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Terça-Feira, 02 de Março de 2021

LENHA NA FOGUEIRA: TRANSFORMAR O PALÁCIO DAS ARTES DE RONDÔNIA NUMA IGREJA EVANGÉLICA

O mais engraçado nisso tudo é que um dos irmãos que compõe a associação citada, é um ex-promotor da gandaia, da cultura mundana – como os evangélicos referem-se ao carnaval – talvez tenha se “convertido” porque o mundo gospel é mais lucrativo, não tem crise.
Terça-Feira, 29 de Setembro de 2015 - 10:05

O leitor Flávio Daniel Pereira da Silva militante cultural desde os tempos da “revolução”. Me ligou solicitando espaço para publicar um artigo. De imediato disse que era só mandar que a gente publicava. Ontem o tal artigo caiu na minha caixa de e-mail e como havia garantido ao Flávio que publicaria. Estou cumprindo o palavra dada.


Leiam e comentem o desabafo ou o alerta do Flávio Daniel sobre a pretensão de alguns empresários, com o aval do presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Rondônia – ALE em querer transformar o Palácio das Artes de Rondônia numa igreja evangélica:


Em nome de Jesus (*)


Maurão intermedia uso do teatro em Porto Velho”, assim está estampado neste Diário, na página A4 do caderno Política, de 20/09/2015, onde, na matéria alhures o presidente da Assembléia Legislativa, intermedia o uso do teatro da capital para fins culturais religiosos.


Só o título da matéria já nota-se que há interesse, explique-se. O presidente do recinto legislativo estadual, com uma tal associação denominada “Homens de Negócio do Evangelho Pleno”, os executivos da fé, tentam, em vão, solicitar ao Governo do Estado que libere o único teatro da capital a fim de que esse também possa servir de espaço para as “manifestações culturais gospel.”

Rir para não chorar. Cumpre lembrar que em 12/03/2014, mediante o Autógrafo de Lei n. 927/2013, o Circo Legislativo Estadual reconhece a música gospel e os eventos a ela relacionados como manifestação cultural. É cediço que os nossos representantes na Assembléia não tenham lá tanto conhecimento ou estudo, mas querer ignorar a Carta Magna deste País já é demais. Pergunto-me o porquê dessa exclusividade a música gospel. Esse apartheid religioso acentua ainda mais a ignorância dos nossos deputados estaduais, mas também que a Assembléia há muito tempo deixou de ser laica, indo de encontro a Lei Maior.


Felizmente o Governo do Estado vetou o Projeto de Lei, valendo-se para isso da nossa Constituição – alguém sensato! Com a vênia do leitor, impõe-me o dever de explicar o que significa Estado laico, talvez os nossos deputados e seus assessores (leia-se irmãos) não saibam o quê significa. Estado laico é um estado oficialmente neutro em relação às questões religiosas, não apoiando nem opondo-se a nenhuma religião. Todos seus cidadãos devem ser tratados igualmente, não devendo dar preferência a indivíduos de certa religião. E fim de papo. Anotou aí, Maurão?


O mais engraçado nisso tudo é que um dos irmãos que compõe a associação citada, é um ex-promotor da gandaia, da cultura mundana – como os evangélicos referem-se ao carnaval – talvez tenha se “convertido” porque o mundo gospel é mais lucrativo, não tem crise.


O nosso teatro é uma autarquia que não pode ser usado para fim de ganância de um determinado grupo. Vocês têm as igrejas, têm seus próprios eventos, atrações, etc. Deixem o nosso teatro, deixem o nosso povo se divertir, não misturem as coisas.


Importa lembrar que essa novela já passou uma vez, onde, o pano de fundo foi o saudoso ginásio Cláudio Coutinho. Todo final de semana, religiosamente, havia um evento gospel, deteriorando o espaço e principalmente o piso, que não fora projetado para receber um número maciço de pessoas. Deu no que deu.


Por fim, esperamos que os nossos representantes deixem de lado suas convicções religiosas na hora de legislar e não esqueçam que a sociedade está atenta no que diz respeito as decisões e interesses da referida Casa.


A cultura não pode perder mais essa, já basta os MP's da vida meterem o dedo no nosso, quase extinto, carnaval.


Jesus não cobra o ingresso, o pastor cobra.


(*) O autor Flávio Daniel - é carnavalesco e funcionário público aposentado. 

Fonte - Zé Katraca

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