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Terça-Feira, 24 de Novembro de 2020

SENHORES DOS RIOS EM RONDÔNIA

Então é preciso ocultar esse medo bem no fundo da alma, e estudar os mapas, observar a bússola e os astros, rezar para um bom dia de remada e navegação, e ter esperança. Pura, simples e frágil esperança.
Segunda-Feira, 12 de Janeiro de 2015 - 10:10

Por dias não se vê nada além da grande floresta. Perfeita e cheia de vida. Rios, estradas de um caminho só. Vive-se preso ao medo. Medo das tempestades. Medo de doenças. Medo de animais selvagens. Medo do desconhecido.

Então é preciso ocultar esse medo bem no fundo da alma, e estudar os mapas, observar a bússola e os astros, rezar para um bom dia de remada e navegação, e ter esperança. Pura, simples e frágil esperança. Assim, vive-se a verdadeira aventura nascida do vasto desconhecido, além da imensidão da Amazônia. Uma nova vida, uma nova História.

Foram os exploradores do passado. Bandeirantes, entradas, sertanistas e moções que, entre os séculos XVII e início do XX, se cobriam de esperança e alavancados de uma grande coragem, deslizavam suas embarcações pelas águas do sudeste do Brasil, com destino a uma floresta até então intocável. Havia promessas de riqueza, glória e fé. Bastava se aventurar e encarar terras antes nunca exploradas, mas, que despertava no imaginário do homem a possibilidade de ali existir um El Dorado. Um lugar de oportunidades, de expandir a fé cristã, de ficar rico da noite para o dia e cravar no solo amazônida seu nome, marcando a história com atos de heroísmo e superação, tendo como prêmio final, o reconhecimento pelos seus feitos.

Na verdade, nem tudo era perfeito, a não ser a biodiversidade da Amazônia e seu bioma. Havia doenças, por que não falar dos índios que defendiam suas terras contra os invasores. O “senhor dos rios” era diariamente levado a pagar um preço muito alto pelo seu sonho de glória e riqueza. Fato, que levava a selvageria do explorador, ser tão mais selvagem em seus métodos de conquista, quanto, ao comportamento do índio na floresta, que pelo conquistador era um selvagem da pior espécie.

Em algumas circunstâncias, escritores da história se reservam algumas vezes, ao fato histórico em si, a datas, ano, como se isso fosse o teor da história, margeando apenas os desdobramentos e cotidianos dos “senhores dos rios”, que muito mais que uma margem, são parte fundamental da leitura que devemos fazer, sobre a ampliação do território brasileiro frente a Coroa Espanhola ainda no período colonial. Além das Entradas e Bandeiras, não nos furtemos de relembrar o sertanista mais conhecido do mundo, o Marechal Rondon, que foi além de sua missão na Amazônia, deixando marcas positivas de um processo de reconhecimento mais profundo do mundo amazônico, muita além das margens.

Do que falam as margens? O que revelam? Ou ocultam? Fala-se delas ou elas? Dos discursos historiográficos que tratamos pouco importa trocar as margens de lugar. Não se trata de inverter ou eleger centros e periferias da história. A questão estaria menos no local – espaço geográfico – mas, sim, no papel ocupado por algumas narrativas e seus cenários num determinado discurso historiográfico, que nacional, homogêneo e hegemônico.

Rondônia é a cristalizada por culturas que nasceram no berço dos seus rios, e aqui, somos agraciados pelos rios Madeira, Machado, Jamari, Mamoré e Guaporé, e como pilares de sustentação, proporcionaram no passado, o ingresso dos sertanistas, a sobrevivência dos nativos, e no presente a permanência de algumas comunidades caboclas e tradicionais.

Tivemos a experiência de navegar por 10 rios de Rondônia utilizando um kaiak, embarcação esta, que no passado foi inventada por esquimós que utilizavam ossos de baleia e couro de animais, para sua fabricação. A nossa aventura é tentar fazer alusão aos homens que no passado, superaram de alguma forma, as adversidades de navegar pelos rios de Rondônia, encarando diariamente as dificuldades naturais de um ambiente selvagem, que no passado, não se cansava em tentar expurgar os invasores e conquistadores da floresta e dos rios.    

E os rios têm seus senhores e também seus servos. Sociedades indígenas reinventam-se como no Mamoré, Jamari e Pakaas. Podemos, assim, percorrer os desvãos das corredeiras do Madeira e da vida de índios que por ali ainda existem. Ritos e sons dos rios confundem e são confundidos com as experiências de indígenas e setores envolventes. O Guaporé ganha vida histórica. Como a Amazônia, ele também é inventado como região, espaço geoecológico. Dele expulsa-se a história. Mas a recuperamos nos relatos de conquistas e derrotas. O silenciado e o enfatizado se invertem. Menos mediação da natureza e, sim, expectativas e percepções.

É de carne e osso, sangue e coração. São povos como os quilombolas de Santa Fé e Santo Antônio das Pedras Negras no Guaporé refazendo o contato colonial, suas identidades e, portanto, a si mesmos. O Outro paulatinamente reinventa o Nós. E ambos mudam. Desejos da conquista e colonização são escravos das canoas, e estas dos rios.

Navegamos pelos rios Machado, Preto, Candeias, Mamoré, Madeira, Guaporé, Jamari, Rio Jaci e Garças, não apenas para viver um turismo de aventura, ou menos ainda para de forma documental, seguir a risca o que os “senhores dos rios” viveram no passado, e assim, fazer uma alusão próxima da realidade, extraindo daquela essência, os dissabores de uma viagem quase interminável.  A nossa intenção era sentir, viver e aprender. Essa tríade foi a nossa grande lição. Precisamos conhecer o passado, tentar entender e refletir. Viver essa experiência foi algo imensurável. Ao longo dos rios que navegamos, podíamos imaginar o quanto foi difícil para esses homens “senhores dos rios”, que chegaram à levar três anos em uma viagem de São Paulo-Amazônia –Belém, seguindo apenas os cursos dos rios.

Em muitos artigos e manuais – o que se passou chamar de Amazônia foi verdadeiramente expulso. Uma expulsão histórica, uma cada vez historiográfica. Inventada como região – unida e homogeneizada – a Amazônia foi transformada num mundo distante. Da história distante, mas próxima da natureza. Reintegrar estes mundos não é tão somente um esforço bem intencionado ou politicamente correto de compreender o regional. Significa entender a construção de ima(r)gens naquilo que nomeamos Amazônia, experiências não foram miméticas ou variáveis passivas de mundos dela distantes, mas extremante ligados, pela história de seus rios.

Fonte - Aleks Palitot
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