Imaginários da Madeira – Mamoré – parte III

O etnocídio malévolo e sombrio das coletividades originárias amazônicas, tornou-se um processo galopante funesto e espoliante.
Domingo, 05 de Dezembro de 2021 - 09:43

No enfrentamento intrépido, no embate destemido, na imponente luta e na resistência impávida e incomensurável, a nação indígena Karipuna na exuberância de suas encantarias florestais foi no espaço e tempo, perdendo a originalidade da exaltação sublime dos sentidos existenciais e sendo afrontosamente dilacerada nas relações ontológicas com a natureza divinizada.

Falantes da língua Karipuna, tronco Tupi e de família Kawahib, essa estetizante etnia da Amazônia rondoniense, migrou do alto Tapajós, e no início do século XVII, já habitava as bacias dos rios Madeira, Mutum e Jaci – Paraná.

Mas o entranhamento esplendor dos Karipuna à mata, foi cotidianamente sendo fragmentado pela angústia aviltante dos dois grandes surtos de borracha natural na Amazônia; pela hostilização horripilante e triunfante da hegemonia político – econômica – capitalista, munida de seus caminhos de ferro, que adentravam e cortavam sem comiseração, o seu sagrado território; e pela saga avassaladora e degradante de atividades ilícitas grileira, madeireira e garimpeira da sociedade elitista envolvente.

Os gritos Karipuna ecoavam mata a dentro, misturando-se aos gritos noturnos de sua imbricada fauna. Os velórios florestais se resumiam em corpos eletrocutados de homens e animais, jogados com abominação ao faminto reino de urubus, e quando não, às chamas tórridas e abrasadoras do Deus do fogo.

Atemorizados e afugentados pelo ódio profundo, distantes da insídia e dos insepultos, e obliterados pela tenebrosidade da estupidez humana, os que sobreviveram às armadilhas do fogo cruzado e a eletrificação facínora e atroz de trilhos, os Karipuna, tronaram-se vítimas fatais de alimentos envenenados, deixados de forma proposital nos varadouros da mata fúnebre.

A hecatombe repugnante da nação indígena Karipuna, a sua ignóbil desterritorialização ancestral, e o etnocídio exacerbado e xenófobo atribuído a este povo, são apenas alguns exemplos danosos, responsáveis pelo advento desditoso de aviltamento e aversão às populações originais amazônicas.

Imaginários da Madeira-Mamoré – parte I

Os projetos desenvolvimentistas de intenções nebulosas, as mazelas embrutecidas da desgraça, o infortúnio extenuante da exclusão, e o escamoteamento das minorias étnico – raciais marginalizadas, são aspectos clarividentes do fracasso de tratados e protocolos internacionais e de políticas multilaterais vigentes, que no seu atrofiamento e invisibilidade, não conseguiram efetivamente, combater o fortalecimento avassalador do crime organizado e das atividades ilícitas fronteiriças que continuam ferindo e desonrando as constituições cidadãs dos países que constituem a Pan – Amazônia.

Imaginários da Madeira – Mamoré – parte II

O etnocídio malévolo e sombrio das coletividades originárias amazônicas, tornou-se um processo galopante funesto e espoliante. O ecocídio planetário degradante, está de forma pérfida e tenebrosa, conquistando o seu ominoso apogeu, enquanto os povos indígenas da terra mãe, continuam sendo condenados ao escárnio e ao execrável mundo da sociedade sórdida envolvente.

Os Karipuna da mata são agora as poucas sementes humanas que restam de uma grande nação indígena. São os sobreviventes de uma política econômica desenvolvimentista macabra e o resultado de um capital genocida que nenhuma força deteve ou detém.

A “Panorama” da vida é um panorama da morte: lugar de um imaginário cosmogônico que restou do vasto território Karipuna. Esse espaço vivido de ritos, mitos e suas simbologias ancestrais, continua sendo encurralado, e a coletividade asfixiada, continua sendo alvo de estigmas e estereótipos, onde os trilhos banhados por lágrimas, também mancharam a estrada de sangue.

Marquelino Santana é doutor em geografia, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina.

Fonte - Marquelino Santana

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