nossa alma, mas pelo que ele próprio representa, a simpatia e mistura de raças tão exaltada na festança que acabou por perdoar até o prefeito pelos desacertos e crimes eventuais cometidos. Eduardo Paes não assina a direção artística, mas os cariocas agora o aplaudem!

É coisa de povo que adora ser enganado, só pode, e se contenta em ser campeão da alegria e do prazer, embalando festas para as quais não há competidor a altura. Claro que, como diz o compositor Vinicius de Morais, é melhor ser alegre do que triste, a alegria é a melhor coisa que existe, mas o êxtase festivo de 365 dias ao ano está nos levando para onde mesmo?

Tolerantes e cordiais como somos, perdoando maltratos em serviços públicos de quinta categoria, fico sabendo, também, que o rombo no custo das olímpiadas será pago com dinheiro público, da prefeitura e do combalido governo do Rio de Janeiro. O disse com todas as letras, coisa mais natural nessas paragens, o presidente do Comitê Olímpico do Brasil, Carlos Nuzman, em entrevista publicada neste domingo, 7, pelo jornal “O Estado de São Paulo.”   

Não se tem ideia do valor, mas prepare-se para trabalhar além de cinco meses por ano do que já trabalha para pagar impostos, porque a coisa vai apertar. Para mim, recorrer aos cofres públicos para cobrir prejuízos não é novidade alguma, e desde 2009, quando ficou acertado que sediaríamos os jogos olímpicos, era mais do que previsível reconhecer a engrenagem da corrupção em formação para surrupiar dinheiro público em outro mega evento internacional.

Em terra onde há tantos heróis sem caráter, como dizer, só imaginem,  que o melhor seria fazer igual a Suécia, que se recusa a usar dinheiro público nos jogos de inverno de 2022 porque sua prioridade é habitação? Por aqui, o coco corre a céu aberto, abrindo porta para infinidade de doenças, mas sanear cidades não cai no agrado popularesco e populista.          

A Copa do Mundo de 2014 foi o aperitivo das obras inacabadas, mal executadas, superfaturadas, abandonadas e inutilizadas após o êxtase da derrota.  Quem pagou a conta do rombo, e quem acertou contas na Justiça desde então?

Nuzman reclamou não apenas da ausência da Petrobras como patrocinadora das olímpiadas mas também da burocracia. Organizar jogos nessa magnitude com uma Brasília burocrática e de pernas para o ar não deve mesmo ter sido fácil. Com mudança trivial no comando de ministérios, o que de um tempo para cá passou a ser regra e não exceção, a dor de cabeça dos organizadores em sete anos deve ter sido medonha.  

Só agora falam das dificuldades, por isso, arrisco também dizer que no país medalha de ouro para a melhor festa há os que incensam a burocracia, afinal ela vende dificuldades para comprar facilidade$. Assim, a corrupção vai deixando digitais nas obras que foram feitas, sem fiscalização e exigência das normais contratuais, como se nota na vila olímpica, entregue em condições inadequadas. Os corruptos agradecem.

Claro que em pleno agosto é bom descansar das manchetes da Lava Jato. Nas próximas duas semanas, derrota e vitória irão compor notícias sobre esportes, escapando para outros espaços dos jornais a derrota moral vivida pelo Brasil que a política faz questão diária de nos lembrar. 

O duro é ligar a TV logo cedo e ver no ranking de medalhas uma única prata para o Brasil, gigante de tamanho e potencial tanto quanto Estados Unidos e China, primeiros colocados no quadro de medalhas. Surpresa? Nenhuma. 

Os sete anos de preparo para os jogos olímpicos não cuidaram do essencial: o preparo dos atletas brasileiros. Surreal, o Brasil precisa encarar suas verdades, indo além da criativa capacidade de organizar festas.

Podem me chamar de elitista, chata ou estraga prazer. Mas ouro de tolo, como cantava Raul Seixas, eu não quero não.     

Viva os jovens atletas de todo o mundo!

Fonte - Mara Paraguassu

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