OS EXPLORADORES DA AMAZ訬IA

Estava no governo do Estado o capit鉶-geral Bento Maciel Parente. Seu antecessor, J醕ome Raimundo de Noronha, tinha sido mandado preso para Portugal.
Domingo, 08 de Março de 2015 - 23:25

 

PRIMEIRAS EXPEDIÇÕES NA AMAZÔNIA

Na época dos grandes descobrimentos, a Região Norte foi explorada por espanhóis, franceses, holandeses e ingleses. Os portugueses só chegaram a essa região no início do século XVII. Fundaram fortes ou se apropriaram de outros que já existiam no local e expulsaram os estrangeiros.

De acordo com o Tratado de Tordesilhas (1494), a maior parte do território que hoje representa a região Norte pertencia à Espanha. Apenas uma pequena parte, próxima ao Oriente, era possessão de Portugal. Para compreendermos melhor a história desse período, vamos analisar as expedições pioneiras à região.

A partir da expedição de Vicente Yañes Pinzón (1500), descobridor da foz do Rio Amazonas, até por volta de 1570, cerca de 24 expedições espanholas tentaram penetrar na Amazônia. Duas delas, a de Francisco de Orellana, em 1542, e a de Pedro de Ursua e Lopo de Aguirre, em 1560 – 1561, percorreram totalmente a calha do Solimões – Amazonas. Antes dessas expedições, entretanto, houve uma que percorreu o Solimões até próximo da região entre rios Tefé e Coari (Província de Machifaro): trata-se de um desdobramento da malograda expedição de Alonso Mercadillo, que partiu do Peru, em 1537, rumo à região dos índios chupacho e iscaicinga, nas vertentes orientais dos Andes. Diogo Nunes, um mameluco português, participou dessa expedição. Ele passou sua vida no Brasil e registrou as primeiras notícias sobre esse território na “Carta de Diogo Nunes a D. João III”, rei de Portugal.

EXPEDIÇÃO DE FRANCISCO ORELLANA

Os espanhóis, depois de conquistarem o Peru (1532) com a ajuda das tropas de Francisco Pizarro, interessaram-se por notícias a respeito de duas regiões fabulosas: o El Dorado e o País da Canela, que se transformaram-se em símbolos da utopia americana, mas nunca foram precisamente localizadas. A procura por esses paraísos do ouro e das especiarias propiciaram a exploração do noroeste da América do Sul e da Bacia Amazônica.

A expedição de Orellana foi, na verdade, uma subexpedição, pois tratava-se de um desdobramento da expedição de Gonçalo Pizzaro – governador da Província de Quito e irmão do conquistador do Império Inca (Peru). Orellana tinha por objetivo encontrar outra forma de produzir especiarias para competir com os portugueses que monopolizavam o mercado europeu de produtos exóticos, oriundos das Índias orientais. Os espanhóis esforçaram-se em descobrir o caminho oriental para as Índias. Porém, malsucedidos, ambicionaram suprirem-se das especiarias da América do Sul.

A expedição de Francisco Orellana partiu de Cuzco, passando por Quito – de onde saiu em fevereiro de 1541, com cerca de 220 espanhóis a cavalo e quase 4 mil índios – apenas com base em algumas informações sobre a existência do País de Canela e do El Dorado. Lá chegando, comprovou que existia somente pequenas árvores de canela e algumas montanhas ásperas e inabitáveis. Gonçalo Pizzaro, depois da frustação, decidiu prosseguir caminho com destino à Lagoa do El Dorado, mas surgiu um problema: a falta de alimentos para os expedicionários.

Para resolver esse problema, Pizzaro encarregou o tenente Francisco de Orellana a prosseguir viagem pelo Rio Coca, com cerca de 60 homens, um bergantim e algumas canoas, à procura de mantimentos, enquanto grande parte da tropa esperava na região de Zumaco.

Francisco de Orellana, ao descer o Rio Napo, à procura de povoações indígenas para suprir-se de mantimentos, percebeu que seus comandados não teriam mais condições físicas de retornar ao acampamento de Pizarro. Então, deu início a uma aventura que durou 8 meses, em que foram navegados 6 mil km pelo Solimões – Amazonas, chegando ao Atlântico, em 24 de agosto de 1542. Essa aventura foi mencionada na famosa crônica de frei Gaspar de Carvajal.

Gonçalo Pizarro continuou a procurar o El Dorado, em vão. Abandonado pelos índios, sem suprimentos e com apenas 80 homens, regressou a Quito, em julho de 1542. Em setembro desse mesmo ano, enviou uma carta ao imperador Carlos V, relatando seu fracasso e a “traição do zarolho Orellana”.

Francisco de Orellana, um ano e cinco meses após ter deixado Pizarro esperando por abastecimento, retornou à Espanha, onde relatou ao imperador, em maio de 1543, sua aventura pela Amazônia. Nessa ocasião defendeu-se da acusação de ter abandonado os membros da expedição de Pizarro.

O imperador Carlos V, como prêmio pela nova conquista, concedeu a Francisco de Orellana, em 13 de fevereiro de 1544, o título de Adelantado; governador y capitán-general de Nova Andaluzia, isto é, o direito de colonizar a Amazônia, mas com recursos próprios.

Ao final de 1545, Francisco Orellana retornou à sua possessão, partindo da Espanha com quatro navios, sendo que dois deles foram perdidos durante a viagem. Supõe-se que Orellana confundiu-se com as “bocas” dos rios Pará e Amazonas, fato que contribuiu para ele penetrasse num labirinto de ilhas, canais e furos do Pará ou do Amazonas. O adelantado Francisco Orellana morreu em novembro de 1546, na Amazônia, sem exercer de fato os poderes a ele concedidos pela Coroa Espanhola.

EXPEDIÇÃO DE URSUA E AGUIRRE

As notícias que chegaram a Lima, através dos sobreviventes da expedição de Francisco Orellana, reavivaram a crença já existente que existiam países ricos perdidos nas florestas equatoriais: o El Dorado, o Lago de Paititi, a Gran Omágua, o País das Esmeraldas. Nos anos seguintes, diversas expedições percorreram a vertente oriental dos Andes à procura desses locais; a mais famosa, não pelo resultado, mas pelos dramas humanos que envolveu, foi a de Ursua e Aguirre, em 1660-61, que desceu o Marañon e todo o Amazonas até o Atlântico.

O vice-rei do Peru, Andrés Hurtado de Mendoza, organizou uma expedição denominada “Jornada ao Dorado e aos Omáguas,” sob o comando do general Pedro de Ursua  que partiu de Lima em fevereiro de 1559, mas alcançou o Marañon somente em setembro de 1560.

Durante a viagem, Pedro de Ursua foi assassinado em consequência de desentendimentos com a tripulação. Depois da tragédia, os marañones, com eram chamados os expedicionários, liderados por Lopo Aguirre, desligaram a Amazônia do domínio espanhol e aclamaram D. Fernando de Guzmán príncipe do Peru. Ocorreram outros assassinatos em virtude da disputa pelo comando até a expedição chegar à Venezuela, onde o próprio Lopo Aguirre foi morto, esquartejado e exposto e via pública.

O fracasso dessa expedição e a descoberta de prata na região de Potosi levaram os espanhóis a abandonar a busca por ouro e, durante mais de setenta anos, se desinteressarem pela Amazônia. Nesse meio tempo, com a União Ibérica, os portugueses iniciaram um processo de penetração incessante na região.

A UNIÃO IBÉRICA E A CONQUISTA LUSITANIA DA AMAZÔNIA

A morte do Rei de Portugal, D. Sebastião em 1578, e a de seu sucessor em 1580, o cardeal D. Henrique, desencadeou uma crise de sucessão dinástica, pois nenhum dos referidos monarcas deixou sucessores diretos. Entretanto, em virtude do parentesco entre as casas reais, Filipe II, rei da Espanha, assumiu o trono Português unificando as coroas Ibéricas.

Apesar da unificação das coroas, Filipe II, através do Juramento de Tomar (1581), assumiu uma série de compromissos com Portugal com o objetivo de mantê-lo autônomo. Dessa forma, a administração pública e todos os cargos superiores e os de segundo escalão do reino deveriam ser providos por portugueses; a língua portuguesa seria respeitada e as leis, usos e costumes dos portugueses seriam mantidos. Quanto aos domínios ultramarinos, o controle do comércio e suas colônias e respectivas guarnições militares continuariam sob o domínio português. Portugal, portanto, não perderia suas características próprias.

O Tratado de Tordesilhas e seus efeitos perdem sentido com a unificação das Coroas. Expedições como as Entradas e as Bandeiras foram fundamentais a partir de então, para a conquista lusitana de parte da região. A conquista da Amazônia teve início nas primeiras décadas do século XVII, quando os portugueses foram autorizados pelo rei Filipe II a construir uma base militar com o objetivo de expulsar os “estrangeiros” que promoviam constantes incursões na região entre o delta do Rio Amazonas e o Rio Xingu.

Em função desse fato, a região passou a fazer parte da história de Portugal, mais de um século depois que os portugueses chegaram ao Brasil. Entretanto, esses acontecimentos tiveram como motivação outros objetivos, que levaram à colonização da costa leste brasileira.

A região do Amapá foi efetivamente explorada, em conjunto com Portugal e Espanha, a partir da União Ibérica. O território que até então era conhecido pelo nome de “Costa do Cabo Norte” também era alvo do interesse de holandeses, franceses e ingleses. Dessa região extraíam madeira, resinas, frutos e corantes, como urucum e óleos vegetais, além de produtos provenientes da pesca, como o peixe-boi, que era salgado e exportado para a Europa.

A exploração dessas riquezas era feita por uma companhia inglesa e outra holandesa, fundadas para esse fim específico. Nessa época, teve início o plantio de fumo e de cana-de-açúcar e também a criação de gado bovino. O primeiro Tratado de Utrecht, em 1713, garantiu a Portugal a posse do território. Esse tratado, no entanto, não arrefeceu os interesses dos estrangeiros pela região, especialmente dos franceses. A questão foi definitivamente resolvida por meio da sentença proferida pelo conselheiro federal da Confederação Helvética (Suíça), Edouard Muller, em 1° de dezembro de 1900.

Nessa época, a Amazônia significava apenas um problema militar para os portugueses porque o Delta Amazônico há tempo era ocupado por ingleses e holandeses, que iniciaram a montagem de feitorias e de fortificações para garantir a exploração econômica da região.

Os franceses, já instalados em Caiena, alcançaram o Maranhão, onde fundaram São Luís, em 1612. Além disso, a região constituía-se num domínio ambíguo, uma vez que Portugal fazia parte da União Ibérica (1580-1640).

OCUPAÇÃO MILITAR: O FORTE PRESÉPIO

O capitão Alexandre de Moura, comandante das tropas portuguesas sediadas em São Luís, no Maranhão, depois de vencer e expulsar os franceses ali estabelecidos desde 1612, determinou o prosseguimento da conquista até o Amazonas. Para tal jornada, entregou ao capitão-mor Francisco Caldeira Castelo Branco o comando de uma frota composta por três navios tripulados por 150 soldados que, partindo no dia 25 de dezembro de 1615, chegou ao local da futura cidade de Belém, em 12 de janeiro do ano seguinte.

O contingente militar português desembarcou na Amazônia em 1616, sem a oposição dos nativos que viviam no local há muitos anos. Porém, Castelo Branco tratou logo de construir uma pequena “praça de armas” . Essa edificação de madeira recebeu o nome de Forte do Presépio, que tinha como principal objetivo manter a possessão setentrional para Portugal. Esse fato, à luz da documentação da época, foi discutível.

O clima de tranquilidade, porém, foi logo quebrado em virtude de fatores de diversas naturezas: conflitos com os índios tupinambás; incidentes internos no seio do próprio núcleo colonial nascente; e , principalmente, pelas batalhas com outros povos estrangeiros.

Nesse primeiro momento de sua história ocidental, a Amazônia foi transformada numa área predominantemente militar e geopolítica, considerada pouco aproveitável economicamente. Apesar disso, a região motivada, além da simples ocupação militar, uma oportunidade de colonização por parte dos portugueses. A sua imensa população nativa e seus recursos naturais ofereciam boa perspectiva de desenvolvimento, bem como novas oportunidades para colonos que achavam poucas chances de sucesso nas capitanias açucareiras.

EXPEDIÇÃO DE PEDRO TEIXEIRA

Em virtude da União Ibérica, os portugueses que estavam na porção propriamente dita de Portugal receberam ordens régias para conquistar o território a oeste da Amazônia, que correspondia à posse espanhola. Porém, em função de alguns contratempos, eles ainda não haviam cumprido as determinações reais quando a expedição dos irmãos leigos, esta, que seria um resto da fracassada Expedição de Juan Palácios, que havia partido de Quito para o território dos Índios Encabelados, nos rios Napo e Aguarico, e chegara ao Forte Gurupá, em 5 de fevereiro de 1637. Esta era liderada por Domingos de Brieda e Toledo, frades franciscanos espanhóis. De Gurupá seguiu para Belém e, em seguida, para São Luís, onde os religiosos relataram a odisseia ao governador e ao capitão-geral do Estado do Maranhão – Jácome Raimundo de Noronha. Este entendeu o episódio como possibilidade de se legitimar no cargo, uma vez que o ocupava sem nomeação real.

Jácome de Noronha enfrentou adversidades políticas locais para empreender a famosa expedição de Pedro Teixeira. Composta por 47 canoas, 70 portugueses, cerca de dois mil índios remeiros e flecheiros e tendo como guias Brieda e Toledo, a expedição saiu de São Luís em julho, rumo a Belém e, posteriormente, para Cametá, de onde partiu em 26 de outubro de 1637.

Passara-se doze meses para a expedição chegar à Real Audiência de Quito, no Vice-Reino do Peru, onde foi recebida com festas, corridas de cavalos e touradas, promovidas pela população e pelas autoridades local. Em 10 de novembro de 1638, o presidente da audiência informou ao vice-rei, Luiz Jerônimo Fernandes Cabrera, em Lima, da chegada dos portugueses. Cabrera, depois de ouvir as autoridades da capital, ordenou que os expedicionários retornassem imediatamente a Belém. Foram escolhidos os padres jesuítas Cristóbal de Acuña e Andrés de Artieda, juntamente com o frei Afonso de Armejo, frei Diogo da Conceição, João Mercê e Pedro de la Rue.

Quando a expedição subia o Rio Napo, Pedro Teixeira ordenou que Pedro da Costa Favela permanecesse no local com a maior parte da tropa, onde provavelmente o capitão Juan Palácio havia sido morto pelos encabelados. Depois de um período amigável, índios e portugueses entraram em choque; a tropa de Favela assassinou todos os índios que pôde e incendiou seus aldeamentos. O massacre dos encabelados se completou com a chegada de Pedro Teixeira ao local, quando voltava a Quito.

RETORNO DA EXPEDIÇÃO

No retorno da expedição, Pedro Teixeira tomou posse solenemente daquelas terras de domínio espanhol para a Coroa portuguesa, em 16 de agosto de 1639. Ali fundou Franciscana – povoação que posteriormente servirá de marco para domínio de Portugal e da Espanha na América. Desse modo, Pedro Teixeira cumpria as ordens do governador do Estado do Maranhão.

A expedição chegou a Belém dez meses depois, em 12 de dezembro de 1639, deixando os missionários mercedários, enquanto Pedro Teixeira e os jesuítas seguiram rumo a São Luís. Estava no governo do Estado o capitão-geral Bento Maciel Parente. Seu antecessor, Jácome Raimundo de Noronha, tinha sido mandado preso para Portugal.

O padre Cristóbal de Acuña partiu de São Luís para Madri, onde relatou ao Conselho das Índias, os fatos ocorridos durante a viagem e enumerou as vantagens e a necessidade de se colonizar a Amazônia.

FORTIFICAÇÕES E DEFESA DO TERRITÓRIO

A construção de uma rede de fortificações é outro dado importante para compreender a ocupação da Amazônia e que sugere a ocorrência de conflitos pela posse das terras. Esses estabelecimentos, além dos objetivos militares, propriamente ditos, também serviriam para proteger os missionários dos ataques indígenas e de apoio logístico a expedições destinadas à coleta das drogas do sertão e da captura de índios.

A estruturação militar do corpo de trabalhadores estabelecia patentes entre seus membros, tais como: praças, cabos, sargentos, capitães-do-mato, dentre outros. Assim, todos os índios aldeados na Amazônia deveriam se alistar nesse corpo de trabalhadores. A exceção existia para aqueles que estavam à disposição direta do serviço real, para os quais eram construídos currais especiais.

Durante os últimos anos colonialista no Brasil, a política voltada para os índios foi elaborada através de sucessivas cartas régias, ao mesmo tempo em que progressivamente, essa política tomava forma mais violenta e devastadora para com os povos indígenas, sobretudo após a chegada da família real ao Brasil.

Aleks Palitot
Historiador

Fonte - Aleks Palitot

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