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Terça-Feira, 24 de Novembro de 2020

CENTENÁRIO DAS LINHAS TELEGRÁFICAS EM RONDÔNIA

Foi nesse processo de conquista colonial que a região amazônica tornou-se uma das margens do Novo Mundo, um vasto desconhecido.
Quarta-Feira, 07 de Janeiro de 2015 - 09:48

Se a chegada da expedição colombina às Antilhas, em 1492, contribuiu para ampliação do horizonte geográfico e cultural dos europeus no final do século XV, uma vez que as terras recém-descobertas tornaram-se uma gigantesca periferia do mundo, as várias expedições conquistadoras, que trilharam o Novo Mundo ao longo do século XVI, revelaram, por seu turno, que nesta imensa “margem do mundo”, havia outras margens. Foi assim que, a partir das Antilhas, as regiões de terra firme do continente americano foram sendo conquistadas.

No primeiro momento, foi a região mesoamericana, tendo a derrota da Confederação Asteca como seu principal triunfo. No segundo, já a partir do que hoje é o Panamá, foi a vez dos Andes Centrais,e com prêmio, o Império Inca.

Foi nesse processo de conquista colonial que a região amazônica tornou-se uma das margens do Novo Mundo, um vasto desconhecido. Porém, um vasto desconhecido que, ao contrário do que ocorreu com o Vale Mexicano ou com os Andes Centrais – “margens” que se tornaram “centros” do mundo colonial -, continuou nessa condição, vindo até os dias de hoje.

Sendo uma das “margens” – limites – do Novo Mundo, a Amazônia, como região ainda bastante desconhecida pelos europeus, tornou-se, ao lado de outras “margens americanas”, um alimento para imaginação coletiva. Em suma: à medida que a conquista europeia prosseguia, o empirismo do devassamento era acompanhado por expectativas e projeções oriundas de um universo mental carregado de componentes de longa duração e outros simbolismos. Desejos da conquista e colonização são escravos das canoas, e estas dos rios. Pelas estradas naturais da Amazônia seguiram bandeirantes, índios, missões, moções, entradas, sertanistas e quilombolas. Os sertões são transformados em paisagens movediças. Estão em todos os lugares. Ressurgem ou desaparecem. Tanto lugares de passagem das narrativas que enfatizam a dominação como portos seguros para quem procura proteção. Mapas e desenhos consolidam a dominação. Cenários ocultam e ao mesmo tempo desvelam os sertões.

Diante de muitas incertezas e obscuridade sobre a região Amazônica em Rondônia, o presidente da República Afonso Pena, incumbiu um homem, que trazia consigo o espírito dos povos indígenas, o respeito pela floresta dos quilombolas, e a coragem e determinação bandeirantes e exploradores, estes personagens do passado, Mas, que se faziam presente em atitudes positivas no que tange ao percurso doloroso que Rondon travou em meio ao vasto desconhecido, trazendo após anos de trabalho, um pouco da floresta ao povo brasileiro, que ainda era povoado por lendas, mistérios e vazios científicos. Marechal Rondon, foi em seu tempo o homem certo, para uma missão incerta. O militar aguerrido, que evitada guerra contra índios. O positivista convicto em busca da Ordem e do Progresso.

1907, O COMEÇO DE TUDO

Em 1907, o oficial do corpo de engenharia militar, Cândido Mariano da Silva Rondon foi encarregado pelo governo federal de implantar a linha telegráfica entre Mato Grosso e Amazonas ( atualmente parte de Rondônia), tendo como extremos a cidade de Cuiabá e Santo Antônio do Rio Madeira, povoado que se localizava a 7 km acima da atual capital de Rondônia.

Rondon a implantou depois de cortar toda uma região que Roquete Pinto sugeriu em 1915, chamar-se “terras de Rondônia”, local etnográfico entre Juruena e o Madeira, cortado pela linha telegráfica já conhecida por “Estrada Rondon”. Para bom desempenho do seu trabalho o sertanista dividiu-o em três grandes etapas denominadas “expedições” e que foram: A expedição de 1907, que levantou o trecho entre Cuiabá e o rio Juruena, fazendo um total de 1.781 km de reconhecimento; A expedição de 1908, que efetuou 1,653 km de reconhecimento, tendo varado o inóspito trecho entre Juruena e a Serra do Norte; A expedição de 1909, a mais famosa de todas, com 2.232 km de reconhecimento e incrível varação pelas florestas intrínsecas da Amazônia, saída da Serra do Norte até o caudaloso rio Madeira.

A EXPEDIÇÃO DE 1907

A empreitada teve início em 2 de setembro de 1907 e, no dia 29 de novembro, já estava de regresso a Diamantino, após ter chegado a Juruena. Era aquele ponto que seria conquistado pela Comissão Rondon em sua primeira penetração pelos sertões, depois da partida de Cuiabá, e passagem pelos vilarejos de Guia, Brotas e Rosário, trajetória da linha telegráfica. Entretanto, os 89 dias contados pela Expedição foram a partir de Diamantino, quando começaram a abrir o piquete de penetração. A coluna foi composta pelo até então Major Rondon como comandante; ajudante o 2° tenente João Salustiano Lyra; o farmacêutico Benedito Canavarros; o fotógrafo Luiz Leduc; e mais 16 praças e empregados auxiliados por 34 muares e 4 bois cargueiros.

Munidos de uma trompa que lhes servia acústica, os expedicionários andavam a cavalo quando o local permitia, seguindo o “picador” com a bússola de algibeira do chefe. Um homem era encarregado de medir a distância por intermédio do passômetro de um dos animais escolhido para aquela finalidade. O picador iria à frente marcando as árvores por onde deveriam passar os foiceiros e machadeiros, denominados assim naquela épocas, os bravos homens que seguiam a frente da abertura dos caminhos da Comissão Rondon.

Ao meio-dia já os trabalhadores deveriam escolher o local para acamparem, pois que haviam saído pela madrugada depois da primeira refeição e mesmo porque os picadeiros, mais lentos, haveriam de chegar muito mais tarde, quando então se reuniam para avaliação dos feitos diários e, após a terceira refeição, às 22 horas, soava o toque do silêncio.

Cinco dias depois da saída de Diamantino, os expedicionários entraram em contato com os índios Parecis, na cachoeira do Kágado, a 74 km de Diamantino, quando Rondon mandou fincar um mastro no qual se fez o hasteamento do pavilhão nacional pelo cacique da tribo; ao mesmo tempo incorporou o parecis Zavadá-issu como guia. Aqueles índios já eram pacificados, sendo que muitos trabalhavam com proprietários de seringais.

Em 10 de outubro, os sertanistas chegavam as margens do rio Sauêuna, divisa com dos domínios Parecis e Nhambiquaras. Transposto o rio, a mata exigiu mais um sacrifício da Comissão que passaria a andar somente a pé, pois que o cerrado exigia maior número de braços na abertura do pique. Ainda em outubro a Comissão Exploradora chegara ao Jacy e, prosseguindo, varou várias trilhas de índios e, finalmente, no dia 20 chegaram à margem do Juruena.

EXPLORAR É PRECISO, EXPEDIÇÃO DE 1908

Entre os dias 20 de julho a 3 de novembro do ano de 1908, a coluna expedicionária de Rondon voltou a percorrer o trecho já conquistado e mais a parte compreendida entre Juruena e Serra do Norte, desta feita com número maior de expedicionários – 127 homens bem armados, 90 bois de carga, 50 burros, 6 cavalos e mais 20 bois para corte. Os principais expedicionários eram, além de Rondon, os segundos-tenentes Nicolau Bueno Horta Barbosa, Emanuel Silvestre Amarante, João Salustiano Lira e tenente médico Manoel de Andrade, tenentes Carlos Carmo de Oliveira Melo e Américo Vespúcio Pinto da Rocha, o farmacêutico Benedito Canavarros, o fotógrafo Luiz Leduc, um inspetor e dois guarda-fios, 30 tropeiros e 82 praças do exército que seriam homens comandados pelo 2° tenente Joaquim Ferreira da Silva que tinham como missão, além do apoio que ofereciam aos demais expedicionários, pacificarem os ferozes Nhambiquaras para a facilitação dos trabalhos de implantação da linha telegráfica. Eles eram, defendiam sua morada, não deram descanso aos expedicionários que se viam também com extravio dos animais, seja por adoecerem ou mesmo fugirem. Alguns “soldados de espírito fraco”[1], como os denominou Rondon, chegaram a desertar, apavorados com o desconhecido.

A fome os castigou violentamente, pois largaram os víveres na estrada, pela falta de animais para os conduzirem ou por estragarem. Em outubro, Rondon já se encontrava divisando a Serra do Norte e transpôs o rio que denominou Nhambiquara. Nos dias 10 e 11, os sertanista fez travessia dos igarapés que denominou Veado Branco, Assaí, Jacutinga, Guariboca, Gruta da Pedra, Garnica, Traíra, dentre outros. Dali, a 5 km do rio Nhambiquara, Rondon regressou ao ponto de partida.

Como da vez anterior, o chefe anterior, o chefe da coluna expedicionária mandou colocar em giraus todo o material que servira na abertura da picada, além de ter salgado sete bois que lhes restavam e que ficariam como presente aos índios que pretendiam pacificar.

Aquela expedição sofreu, além dos ataques dos índios que naturalmente defendiam sua morada, também o aparecimento do impaludismo que chegou a vitimar um de seus homens. Sendo assim, Rondon então regressou a Tapirapoã, local de onde partira a coluna, no dia 22 de dezembro de 1908, onde posteriormente o Marechal Rondon dissolveu a Comissão Exploradora.

RONDON EM RONDÔNIA: EXPEDIÇÃO DE 1909

Em seu caminho pelas florestas inexploradas, tribos hostis foram o menor dos percalços onde hoje são consideradas terras do Estado de Rondônia. Doenças como malária sugaram as forças das tropas que o acompanharam e mataram muitos dos seus homens. O próprio Rondon esteve à beira da morte. A caminhada pela floresta era dura.

A fome sempre rondava, já que não havia, inicialmente, postos de reabastecimento. Muitas vezes, os soldados precisavam caçar o alimento do dia. O resultado era uma enorme quantidade de deserções entre os praças designados para trabalhar com o marechal. “A nossa resistência física se dobrava sob o peso da fome e das privações de toda sorte que nos atormentaram durante a travessia”, declarou Rondon sobre sua segunda expedição ao Rio Madeira.[2]

Ainda assim, o militar e seus mandados foram abrindo caminho por entre árvores e rios, levantando postes e construindo postos de telégrafo em meio à selva em Rondônia. No entanto, como conta Todd Diacon[3], os números mostram que a obra não significou uma revolução em termos de comunicação para a região. Uma das estações, por exemplo, a Presidente Hermes (Situada em Presidente Médice-RO), só mandou 38 telegramas em 1924, e só recebeu 15 ao longo daquele ano.

Quando o último prego da linha telegráfica ligando Cuiabá a Rondônia foi pregado, a tecnologia das transmissões por rádio se estabeleceu e criou-se o telégrafo sem fio. O importante não foi a linha em si, e sim a exploração de uma região inexplorada e o contato cordial com os indígenas. Rondon era um excelente geógrafo e naturalista, trouxe as primeiras informações sobre muitos lugares da Amazônia. Trouxe conhecimento do território, de plantas, animais, além da descrição de tribos e seus costumes. Além disso, foi ele quem convenceu a população brasileira de que valia a pena defender os índios.

Dessa forma, claro que a Terceira Expedição de 1909 foi a mais importante das expedições para Rondônia. Pois a mesma varou todo o sertão do atual Estado em travessia que durou 237 dias de maio até dezembro, numa extensão superior a 800 quilômetros e, duas turmas organizadas por Rondon e denominadas turma Norte e turma Sul, sendo que, enquanto a norte procurava localizar a cabeceira do rio Jacy-Paraná, cabia à turma sul a tarefa de reconhecimento e exploração do terreno compreendido entre Serra do Norte e o Rio Madeira, esta sob a chefia do então tenente-coronel de engenharia Cândido Mariano da Silva Rondon e mais os subalternos zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro, 1° tenente médico Dr. Joaquim Augusto Tanajura, 1° Tenente militar João Salustiano Lyra, 1° tenente Engenheiro militar Emanuel Silvestre do Amarante, 1° tenente Alicariense Fernandes da Costa, 2° tenente Antônio Pirineus de Souza, guarda-fio Pedro Creveiro Teixeira, guarda-fio João de Deus e Silva, cacique parecis major Libanio Koluizorocê, guia índio Joaquim Zolámaie, 14 praças do exército e 18 trabalhadores civis.

Como se tratava de uma das mais ricas arriscadas missões da coluna expedicionária, Rondon preocupou-se tomar algumas decisões, tais como exigir de seus auxiliares, rigoroso exame sanitário visando a sondar o estado físico necessário aos andarilhos que seriam a partir de então. Nos Campos Novos, no local por ele denominado Mata da Canga, os índios fizeram emboscadas que resultaram na morte do soldado Rosendo, nos Campos de Comemoração de Floriano ( em Pimenta Bueno), os expedicionários se detiveram 51 dias, procurando localizar as cabeceiras que davam para os rios Guaporé, Madeira e Tapajós – um platô que foi explorado minuciosamente até o dia 21 de agosto daquele ano. No dia 14 de setembro, a coluna passou por uma aldeia de índios que fora visitada por Rondon.

No dia 9 de outubro, no km 354 da exploração, os expedicionários descobriam um rio de 50 metros de largura, a que Rondon deu o nome de Pimenta Bueno. No dia 24 de outubro, a turma teria se dividido conforme orientação de Rondon. O mesmo chefiava uma turma de 28 homens e, em dezembro, viu-se bastante prejudicado com a falta de alimentos, mas no dia 25, a expedição chegava ao ponto desejado, Santo Antônio do Rio Madeira, quando o chefe da turma proferiu o seguinte discurso:

“Heroicos e dedicados companheiros, não ofenderei a modéstia que orna o vosso diamantino caráter, afirmando-vos que à vossa coragem e patriotismo devemos a conclusão deste reconhecimento de sua organização. Entretanto, aqui nos achamos à margem do rio Madeira, com a marcha de 1.415 km, a contar do porto de Tapirapoã, um levantamento topográfico de 1.211 km, inclusive 200km de variantes diversas e 354 km do curso do rio Jamary, compreendido entre o repartimento e a barra e determinação de 15 posições geográficas dos pontos em que nos foi possível fazer observações astronômicas para tanto”[4]

[1] MAGALHÃES, Amilcar A. Botelho – Pelos Sertões do Brasil. Porto Alegre, Globo – 1930.  pág.244.

[2]VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010.

[3] DIACON, Todd A. Rondon. Companhia das Letras. São Paulo, 2006.

[4] [4] MAGALHÃES, Amilcar A. Botelho – Pelos Sertões do Brasil. Porto Alegre, Globo – 1930.

Fonte - Aleks Palitot
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