O MONTE RORAIMA E SEUS MISTÉRIOS

“Partimos para escalar o Roraima a 29 de outubro de 1927, depois da refeição da manhã, tendo a vanguarda ordem de nos esperar para o almoço... Atingimos o último grande degrau do considerável maciço. Penetramos pelas galerias formadas por imensos blocos de arenitos. O vento e a umidade neles haviam esculpido formas caprichosas de castelos em ruína, de fantásticos animais antediluvianos... achamos um mundo perdido”. (Marechal Rondon – 29.10.1927)
Quinta-Feira, 29 de Janeiro de 2015 - 16:32

E foi assim, que o grande sertanista brasileiro Marechal Rondon cumpria mais uma de suas intermináveis missões. Em 1927 Rondon chegava ao Monte Roraima, e se encantava com um mundo diferente daquilo que o grande mestre da Amazônia ainda não havia conhecido.

Não foi apenas Rondon o surpreendido, muitos outros aventureiros do passado já haviam caminhado por lá, e relatado aos quatro cantos do mundo sobre o “Elo Perdido” do Monte Roraima. Aliás, até hoje existe aqueles aventureiros que adoram uma TRIP diferente, encaram a aventura de subir no topo do Monte, e a surpresa assim como foi no passado, ainda é possível. O Monte Roraima encanta e espanta pela sua grandiosidade. São mais de cinco mil visitantes todo ano de vários lugares do mundo, que encaram as dificuldades de nove dias de caminhadas no calor, frio, chuva, forte umidade, terra batida, rochas, rios e paredões. 

Estive em uma expedição no Monte Roraima entre os dias 16 e 25 de janeiro de 2015, com pesquisadores renomados de várias áreas científicas do Brasil entre; biólogos, paleontólogos, geógrafos, especialistas em geologia, engenheiros, químicos, botânicos e especialistas em anfíbios e pássaros. Tentamos reviver o passado no presente, uma alusão ao feito do Marechal Rondon, quando chefe da Comissão de Inspeção de Fronteiras do Brasil chegara nos limites entre Brasil e Venezuela no ano de 1927. Fazer um pequeno inventário, análises simplificadas de tudo aquilo que existe lá em cima no cume da Mãe das Águas, como pelos índios pemón, também é chamado o Roraima.

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Um dos lugares mais antigos do planeta, O Monte Roraima marca a divisa dos três países da América do Sul: Brasil, Venezuela e República Cooperativista da Guiana, e está catalogado como o sétimo ponto mais elevado do país, com 2.739 metros. O nome do Monte é que deu origem ao estado de Roraima, a partir da expressão ROROI(verde azulado) e IMA (grande), na língua Pemon (indígenas que vivem ao sul da Venezuela, da mesma etnia Taurepang, no Brasil).

O primeiro homem a vislumbrar o Monte Roraima foi o inglês Sir Walter Raleigh em 1595, que chegou até a base, mas não conseguiu subir. Somente em 1884 o botânico Everard Im Thum, conseguiu a proeza. Seus impressionantes relatos inspiraram o escritor Arthur Conan Doyle na obra imortal “O Mundo Perdido”.

O tempo parece ter parado no alto de algumas montanhas do sudeste da Venezuela. Não são montanhas pontiagudas, verdejantes ou nevadas como as que estamos acostumados a contemplar, nem fazem parte de cadeias com alturas monumentais -  como nos Andes ou Himalaia. As mais altas montanhas ali superam os 3.000 metros, porém, não existe montanhas iguais em nenhum outro lugar do planeta.

Nascidas num tempo remoto em que a vida na Terra nem sequer engatinhava, há quase uma centena delas entre as florestas e savanas venezuelanas, invadindo a Amazônia brasileira e Guiana. Elas têm formas curiosas, cilíndricas, com paredões radicais cor de terra que sustentavam imensos platôs. Parecem mesas imensas e ficaram conhecidas com Tepuis, palavra que significa montanha na língua dos índios pemons – grupo ancestral que habitam aquela região. Com suas espécies vegetais e formações rochosas assustadoras que chegam a lembrar de dinossauros, o Monte Roraima é o mais complexo, desafiador e misterioso dos tepuis.

DICAS PARA O MONTE RORAIMA

O monte fica ao norte do Estado de Roraima, na divisa com a Venezuela. Para chegar você precisa ir de avião até Boa Vista, a capital do estado. A partir de Boa Vista são necessárias 2,5h de estrada pela BR 174 até Santa Elena de Uairén, totalmente afastada e muito bem sinalizada. Depois de 68 km até a estrada da vicinal que conduz à Comunidade Indígena de Paraitepuy, localizada no Parque Nacional Gran Sabana na Venezuela.

A melhor época é no período menos chuvoso entre setembro e abril, mas cada ano é muito singular. Nesse período sugerido, as trilhas são menos escorregadias, a travessia de alguns rios é menos complicada e há um pouco mais de “conforto” nos acampamentos. As viagens nos outros períodos representam uma aventura maior, compensada também pelo espetáculo das cachoeiras mais densas. A temperatura na base oscila em torno dos 20 graus, e no topo fica por volta de zero grau à noite.

O acesso ao Monte Roraima é possível a todas as pessoas (via trekking ou mesmo de helicóptero) que gostam de realizar atividades na natureza, mas é preciso ter consciência de que a realidade da caminhada é difícil e cansativa, o nível de subida é entre 3 e 4 do Monte, anda-se muito em terrenos acidentados, um sobe-desce sem parar, o desgaste físico é extenuante e é necessário estar disposto a passar por imprevistos.

TERRA DE LENDAS E PLANTAS EXÓTICAS

Como todos os tepuis da região, o Monte Roraima começou a ser desenhado há quase dois bilhões de anos, quando nem sequer os continentes apresentavam seus contornos atuais.

O topo do Monte Roraima é um lugar sinistro, sem referências geográficas em qualquer lugar do mundo. O exército de pedras escuras do platô, com formas e dimensões distintas que variam conforme a luz seria capaz de instigar a imaginação até do mais duro e cético dos escritores.

Muitos trechos dos seus quase 90 km de área permanecem intocados, seja pela dificuldade de acesso ou pelas crenças indígenas que os isolam. Para se ter uma idéia, somente em 1976 é que o primeiro homem (o escritor venezuelano Charles Carias) desvendou o impressionante Vale dos Cristais, local próximo ao ponto que marca a tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Já as lendas mantidas vivas pelos índios fazem com que os visitantes e estudiosos jurem ter vistos criaturas pré-históricas, ou ouvido urros estranhos e horrendos quando alojados no Monte Roraima, mas os únicos seres vivos devidamente registrados no topo do Monte, são alguns pássaros, insetos, anfíbios – entre eles a peculiar borboleta tigre e o sapo de nome científico Oreonphyella Quelchii. Estima-se  que pelo menos 400 tipos de bromélias e mais de 2.000 tipos de flores e samambaias compõe a diversidade da flora.

O CLIMA DE MISTÉRIO

A partir da aldeia Paraitepuy, distante 26 km da base do Monte Roraima, são dois ou três dias inteiros de caminhadas pela savana, subindo e descendo a todo instante até o alto da montanha. Às margens do Rio Tek já se têm uma bela vista do Monte Kukenan (Pai dos Ventos), irmão do Roraima, mas de exploração muito mais difícil, possível apenas em período de poucas chuvas. Chove regulamente ali durante oito meses no ano.

E mesmo entre setembro e abril, época de menos chuvas, o Roraima vive envolto em nuvens, que criam um microclima especial, contribuindo com a atmosfera misteriosa e sombria. Além disso, as águas proporcionam a existência de cachoeiras espetaculares na região, como o famoso Salto Angel, no Ayan Tepui, o maior salto dágua do mundo em queda livre.

O VALE DOS CRISTAIS

O marco piramidal que define a tríplice fronteira, fica numa espécie de arena, cercado por impressionantes formações. De um lado o Vale dos Cristais, extenso e bonito (na Venezuela); do outro, o temido Labirinto (na Guiana). Próximo, outro caminho cheio de fendas e lagoas leva ao paredão do lado brasileiro. Muito além do Labirinto fica o Lago Gladys – assim batizado em homenagem a um lago citado em O Mundo Perdido, obra do escritor inglês Arthur Connan Doyle, que claramente se inspirou em relatos sobre o Monte Roraima para compor a atmosfera misteriosa de seu livro. Muitos índios dizem que o Lago Gladys não existe.

Alguns que já estiveram por lá criam dificuldades para encarar mais dois dias de trilha “suicida” a partir do ponto tríplice. O caminho do Lago é apenas um entre os muitos temores dos índios pemons, que fiscalizam o lugar sagrado, considerado assim para eles. A atual geração de nativos incumbida de guiar os visitantes parece enfrentar as vezes a tarefa com resignação e dor. O dinheiro do turismo é a sua principal fonte de renda, mas eles se sentem na obrigação de defender a montanha, e são hostis quando alguém grita, joga lixo no chão do parque ou promove gestos e atitudes que eles consideram um desrespeito ao Monte Sagrado.

Sob o olhar dos imensos tepuis, a Terra evoluiu, mudou-se, esculpiu praias, montanhas e desertos, deslocou homens e impôs desafios. Anônima e eterna testemunha desta trajetória, o Monte Roraima é um lugar mágico onde o silêncio emite sons, as pedras se movimentam, a vida viaja num sopro de vento.

Dinossauros existem? Claro que sim. O Monte Roraima está lá para mostrar isso, pois num mundo onde os sonhos e a imaginação estão acima de qualquer suspeita, tudo é possível. Sozinho ou em grupo, trilhar a história e os caminhos que levam ao topo do Monte Roraima é sempre uma aventura inesquecível, mas para que isso aconteça, é preciso alguns cuidados especiais e, sobretudo, um bom planejamento. É preciso respeitar as adversidades do Monte Roraima, existem inúmeros obstáculos que exige cuidado e uma boa orientação. Rondon relatou: “ Uma larga abertura no planalto, vale formado por este ou por águas que vertiam para o norte, impediu sua marcha para frente. Com receio de ser colhido pela chuva em ponto já distante do acampamento, desistiu de procurar passagem nesse labirinto empedrado de montículos de formas originais, onde o explorador dificilmente podia se orientar”.

Na verdade, o mistério e desafio de encarar a subida ao Monte Roraima, também está em cada um de nós. No dia a dia, encaramos desafios da vida. Subir ao Monte é acrescentar nas páginas de nossa história de vida, uma aventura recheada de imagens surreais que marcarão não apenas a nossa existência na terra, mas a nossa alma.

Fonte - Aleks Palitot

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