MORRI NO SERINGAL, SONHANDO EM FICAR RICO – POR SIMON O. DOS SANTOS

Parei na parte rasa do Ribeirão, onde amontoei umas varas para servir de local de banho, abaixei-me e com as duas mãos levei ao rosto uma minúscula porção da água fria do Igarapé.
Sabado, 13 de Junho de 2015 - 10:03

Levantei-me de manhãzinha, eram umas quatro horas, a escuridão ainda insistia em açoitar a densa floresta molhada às margens do Igarapé Ribeirão. Os pássaros, já afinavam os primeiros acordes de uma desafinada cantoria que se espalharia  mata adentro, saudando a chegada do amanhecer e da lida do seringueiro, nas sinuosas e alvissareiras estradas, com suas árvores cheirando a látex e imensos cortes incrustados em seus caules, como se fossem profundas cicatrizes.

As cinzas na trempe faiscavam lentamente, enegrecendo ainda mais as desgastadas palhas da cobertura do tapiri. Sentado em um velho tamborete,  feito da sobra de um  caçoar e amarrado com cipó embira, reavivei o fogo colocando sobre as cinzas um pedaço de caucho,  deixando o tapiri envolto em uma nuvem esbranquiçada de fumaça, enquanto eu colocava o encardido bule com café, tantas vezes requentado, sobre a trempe.

Tomei alguns goles daquela água amarronzada e morna, e me lembrei da última vez que tomei um verdadeiro café no barracão do Sebastião João Clímaco, na Vila Murtinho, enquanto ele me falava de sua riqueza e da vida farta em seu imenso seringal.

Saí para o terreiro e caminhei, para os asseios matutinos, em direção à Cachoeira do Ribeirão, ainda com a cuia de café na mão. No inverno eu dormia ao som das águas da cachoeira batendo forte no pedral logo abaixo. Durante a breve caminhada, lembrei-me de meus pais e meus irmãos que deixei lá pelas bandas do Nordeste, trabalhando de sol a sol para um rabugento criador de cabras a troco de sobras de alimentos.

Pensei ter vida  melhor nestas bandas povoadas de muriçocas, índios e toda sorte de avarias. Aqui é um sertão verde, um sertão às avessas. Mas, não deixa de ser um sertão, com seu solo úmido, fértil e infestado de coronéis.  Pensei em voltar. Mas como? Queria fugir desse inferno verde. Deixar de ser escravo retirante! Quanto mais trabalho mais devo! Quinze horas de trabalho todo dia e a dívida só aumenta.

Várias vezes repeti o mesmo gesto, depois mergulhei lentamente e nadei até chegar bem próximo da cachoeira, onde a água era mais fria ainda. Retornei e fiquei sentado às margens, esperando o dia raiar.

Quieto e com frio, lembrei- me novamente do calor da minha família. Morávamos em uma das tantas taperas que havia naquela imensa fazenda de cabras. Quando parti para este inferno, minha mãe não chorou, ficou sonhando com o retorno do filho, rico e com dinheiro suficiente para tirá-los daquela miséria eterna. Durante a viagem, e mesmo após minha chegada à Vila Murtinho, também alimentei este sonho.

Em vão, descobri poucos meses depois de minha chegada nesta colocação,  denominada Carcará, o trabalho escravo, o bafo da suçuarana, as nuvens de borrachudos e piuns, a solidão colada à minha pele, os vômitos e os calafrios  intermitentes das febres e o olhar vigilante dos índios seguindo-me  ininterruptamente, espreitando-me por detrás das folhas  dos buritis e paneiras, quebrantaram-me as forças e a esperança de ficar rico um dia.

Não dei importância, levantei-me pensando na lida diária do corte da seringa e segui para o tapiri. Havia andando poucos metros, quando ouvi um leve estalo às minhas costas. Também não dei importância, continuei caminhando  e de repente um assobio estridente silenciou toda a floresta.

Parei um pouco assustado e fiquei quieto. Voltei-me para a cachoeira e vi dezenas de índios olhando-me há pouco mais de vinte metros de distância com os arcos em posição de tiro, não pensei em nada, petrificado, senti apenas o gosto quente do sangue a invadir-me as entranhas e escorrer pela boca,  atingida por uma flecha envenenada,  indo cravar-se violentamente no fundo da minha garganta. Foi uma morte lenta, mas pelo menos não virei comida de urubu, fui cremado em uma imensa fogueira feita com a madeira  e as palhas do meu tapiri, restando apenas sobre as cinzas  o velho e encardido bule com  café,  mais uma vez  requentado,

Autor: Simon O. dos Santos – Mestre em Ciências da Linguagem e membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL.

Fonte - Simon O. dos Santos

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