PORTO VELHO AINDA SOFRE IMPACTOS DAS USINAS COM EROS誆S E CHEIAS FORA DO NORMAL

Em 2012, especialistas contratados pelo cons髍cio estavam fazendo um novo estudo em um trecho do rio. Eles mediram o n韛el da 醙ua e a 醨ea desbarrancada. Mas, os resultados dessa nova pesquisa institucional nunca foram divulgados imprensa.
Segunda-Feira, 30 de Março de 2015 - 07:18

Por Felipe Corona
Especial para o News Rondônia

Em fevereiro de 2012, a hidrelétrica de Santo Antônio abriu boa parte de suas comportas para iniciar a geração de energia para todo o país. Mas, à época aconteceu um problema sério: o desabamento dos barrancos na orla de Porto Velho e a destruição de casas às margens do Rio Madeira.

Ao todo, 300 casas foram diretamente atingidas pelo problema, cujas famílias foram retiradas do local. Elas conseguiram na Justiça que o consórcio Santo Antônio Energia, responsável pela construção da hidrelétrica, pagasse pela mudança para um local seguro.

As famílias ficaram instaladas em hotéis de Porto Velho, longe de onde viviam. Depois, receberam o dinheiro para aluguéis. “Eu tinha muito medo. De repente, a gente estava em uma casa e ela desabou. Ninguém estava muito preocupado com a vida que a gente levava. Só conseguimos uma moradia decente, após entrarmos na Justiça. Mas, ainda quero um local meu pra morar”, disse a dona de casa Tereza Lemos, que hoje mora em uma residência alugada de dois quartos no bairro Areal da Floresta, zona Sul da Capital.

Em 2012, especialistas contratados pelo consórcio estavam fazendo um novo estudo em um trecho do rio. Eles mediram o nível da água e a área desbarrancada. Mas, os resultados dessa nova pesquisa institucional nunca foram divulgados à imprensa.

O consórcio informou que não foi possível provar que o fenômeno foi agravado pela abertura das comportas, mas que tomou as providências necessárias protegendo as encostas do rio com pedras que foram distribuídas em boa parte da orla de Porto Velho. À pedido da Defesa Civil, os técnicos da usina controlaram o volume da água do reservatório.

Problema continua

Um levantamento divulgado em setembro do ano passado, feito por engenheiros da Prefeitura de Porto Velho, indica que a força da correnteza provocada pelas turbinas das usinas do Rio Madeira é a causa do desbarrancamento ocorrido nas áreas do baixo Madeira, mas os empreendimentos não reconhecem e não querem compensar os danos causados ao município. Em meio ao caos que se instalou após a enchente de 2014, vários órgãos começam a unir forma em busca de soluções para o problema.

As consequências da histórica enchente do Madeira foram alvos de discussões envolvendo o prefeito de Porto Velho, Mauro Nazif, secretários municipais, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (RO), Corpo de Bombeiros, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Superintendência do Patrimônio da União (SPU), entre outros.

Nesse último, caso nenhuma providência seja tomada, o desbarrancamento poderá também afetar o Hospital da Guarnição e as Secretarias Municipais de Fazenda e de Administração (Semfaz e Semad).

Conforme a Defesa Civil e os engenheiros, a força da correnteza faz as águas avançarem na parte inferior do barranco, o que leva ao desabamento da parte superior, em uma espécie de “escavação”.

Uma das maiores preocupações é com o Complexo da Madeira Mamoré, onde o rio já avança cerca de um metro, comprometendo a estrutura montada na margem do Madeira para o lazer da população e dos turistas, mas tanto as Usinas de Santo Antônio e Jirau preferem ficar em silêncio.

Protesto

O prefeito de Porto Velho, Mauro Nazif, afirmou que o prejuízo com a cheia de 2014 passou dos 500 milhões de reais, mas a realidade é que a subida das águas teve como agravante principal, a construção das Usinas de Santo Antônio e Jirau, com o seu funcionamento, mesmo não havendo indagação dos especialistas e órgãos responsáveis. O bloqueio das barragens tem influenciado no curso natural das águas do Rio Madeira.

Isto é uma falha incalculável que poderá trazer prejuízos maiores a população de Porto Velho e parte dos municípios localizados na região Oeste de Rondônia, além da Bolívia. O presidente Evo Morales já pediu um laudo que possa provar que as alagações em seu país também estão ligados às barragens. Caso isso ocorra, o Brasil sofrerá duras penas, como o pagamento de indenização aos atingidos.

Caberia ao Governo Federal arcar com todos os prejuízos pela invasão das águas nas cidades de Porto Velho, Nova Mamoré e Guajará-Mirim por consequência das usinas.

Enquanto isso, as peças históricas da Estrada de Ferro Madeira Mamoré ficaram mais de um mês ao relento no pátio da Superintendência Estadual de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) para somente no começo de março, serem levadas para um galpão alugado pela Fundação Cultura de Porto Velho (Funcultural) para serem limpas, catalogadas e embaladas pelo Iphan.

Especialista aponta responsabilidades

O News Rondônia procurou um dos maiores pesquisadores sobre o Rio Madeira para uma breve análise das catástrofes. Antes mesmo dos licenciamentos das usinas, o PhD. Phillip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), já alertava para os problemas decorrentes dos possíveis barramentos do Madeira, que carrega metade dos sedimentos do Amazonas.

O problema, completa Fearnside, é que a credibilidade do Ibama e da ANA foi posta em dúvida, ainda mais após o Governo Federal ter leiloado mais usinas na Amazônia, como Belo Monte no Pará e Teles Pires no Mato Grosso. A questão é tão grave que a Justiça Federal determinou que os estudos de impacto ambiental fossem refeitos.

Pior: no futuro, lembra Fearnside, as mudanças climáticas devem aumentar a ocorrência de eventos extremos. Ele entrou no INPA em 1978, e publicou trabalhos científicos que são referências fundamentais sobre 10 barragens na Amazônia brasileira: Balbina, Tucuruí, Samuel, Curuá-Una, Santo Antônio, Jirau, Teles Pires, Jatapu, Cotingo, e Belo Monte. Os trabalhos e outras informações sobre barragens estão disponíveis no seu site e na coluna que escreve no Amazônia Real.

“O futuro? Cheio de incertezas. Esta última cheia excepcional e o que aconteceu nos últimos três ou quatro anos anteriores, como a erosão que Santo Antônio provocou em Porto Velho, colocam em dúvida muitas coisas: os estudos e os projetos das duas usinas, a operação dos reservatórios, os níveis d'água de inundação reais, as verdadeiras consequências do impactos destes projetos no Brasil e na Bolívia e o que pode ocorrer no futuro. Eu temo que também foi posta em dúvida a credibilidade do Ibama, da ANA e a sua capacidade de cumprir suas próprias normas e condições”.

Para Phillip Fearnside, as usinas estão contribuindo de diversas maneiras para as cheias do Madeira. “As duas usinas devem estar contribuindo, de maneiras diferentes, ao agravamento dos impactos das enchentes. A presença da barragem de Santo Antônio, logo acima de Porto Velho, pode estar aumentando a erosão da orla da cidade. O vertedouro da barragem modificou as correntezas em frente à cidade, jogando mais água contra a orla, como foi demonstrado em 2011-2012 quando cerca de 300 casas foram derrubadas ou condenadas. A velocidade da água neste local também deve ser maior do que no rio natural, sendo que toda a liberação da energia está agora concentrada em uma única queda só 7 km acima do centro da cidade. No caso de Jirau, deve estar contribuindo à inundação na Bolívia no trecho logo acima do final do reservatório propriamente dito em Abunã, na divisa entre Brasil e Bolívia. Os sedimentos amontoados, justamente no início do reservatório em Abunã, devem represar a água rio acima, aumentando a inundação. As afirmações das empresas de que este fenômeno de ‘remanso superior’ não aconteceria no caso de Jirau foram contestadas por mim em um artigo em 2013 na revista Water Alternatives (versão em português disponível)”.

Para o pesquisador de renome internacional, com a disputa entre as usinas, construídas por consórcios diferentes, causa resultados negativos, especialmente para as populações estão às margens do Rio Madeira, especialmente a Capital de Rondônia, além de toda a Amazônia.

“A alegação de Jirau de que a usina de Santo Antônio não abaixou o nível do reservatório como planejado quando a vazão começou a subir, se confirmado, indica um forte impacto sobre a população próxima ao lago, inclusive em Jaci Paraná. O mesmo pode aplicar a Jirau, sendo que se o nível do reservatório tivesse sido rebaixado ao máximo para aproximar o rio natural, a inundação teria sido menor, inclusive nos trechos interditados à época da rodovia BR-364. As mudanças climáticas em curso estão previstos a aumentar a ocorrência de eventos extremos, incluindo inundações. Os planos do governo brasileiro para construir dezenas de barragens na Amazônia teriam grandes impactos dos mais variados tipos. A história das usinas do rio Madeira mostra como o sistema atual de tomada de decisão não consegue dar o peso adequado aos custos sociais e ambientais. Há extensa documentação dos impactos das usinas do Madeira, e de outras barragens existentes e planejadas na Amazônia, disponível”.

Fonte - NewsRond鬾ia

Comentários

News Pol韈ia

Editoria de Cultura

Editoria Geral

Siga-nos:

POLÍTICA PRIVACIDADE

Todos os direitos reservados. © News Rondônia - 2020.