ERA ASSIM O SERT肙 PAULISTA

Quarta-Feira, 04 de Março de 2015 - 09:15
Tradi珲es rurais desaparecem, fica a hist髍ia bem contada por Daltozo.

Quando Deus dá a farinha, o diabo furta o saco. Manga com leite faz mal. Passar por baixo de uma escada dá azar. Achar um trevo de quatro folhas é sinal de sorte. Abrir guarda-chuva dentro de casa pode atrair a morte. Sal em bolso de bêbado cura bebedeira. Quebrar espelho resulta em sete anos de azar – quanta coisa se falava na roça antiga!

 

 

“Acredito que ele será lido com satisfação por aqueles que viveram ou ainda vivem na zona rural, e também por aqueles que só ouviram falar, mas gostarão de saber como foi sacrificada a vida de seus antepassados”, comenta o autor, que mora em Martinópolis, no oeste paulista, a 539 quilômetros de São Paulo.

 

No auge da cafeicultura paulista havia muitas casas de madeira, sapé e palha na zona rural. De 40 anos para cá o progresso causou o desaparecimento do arado manual, roda d’água, monjolo, fogão a lenha, chuveiro de balde, lamparinas e lampiões a querosene, ferro a brasa, pilões, garruchas, canivetes grande, moedores e torradores de café, entre outros. Eliminou também os costumes, entre os quais, a fritura e conserva de linguiça em varal acima do fogão. Salgava-se carne para fazer charque.

O cinema desconhecido do povo da roça, o futebol, o jogo de bocha nos fundos de bares e armazéns, a limpeza dos grãos de café em terraços e o armazenamento em tulhas empolgam o leitor. Brincadeiras de crianças, casamentos, batizados, reuniões familiares – eis um cenário quase impossível no atual mundo de tablets e celulares de alta tecnologia.

“Não tendo bola de couro ou plástico, improvisavam com meias recheadas de palha e amarradas, ou até mesmo bexigas de animais abatidos, cuidadosamente lavadas, que enchiam de ar com um canudinho de folha de mamoeiro e brincavam até que ela estourasse” – descreve Daltozo. Com certeza, esse mundo é até hoje desconhecido das novas gerações de fãs das modernas bolas de futebol cujo consumo influencia até na escolha de jogadores de seleções.

 

Saci, lobisomem, corpo-seco, mulher de branco, caipora, curupira, boitatá, alma penada, casa mal assombrada eram comumente citados pelos mais velhos para conseguir um pouco de sossego e evitar traquinagens da criançada.  Entre as crendices mais conhecidas, ele menciona:

 

 

A caça era diversão. Livre e abundante, ainda não se sujeitava às leis restritivas. Perdizes, codornas, saracuras, marrecas, nhambus, eram os tipos de aves preferidos. Também eram caçados mamíferos, entre os quais, cutias, pacas, catetos, queixadas e capivaras. Alguns tinham sorte de encontrar veados campeiros, lagartos e tatus-galinha, que também viravam refeições.

 

As pessoas se casavam geralmente em setembro, por um motivo simples: o final da colheita de café. O grão era colhido geralmente em maio e junho, secado, limpo e vendido em julho. Em agosto estariam livres do serviço pesado e com um pouco de dinheiro no bolso poderiam se casar nesse mês. Mas havia superstição: “Agosto é mês de desgosto”, inadequado para casamento, por isso, setembro era o escolhido.

Alguns noivos fugiam por causada rejeição de um dos pais, outros porque não tinham recursos para fazer festa. O “fugir” significava os dois noivos irem para alguma cidade vizinha, onde ficavam uma ou duas noites num hotel, ou até mesmo na cada de amigos ou parentes, regressando logo depois à casa paterna. Fato consumado a união física do casal, não havia outro remédio senão marcar urgente o casamento no cartório e na igreja. Alguns casos iam parar na delegacia de polícia, mas tudo se arranjava da melhor maneira.

Sem energia elétrica no campo, o rádio a pilha proporcionava lazer e distração nos finais de semana, ou em fases de pouco trabalho nas lavouras. Quem não tinha rádio, ouvia o do vizinho, especialmente o noticiário e o programa de música caipira, que promoviam o congraçamento entre famílias e amigos. Quem não tinha transporte adequado, comprava roupas e remédios nos armazéns da fazenda. E havia confusão, porque os produtos eram fornecidos a preços mais altos que os praticados na cidade. 

 

A falta de estradas e de hospitais nas pequenas cidades e vilarejos fazia do trabalho da parteira função de muita relevância. Ela atendia chamados mesmo em altas horas da noite,caminhando ou cavalgando longos trechos, até chegar à casa da parturiente. Em algumas regiões recebia nomes de curiosa ou aparadora, mas sua função era tão antiga quanto à própria humanidade. Chegaram a ser caluniadas, diziam que seu trabalho “era perigoso” para a mãe e a criança, “que realizava suas práticas sem asseio ou higiene”. Viajavam a pé, a cavalo, em pequenas embarcações nos rios, atravessando matas. Estiveram presentes no nascimento da maioria da população.

 

O livro lembra o fenômeno dos boias-frias que trabalhavam em lavouras do oeste paulista nos anos 1970. Levavam marmitas de madrugada, com arroz,feijão, farinha, e ovo frito e, às vezes, um pedaço de carne. Comiam por volta de 11h, sob a sombra de árvores. Viajavam em bancos de madeira nas carrocerias de caminhões cobertos por lonas e, posteriormente, passaram a ser transportado sem ônibus sucateados.

 

Houve mudanças nas leis trabalhistas, levando pânico entre proprietários rurais. Grandes propriedades agrícolas desmancharam as colônias de casas em que residiam os trabalhadores. Os colonos migraram para as cidades, foram viver na periferia da zona urbana e trabalhavam por dia, conforme contato com um líder chamado gato, que os arrebanhava para as lavouras” – descreve o autor.

 

“Não precisa ser nenhum Machado de Assis, nem Carlos Drummond de Andrade, ou Gabriel Garcia Marques. Basta gostar de escrever e não ter receio de mostrar ao público”, ele diz, referindo-se aos concursos literários dos quais participa.


Escreva para José Carlos Daltozo
Caixa postal 117, 19500-000 Martinópolis (SP). 
Ou solicite pelo e-mail: [email protected]

 



EXPRESSÕES TÍPICAS DO LINGUAJAR RURAL


► Adonde é a lavoura do fulano?
► Garrou a criar boi. 
► Morreu tudo os leitãozinho.
► Do zoio verde.
► O que é que nós vai fazer?
► Escuita só o que eu vou te dizer.
 Ponhou ele ali.
► Chegou a chorar de réiva.
► É custoso viver hoje em dia.
► Essa mortandela é bem gostosa.
 Alembro de tudo e mais um pouco. 
► Meus tempos de rapais.

 

O JEITO DE FALAR

 

► Abancá (sentar-se num banco)
► Abridera (abrir o apetite
► Ara... sê (ora... se). Expressão de dúvida
► Azucriná (atormentar) 
► Arranchar (estabelecer-se provisoriamente) 
► Binga (isqueiro) 
► Brabo (zangado)
► Bobiá (bobear)
► Bocó (palerma, bobo)
► Breganha (barganha, troca)
► Bruaca (bolsa de couro em lombo de animal)
► Caboco (pessoa muito simples) 
► Calombo (inchaço, tumor)
► Cafundó (lugar longe)
► Cambaio (perna torta)
► Cambito (pernil de porco)
► Catá (pegar) 
► Campiá (procurar)
► Catinga (mau cheiro)
► Chilique (desmaio)
► Cotó (animal com rabo cortado)
► Cosquento (sensível a cócegas) 
► De banca (de lado)
► Engrovinhado (mirrado, paralítico)
► Escangaiado (destruído)
► Espeloteado (maluco)
► Fuguera (fogueira)
► Jararaca (mulher enfurecida)
► Inhaca (azar)
► Intojado (cheio de si)
► Lombriga assustada (com medo)
► Meia-pataca (insignificante)
► Mió (melhor)
► Mancá (manquitolar)
► Módequê? (qual a razão?)
► Pernada (caminhada longa)
► Pidoncho (que pede muito)
► Pito (cachimbo, descompostura)
► Pórva (pólvora)
► Puía (mentira)
► Pra mode (por amor de)
► Relá (tocar de raspão)
► Tira-prosa (valente)
► Suzim (sozinho)
► Tauba (tabua)
► Titica (excremento de ave)
► Tramela (fechadura)
► Tropicar (tropeçar)
► Truxe (trouxe)
► Veiaco (velhaco)
► Xucro (cavalo não domado)

 

 

 

 

 

DITADOS E PROVÉRBIOS
 

 Bezerro enjeitado não escolhe teta
● Boi lerdo só bebe água suja
● Cada um por si e Deus por todos
● Casa onde não entra o sol, entra remédio
● Depois de fugir o coelho, todos dão conselho
● Dinheiro não dá em árvore
● É andando que o cachorro acha o osso
● Em terra de cegos, quem tem um olho é rei
● Filho de burro pode ser lindo, mas um dia dá coice
● Galinha que cacareja, botou
● Lágrimas de herdeiro, riso sorrateiro
● Não procure sarna para se coçar
● Palavras ferem mais que a espada
● Quem foi mordido por cobra, tem medo até de minhoca
● Quem trabalha o dia inteiro, acha mole o travesseiro
● Sapo não pula por gosto, mas por necessidade

Fonte - Montezuma Cruz

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