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A SEMANA SANTA

O cheiro bom que brotava do pilo, botava a preguia pra correr. E era muita paoca, pois alm da famlia, tinha os tropeiros e viajantes que se hospedavam na casa do meu av Abdon.
Quinta-Feira, 02 de Abril de 2015 - 11:33

Não me lembro quando foi a última vez que passei a Semana Santa todinha dentro de casa, sem trabalhar. Pensando, refletindo, família em volta. Acho que foi ainda na infância. E agora, por estar me recuperando de uma cirurgia nos olhos. Quieto, tomando remédio. Lendo com dificuldades, adivinhando as letras, escrevendo, ouvindo música. E lembrando.

Passei toda a infância com minha família. Grande, muitas tias e tios, primos e primas, irmãos e amigos. Casa cheia. Muito trabalho, escola e brincadeiras. O dia começava cedo. Às cinco da manhã a mamãe ou a vovó batia no punho da rede: levanta, vai pilar o arroz. Fazer fubá pro cuscuz.

Noutro dia a ordem era diferente: cuida meu filho, o DomDim – meu primo - já está no pilão te esperando para fazer a paçoca de carne. Era moer na mão de pilão a carne assada na brasa, desfiada, misturada com farinha seca(branca) de mandioca. Pilar até virar paçoca. Uma delícia.

O cheiro bom que brotava do pilão, botava a preguiça pra correr. E era muita paçoca, pois além da família, tinha os tropeiros e viajantes que se hospedavam na casa do meu avô Abdon. Enquanto a vó Salomé e a minha mãe Zuleide cuidavam do café da manhã, eles dobravam cuidadosamente as redes de varandas coloridas. Pegavam os animais no pasto, botavam as cangalhas e penduravam as mercadorias em dezenas de animais.

Na grande mesa no meio do salão, cercada de bancos de madeira lavrada, inteiriça, sentavam para comer a fartura de carne assada na brasa, mal assado(um bifão alto semicru) sangrando, paçoca de carne seca, cuscuz de arroz e de milho, queijo, beijus de macaxeira, coalhada, leite, café e cestos de pães fofos e cheirosos. Uma festa pros olhos e pro estômago.

No final da tarde voltávamos para o pilão. Agora, para descascar o arroz do dia seguinte. Ou moer o café torrado na enorme panela de ferro, de onde saia em formato de beiju preto e grudento. Sob as batidas da mão de pilão, virava pó, pronto para o coador de pano. E para espalhar seu perfume estimulando goladas quentes, queimando a língua e o céu da boca.

As vezes, éramos três ou quatro no pilão. Nestas ocasiões a brincadeira rolava solta. Fazíamos uma percussão de muitos ritmos. Batíamos a mão de pilão no fundo e dávamos uma volta na boca do pilão, roçando madeira com madeira. Tudo antes do outro baixar a sua mão de pilão e fazer a mesma coisa. Se atrasasse, levava pancada nos dedos. Ninguém esperava o outro concluir a coreografia.

Noutras ocasiões a habilidade era demonstrada batendo o produto no fundo, e em cada lateral, em cruz. Tam...tantam, tantam, tantam, tantam. O difícil e o gostoso, era quando tínhamos quatro mãos de pilão. Negócio de doido, frenético, perigoso. Mas riamos muito e o trabalho virava brincadeira. O som dos tantans era gostoso de ouvir. Era música. Diversão.

E na semana caçadeira? A que antecede a Semana Santa? Todo esse trabalho era dobrado. tínhamos que juntar, produzir, fazer tudo que iríamos necessitar na Semana Santa. Nela, sagrada, só o trabalho da cozinha era permitido. Não se trabalhava, não se fazia negócios, não se comprava e nem vendia. Não se bebia álcool. Não se  discutia, não se brigava nem batia nas crianças. Só se ouvia música clássica ou sacra. Era a semana do Senhor. Meu avô cantava: ‘ Foi na cruz, foi na cruz, que um dia eu vi, meus pecados castigados em Jesus...’

OsmarSilva – jornalista – [email protected]

Fonte - OsmarSilva
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