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Terça-Feira, 24 de Novembro de 2020

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URUCUMACUAN, O ELDORADO EM RONDÔNIA

Tudo indica que os muíscas ou chibchas obtinham o ouro por meio de trocas com indígenas de outras regiões ou extraindo ouro dos rios da região.
Segunda-Feira, 11 de Janeiro de 2016 - 15:52

O Eldorado (do castelhano El Dorado, "O Dourado"), Manoa (da língua achaua manoa, "lago"), ou Manoa del Dorado (já citado anteriormente) é uma lenda que se iniciou nos anos 1530 com a história de um cacique ou sacerdote dos muíscas, indígenas da Colômbia, que se cobria com pó de ouro e mergulhava em um lago dos Andes. Inicialmente um homem dourado, índio dourado, ou rei dourado, foi depois fantasiado como um lugar, o reino ou cidade desse chefe lendário, riquíssimo em ouro.

Embora os artistas muíscas trabalhassem peças de ouro, algumas das quais hoje formam o rico acervo do Museu do Ouro em Bogotá, nunca foram encontradas entre eles grandes minas, muito menos as cidades douradas sonhadas pelos conquistadores que pretendiam repetir a façanha de Francisco Pizarro no Peru. Tudo indica que os muíscas ou chibchas obtinham o ouro por meio de trocas com indígenas de outras regiões ou extraindo ouro dos rios da região.

Sedentos por mais ouro, os conquistadores fizeram o mito migrar para leste, para os Llanos da Venezuela e depois para além, no atual estado brasileiro de Roraima ou nas Guianas. Na forma tomada pelo mito a partir do final do século XVI, a cidade dourada, agora conhecida como Manoa, se localizaria no imenso e imaginário lago Parima e teria sido fundada ou ocupada por incas refugiados da conquista de Pizarro.

O mito é semelhante ao de Paititi ou Candire, que também seria uma cidade cheia de riquezas que teria servido de refúgio a incas que escaparam da conquista espanhola, mas costuma ser localizada muito mais ao sul, entre as selvas da Bolívia e Peru ou no Brasil, no Acre, Rondônia ou Mato Grosso. Os dois mitos têm origem comum no sonho de conquistadores de enriquecer repetindo a façanha de Francisco Pizarro, o conquistador dos incas, e influenciaram-se mutuamente, mas o de Paitíti associou-se, em tempos mais recentes, com a nostalgia de povos andinos pelo antigo Império Inca, ganhando conotações nativistas.

Na segunda metade do século XVIII, correu a notícia em Cuiabá da descoberta das minas de Urucumacuan, ricas jazidas que se localizaram entre o rio Juruena e o Jamari; entretanto o caminho a ser percorrido nunca foi definido, mas o capitão-general João de Albuquerque Perereira de Melo e Cáceres mandou fazer exploração naquelas paragens “em direitura dos Campos de Parecis descendo o rio Guaporé”[1]. Fizeram prospecção no leito do rio Branco, onde teriam achado mostras de ouro, também o rio Piolho, perto de onde alguns negros formaram um Quilombo do mesmo nome, demonstrou existir ali ouro, igualmente o São Pedro foi escavado onde encontraram mostras de ouro embora muito fraca. Assim resolveram voltar ao ponto de partida sem conseguir encontrar as minas propaladas, como acontecera com outros aventureiros que as procuravam.

Em 1909, Rondon observou uma região da linha telegráfica, a partir do rio Cabixi, nas terras dos municípios de Vilhena e Pimenta Bueno. Ali haveria uma faixa de noventa quilômetros contendo cascalho aurífero de onde teria colhido amostras e enviado para análise no Rio de Janeiro, onde fora revelada a existência de ouro de 23 quilates, tendo o sertanista organizado, em seguida, uma expedição sob a direção do engenheiro de Minas Francisco Moritz.

“O mesmo engenheiro Moritz foi encarregado ainda pelo general Rondon, de estudar, sob o ponto de vista mineralógico, a zona compreendida entre os rios Ji-Paraná ou Machado, o Comemoração e o Pimenta Bueno. Reorganizando sua turma em Vilhena, daí partiu a nova expedição, pela picada da linha telegráfica, até atingir a estação “Barão de Melgaço”, banhada pelo Comemoração. Tendo iniciado a marcha no dia 25 de janeiro de 1913, alcançou a estação telegráfica José Bonifácio, no dia primeiro de fevereiro de 1913, ali permanecendo até dia 5 de março, época em que as chuvas começaram a diminuir. No dia 10 de março, chegava a expedição a Barão de Melgaço, onde permaneceu até dia 20, ocupada na construção de uma canoa. A 22 acampou junto a foz do Rio Barão de Melgaço, onde iniciou o exame do terreno, estudando esse rio e seus tributários. Internando-se mais a Oeste examinou todos os córregos até encontrar a formação sedimentária formando capa sobre o granito, sem descobrir porém, nenhum vestígio de mineração.

“Do exposto verifica-se a ter a comissão Rondon descoberto, no interior do estado de Mato Grosso, uma larga faixa de terras onde abunda o ouro e onde existe o diamante. A sua localização na zona das nascentes do Ji Paraná e Cabixi parece identificar a célebre mina de Urucumacuã, de que tratam escritos antigos, conforme opinião versada pelo Marechal Rondon em conferência em 1915”.[2]

O etnólogo E. Roquette Pinto, um dos membros da Comissão Rondon, em seu livro “ Rondônia”, dá sua versão sobre a localização das minas:

“Em 1909, a terceira expedição Rondon partiu de Juruena e varou inteiramente a mesopotâmia que se acha entre ele e o Madeira. Começou a marcha a 2 de junho. A 11 de outubro estava a 18 graus e 17 minutos do Rio de Janeiro, debaixo do paralelo de mais um rio, que Rondon batizou com o nome de Pimenta Bueno a quem a geografia do Mato Grosso deve linhas magistrais. Depois passou em setembro pelo rio Barão de Melgaço e cabeceiras de Cacimba de Pedra, sob a orientação de Rondon, sonhador e patriota, o Ministério da Agricultura destinara 800 contos para se constituir a logística da Expedição Urucumacuã, liderada por uma equipe de três engenheiros geólogos, que se especializaram-se nas minas do Morro Velho”.

Integravam a expedição ao Urucumacuã um médico, um radiotelegrafista, um enfermeiro e alguns garimpeiros. Seguiram à frente 20 trabalhadores, os quais, após dois meses em Porto Velho, foram para Guajará Mirim, no Mamoré. Por este rio entraram no Guaporé e subiram o Corumbiara com maquinaria e artigos diversos destinados às pesquisas auríferas. A esse tempo, pelo Ji Paraná, partindo de Calama, seguiam 24 toneladas de comestíveis, medicamentos, sondas e outros equipamentos de engenharia, tudo destinado a Pimenta Bueno, estação telegráfica. Ao todo foram cinco meses até Pimenta Bueno. “Sem demora as febres e infecções intestinais atacaram a todos, inclusive os dirigentes. Embora doentes, os técnicos fizeram as buscas, as prospecções e avaliações e concluíram pela negativa”.[3]

Rondon estava convencido da existência das jazidas, que pensava ter localizado no rio Barão de Melgaço, cuja abundância de ouro daria para pagar a nossa dívida exterior. Com tantas gemas o presidente Vargas poderia encampar a “Bond and Shar” e subsidiárias; montar a Volta Redonda, sem ter que negociar com Roosevelt; construir muitas represas e a Petrobrás teria nascido dez anos antes, no contexto da época.[4]

No Rio Machado, os garimpeiros de diamante andaram pesquisando ouro propalando a existência daquele metal ali no leito daquele caudal. Também os pesquisadores andaram faiscando no Jacy-Paraná e, no rastro dos bandeirantes, voltaram a pesquisar o rio Branco. Mas o maior número de garimpeiros de ouro ocorreu, a partir de 1971, no valado Madeira e Mamoré, entre Lajes e Araras e, já em 1980, os garimpeiros iniciaram a ocupação de todo trecho entre Guajará Mirim e Porto Velho, quando a verdadeira da corrida do ouro aconteceu, até mesmo porque o governador Jorge Teixeira, conseguiu junto ao Ministro das Minas e Energia, a liberação temporária do garimpo manual na região, mas com uma série de restrições e orientações.

Sobre o garimpo da década de 80, temos ainda sofrido com seus reflexos históricos, principalmente no que tange ao impacto ambiental, sócio-cultural na região, problemas na urbanidade e também na violência.  Ao tempo que aparentemente o garimpo traria progresso e riqueza, ele deixou rastro de mercúrio nos rios, violência urbana e invasões a terras em Porto Velho que deram origem a novos bairros anos depois. O fato que a busca do ouro, do “El Dorado”, do sonho de ficar rico rapidamente faz parte do nosso passado, do presente, e acredito que por falta de controle, de fiscalização e repressão, ainda será o nosso contexto de futuro.

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098


[1] CORREA FILHO, Virgílio – História de Mato Grosso. Rio de Janeiro, MEC-INL, 1969.p.162.

[2] MAGALHAES, Amilcar A. Botelho. – Pelos Sertões do Brasil, Porto Alegre, Globo, 1930.

[3] MAGALHAES, Amilcar A. Botelho. – Pelos Sertões do Brasil, Porto Alegre, Globo, 1930. Pág. 215.

[4] CABRAL, Otaviano – História de uma região; Mato Grosso, Fronteira Brasil-Bolívia e Rondônia. Rio de Janeiro, Himalaia, 1963. P254-55.

Fonte - Aleks Palitot
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