QUEM SABE, HOJE ELES ENTENDAM O PAI CIGANO – POR MONTEZUMA CRUZ

Reencontrei alguns deles e estamos em paz. Soubemos examinar tijolo por tijolo, fogueira por fogueira, peleja por peleja daquele período árduo da história nacional. Gloriosos estudantes do meu Brasil!
Domingo, 22 de Março de 2015 - 20:13

Só atualmente verifico demoradamente cidades e empregos pelos quais passei. Desde o começo da minha profissão fiz revisão, radioescuta, editei jornal falado em duas emissoras de rádio, fui repórter, chefe de sucursal, editor de cidades, bairros, internacional e opinião.

Por pouco não ingressei nas artes gráficas no saudoso jornal A Região, de Neif Taiar, em Presidente Prudente (SP). Acampava na oficina gráfica e dali saía somente quando a velha máquina Heidelberg imprimia os primeiros exemplares daquele vibrante bissemanário em tricomia (títulos saíam em cores verde, vermelha e azul).

O ano era 1968, cheio de convulsões e eu sentira o golpe da proibição do jornal escolar Tribuna do Estudante, mimeografado a álcool, no antigo Ginásio Estadual de Teodoro Sampaio (SP). Neif apoiava-me com editorial, dizendo que “subversiva era a mente de alguns professores daquela escola”.

Sempre quis ir além do meu quintal. Ao sair de Teodoro Sampaio e Bernardino de Campos, cidades pequenas, tive a chance de fazer de Presidente Prudente a minha plataforma profissional, e de Campo Grande (ainda Mato Grosso), a alavanca para chegar ao ex-Território Federal de Rondônia e aqui conhecer pedaços da Amazônia Ocidental Brasileira.

Peço licença ao editor Lúcio Albuquerque e ao diretor Euro Tourinho para falar um pouco de meus filhos, aos quais devo muito. Em consequência das andanças, muitas vezes me distanciei de alguns deles.

Depois de conhecer Porto Velho, em 1976, a serviço da Folha de S. Paulo e onde trabalhei no extinto diário A Tribuna, retornei por alguns meses a Dourados (MS), onde já estivera anteriormente. Minha primeira companheira, Lourdes Teodoro, coitada, se convencera finalmente da saudade que eu tinha das pessoas e das coisas de Rondônia.

Passei um ano em Cuiabá, capital mato-grossense, e de lá regressei para as barrancas do Rio Madeira, do Igarapé Bate-Estaca, do Lago Cuniã, do Rio Pacaás-nova e de tantos outros por onde naveguei. Fui repórter dos extintos O Guaporé, O Parceleiro (Ariquemes), O Estadão de Rondônia (depois, do Norte), Diário de Rondônia (Ji-Paraná), trabalhei na sucursal da Empresa Brasileira de Notícias, Jornal do Brasil (RJ), e com o companheiro Jorcêne Martínez editei o meteórico mensário Barranco.

Em 1978 nascia Vânia de Lourdes, minha primeira filha, na saudosa Maternidade Darcy Vargas. Depois de trabalhar nos hospitais de Alto Paraíso, Ariquemes e na Associação Tiradentes (Astir), em Porto Velho, atualmente ela é médica pediatra no Hospital Cosme e Damião.

Trabalhei pela primeira vez em Brasília no ano de 1981. Para lá, a direção do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) havia transferido a sede do jornal Porantim [remo, arma, memória, na língua sateré-maué]. Eu e o saudoso jornalista Lúcio César Tadeu Pires discordamos da maneira como vigiavam a nossa vida pessoal, o que de certa forma afetava o nosso comportamento num jornal eclesial.

Em São Luís (MA) empreguei-me n’O Estado do Maranhão, que não pagava bem aos seus editores, embora lhes garantisse liberdade de ação em 1987. Quando o salário melhorava um pouco, a inflação o devorava. O que fazer, se eram gritantes o custo de moradia, e da educação de filhos? Eu pagava – e até hoje pago – aluguel desde 1974. Não tenho casa própria, não dirijo carro, ando a pé, de ônibus e de metrô (nas cidades onde tem).

Em 1988 recebia proposta da Folha de Londrina para trabalhar na sucursal de Campo Mourão (PR). Em uma semana deixei o jornal da família Sarney, viajando pela Transbrasil para Londrina, e na da FL já conheci a reviravolta em minha nova missão. Decidiram que minha próxima parada não seria mais Campo Mourão, porém, Maringá. E lá me estabeleci.

Novamente seduzido pelos jornalistas Lúcio Tadeu e Ademar Andreola, que me convidaram para a “ressurreição”, em cores, de O Estado de Mato Grosso, deixei Maringá em 1989, retornando a Cuiabá, acumulando a reportagem especial de meio ambiente daquele diário e a correspondência de O Globo.

Em 1990, Lúcio foi editar A Gazeta, e levou-me para o mais novo jornal cuiabano. Um ano depois, novamente a Folha de Londrina me ofereceu vaga em Maringá e rapidamente me transferi, iniciando minha segunda fase na sucursal. Dali, em 1991, mudei-me para Foz do Iguaçu, desta vez, assumindo a chefia de uma pequena equipe de quatro pessoas na cobertura de assuntos das Três Fronteiras (Brasil-Paraguai-Argentina).

Em Foz ainda escrevi para O Estado de S. Paulo, coeditei o Foz em Resumo, pertencente ao jornalista Vinícius Ferreira, o primeiro jornal via fax do Paraná; publiquei o Catraca, jornal que circulava em pontos de ônibus; e escrevi para a Revista do Mercosul, do Rio de Janeiro, pertencente ao jornalista Neiva Moreira, que também era proprietário da notável revista Cadernos do Terceiro Mundo.

Lourdes Teodoro deu-me Vânia de Lourdes, Otávio Luís (nascido em Cuiabá) e Bárbara Cristina (Piraju-SP). Da segunda companheira, Ana Maria Mejia, nasceram: Ana Terra (em Porto Velho), Rafael Natalino (em São Luís) e Lúcio Salvador (Várzea Grande).

Da minha relação com Anete Cunha Alho, em Porto Velho, nasceram Paulo Alho e Célia. Além desses oito, Geovane e Ana Heloíse, filhos do primogênito Alex Mejia (de Ana Maria), foram criados por mim e por ela, em Brasília.

Será que eles entenderão esse meu vaivém? Alguns deles me acompanharam nas mudanças, outros só agora me têm por perto. É o momento de pedir perdão e de abraçá-los. Quantas vezes e quantos anos ausentei-me!

Se eu morei em uma dúzia de cidades importantes, pelo menos em três delas alguns cresceram e estudaram. Otávio Luís e Vânia moraram comigo e com Ana Maria em São Luís do Maranhão. Otávio morou depois em Cuiabá e Foz do Iguaçu, onde Bárbara Cristina (do meu casamento com Lourdes) conviveu com Ana Terra, Rafael e Lúcio (de Ana Maria). Paulo e Célia (de Anete Cunha) passaram um tempo em Brasília.

Em duas situações, entreguei o destino de dois filhos nas mãos de Deus, sobretudo, na força de Ana Maria: em 1989, nossa mudança de Maringá para Cuiabá fora transportada num caminhãozinho do Bufê Dallas, lotado com nossos móveis e pertences. Só que Ana Maria estava grávida de quase oito meses, e sentiu fortes dores. Lúcio Salvador quase nasce no meio da estrada, já em terras mato-grossenses.

Dois anos antes, em São Luís, eu batia palmas muito fracas para chamar o jornalista José Salim na casa dele, pois havia se comprometido comigo para levar Ana Maria à maternidade. Às 9h da manhã, Salim dormia com o ar condicionado ligado e nem me ouvia chamá-lo.

Ana chegou ao hospital, transportada por vizinhos de nossa casa, no Bairro Residencial Vinhais. Resistia ao parto cesáreo milagrosamente, pois o Rafa estava “atravessado”.

E qual foi o primeiro passeio desse bebê? Embrulhado em fralda e casaquinho, na primeira semana de vida “conheceu” o balcão da biblioteca do jornal O Estado do Maranhão, onde permaneceu duas horas dormindo, até que a mãe, também repórter, deixava o trabalho para amamentá-lo.

O que seria de mim, se não percorresse Brasis tão diferentes? Com ou sem a cumplicidade de vocês, vivo e em cores, recordo-me de agruras e alegrias. Filhos, sou grato por conhecerem grande parte da minha trajetória.

Fonte - Montezuma Cruz

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