SANTO DAIME É USADO EM TERAPIA DE DETENTOS

Há imagens de Buda espalhadas pelo recinto e a sala de terapia conta com imagens de santos de várias religiões. O clima religioso é contrastado pelo som dos detentos trabalhando como mecânicos e de outras atividades desenvolvidas no local.
Domingo, 19 de Abril de 2015 - 12:35

Emerson Machado
Diário da Amazonia

A sede da Associação Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e Egresso (Acuda-RO), em Porto Velho, é um local quase místico. Estátuas de deuses hindus enfeitam as paredes, as cores fortes lembram locais de oração.

Há imagens de Buda espalhadas pelo recinto e a sala de terapia conta com imagens de santos de várias religiões. O clima religioso é contrastado pelo som dos detentos trabalhando como mecânicos e de outras atividades desenvolvidas no local.


Na sede da Acuda, o clima religioso é constatado pelo som dos detentos trabalhando

A tapeçaria, um dos trabalhos feitos por lá, deixa tudo ainda mais colorido, sem contar com as atividades que envolvem argila – que dão origem a vasos enormes, decorados com imagens de Nossa Senhora ou de Ganesha (deus hindu). E além destas atividades, reuniões religiosas fazem parte da programação de ressocialização dos presos. E quando o assunto é a ressocialização de detentos para que eles estejam preparados para o mundo ao fim da pena, as opiniões são muito divergentes.

Há quem pregue que muitos voltam ao mundo do crime (às vezes até pior do que antes, alguns dizem) e outros que acreditam nos trabalhos de ressocialização. No entanto, para a Acuda, o trabalho é muito maior do que muitas pessoas com opiniões diferentes acreditam.

Entre as terapias da Acuda, uma tem se destacado mundo afora. É a introdução da religião do Santo Daime para ajudar os detentos a “encontrarem consciência e respostas para o que fizeram” para serem presos.

O presidente da associação, Luiz Carlos Marques, afirma que este trabalho feito pela Acuda é tão importante que já tem quase três anos de existência.

“Além de encontros da religião católica, evangélica e espírita, introduzimos o [Santo] Daime, pois cada um escolhe o que lhe fizer melhor. E eu sei que o Daime tem um poder de mostrar ao detento coisas que ele fez, criando um estado de consciência, que o explica as consequências de suas ações”, explica Marques.

Mistura de catolicismo com outras tradições

O Santo Daime é uma religião amazônica, fundada nos anos de 1930 e é considerada uma mistura de catolicismo com outras tradições religiosas como as de origem africana.

Nos encontros, é utilizada a ayahuasca – um cipó encontrado na floresta – em um chá que é bebido entre orações e músicas que lembram mantras.

Segundo Marques, a Acuda tem o objetivo de fazer experimentos no que diz respeito à ressocialização de detentos. “São casos em que o [método] tradicional já foi feito e não deu certo. A ayahuasca surgiu aqui na Acuda depois de termos as outras religiões e queríamos alguma coisa diferente, algo da região amazônica. Então soube da ayahuasca”, explica o presidente.

O diretor-geral da Acuda-RO, Rogério Silva Araújo, revela ainda que toda terapia feita nos detentos que estão na associação é, primeiro, testada nos membros da equipe.

Ou seja, o Daime passou pelo presidente e outros trabalhadores e voluntários da Acuda para que a “funcionalidade” da terapia fosse vista antes de ela ser levada aos presos. “Começamos aos poucos e fomos levando alguns detentos para experimentarem, até chegar às proporções que temos hoje”, diz.

Ele acrescenta ainda que, por reunião, são cerca de 15 detentos participantes. Araújo ainda conta que a associação tem enfrentado algumas críticas relacionadas à questão da ayahuasca ser utilizada entre os presos, já que muitos ligam o chá do Santo Daime às drogas.

“As drogas e o Daime não batem um com o outro. Nós percebemos ainda que os presos que usavam drogas se sentem mal, têm náuseas, e eles expõem isso as reuniões”, afirma o diretor.


Os detentos produzem vasos decorados com imagens de Nossa Senhora ou de Ganesha

Ele argumenta também que o que se tem observado na introdução do Santo Daime como terapia para os presos é que muitos deles têm tomado consciência sobre o que fizeram no passado.

Terapia ganha destaque internacional

Um dos maiores objetivos alcançados pelo uso do Santo Daime como terapia com os detentos, segundo o presidente da Acuda, é entender que o crime cometido tem consequências e que elas não vão desaparecer.

“A ayahuasca traz à tona tudo o que fizemos e como isso afeta a vida das pessoas. É uma questão de perceber que é uma questão de escolha. Muitos dizem que saem e voltam a cometer crimes porque não há trabalho, não há oportunidades. É mentira. O crime é cometido porque se escolhe cometê-lo. Então o Daime conscientiza a pessoa”, garante Marques.

Com a permissão judicial de poder levar detentos para um templo em Ji-Paraná, a iniciativa da Acuda já foi destaque até nos Estados Unidos, com matéria publicada em um dos jornais mais importantes da América do Norte, o The New York Times.

E mesmo com toda a publicidade que o projeto tem ganhado, as premissas da Acuda no desenvolvimento do Santo Daime como terapia continuam sólidas.

“Nós oferecemos a terapia, mas tem pessoas que tomam [o chá de ayahuasca] uma vez e não querem tomar mais. Há pessoas que sentem e veem coisas que fizeram e decidem não tomar mais. É tudo uma questão de escolha”, conclui o diretor-geral Rogério Silva Araújo.

Não há estimativa concreta de quantos presos foram ajudados pela terapia com o Santo Daime, mas nas reuniões, muitos deles cantam as canções, tomam o chá e têm as mais diversas reações.

Ao jornal americano, o detento de 43 anos participante das reuniões, Darci Altair Santos da Silva, que cumpre pena de 13 anos acusado por abusar sexualmente de uma criança com menos de 14 anos, afirmou que os presos são considerados “o lixo do Brasil”.

“Mas esse lugar nos aceita. Eu sei que o que eu fiz foi muito cruel. O chá me ajudou a refletir sobre isso, sobre a possibilidade de que um dia eu posso encontrar perdão”, finaliza Altair Santos.

Fonte - diariodaamazonia

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