100 anos dos Batistas em Rondônia: realidade num tempo de impossibilidades

O difícil, a gente faz logo; o impossível, demora um pouco, mas a gente consegue também!
Quinta-Feira, 14 de Outubro de 2021 - 15:08

O que acontece quando o impossível se torna realidade? Dicionaristas dizem que o impossível não acontece. Mas, a História é repleta de exemplos! Para situarmos o centenário dos Batistas em Rondônia, comemorados no dia 16 de outubro de 2021, vamos entender o contexto histórico do início do século XX, tentando enxergar as muitas impossibilidades que se transformaram em realidade ao redor do mundo.

Voltemos a 1917. Numa Porto Velho novinha as dificuldades são ultrapassadas e no dia 15 de abril circula a 1ª edição do jornal "Alto Madeira". Em 1919, Epitácio Pessoa, paraibano, aos sete anos de idade fica órfão e tudo contribui para que esse nordestino não tenha um futuro promissor. Mas, o impossível começa a acontecer quando ele é acolhido e educado pelo tio, se forma na Faculdade de Direito do Recife, onde também leciona. Advogado, torna-se deputado federal, senador, ministro da Justiça e presidente da República.

ESSAS MULHERES IMPOSSÍVEIS...

Esses anos 1920 fazem o impossível ser realidade – uma loucura para alguns. Quem imaginaria que as mulheres fossem "melindrosas", com cabelos à altura da orelha? Ah, elas agora estão livres dos espartilhos, mostram as pernas e usam maquilagem. A boca é carmim, parecida com um coração! Os olhos são bem marcados e as sobrancelhas tiradas e delineadas a lápis. Nesses "anos loucos", a estilista Coco Chanel reina com cortes retos, capa, blazer, colar comprido e boinas. A mulher ideal é sem curvas, com seios e quadris pequenos. Enquanto isso, os cinematógrafos exibem películas de Hollywood, como em 1921 quando o ator Rodolfo Valentino arrebata os corações das fãs em "O Sheik", levando a mocinha do filme ao deserto, onde ela se apaixona loucamente pelo sheik perigoso e lindo!

ESSES LOUCOS IMPOSSÍVEIS...

Outro filme mudo, também de 1921, marca a história do cinema. Fruto da criatividade de um menino órfão e sem futuro (semelhante a Epitácio Pessoa), "O Garoto" conta a história de um bebê abandonado pela mãe e acolhido pelo "Vagabundo", interpretado por Charles Chaplin. Os dois se tornam uma dupla perfeita, se envolvendo em esquemas para sobreviverem às exclusões do capitalismo. Chaplin quebra a impossibilidade de criticar a sociedade pelo cinema.

Pouco antes, em junho de 1920 acontece a 1ª exposição da Arte Dadaísta em Berlim: a arte que nega a arte! Em agosto do mesmo ano, as mulheres dos EUA conquistam o direito ao voto. Será que um dia elas também governarão nações? O perfume "Chanel nº 5" é lançado, permanecendo até hoje entre os mais apreciados no mundo. E na Europa sofrida com a 1ª Guerra Mundial são germinadas as ditaduras ideológicas. Como a loucura se aproveita do caos!

Anos loucos. Mais um menino de origem humilde comanda um povo. Na Índia, Gandhi em 1920 inicia a campanha de não cooperação com o governo britânico. É possível fabricar em série? O Ford Bigode invade as ruas das cidades e assusta pessoas e cavalos. É possível um bando de escritores, artistas plásticos, arquitetos e músicos renovarem o ambiente cultural brasileiro? A Semana de Arte Moderna prova que sim. E quem combate a recessão norte-americana daqueles anos? O herói "Popeye" e seu infalível espinafre. Por aqui, militares formam o Movimento Tenentista.

O mundo está de cabeça para baixo! Stern e Gerlach estabelecem o "impossível" conceito de spin na Mecânica Quântica. Einstein recebe o Prêmio Nobel de Física em 1921 por causa da "impossível" relatividade. Nesses anos loucos, nascem meninas que inspiram gerações: Maria Clara Machado (escritora e dramaturga), Ruth de Souza (atriz), Clarice Lispector (escritora). Também em 1921 dois garotos nascem e relativizam a impossibilidade humana: Sakharov, físico que acredita no uso pacífico da energia nuclear; e Paulo Freire, pedagogo pernambucano defensor da alfabetização de adultos para que cada cidadão seja responsável pela sua própria libertação.

ESSAS INVENÇÕES IMPOSSÍVEIS...

Em 1921 a Nestlé inaugura a primeira fábrica no Brasil e a família brasileira passa a consumir "Leite Moça" e "Farinha Láctea". A Gessy mantém seu sabonete como preferido desde 1913. O sabão "Flocos Lux" conquista as donas de casa como o ideal para os tecidos suaves (no lugar do sabão em barra). E não pode faltar à mesa a margarina "Blue Band" – vencendo a impossibilidade de conquistar o espaço da manteiga.

Tem mais: o que dizer da loucura de um escritor que "subverte" as histórias infantis, inventando uma menina como principal protagonista, ao lado da boneca, da avó e da "Tia Nastácia"? Em 1921, Monteiro Lobato publica trechos do seu livro "A Menina do Narizinho Arrebitado". Será que é possível a mulher ser heroína nas histórias e na vida real?

É possível ligar definitivamente Porto Velho ao Brasil e ao mundo? Sim, tanto que em 1920 já havia a 1ª Agência dos Correios em Rondônia, concretizando a possibilidade sonhada por Rondon, que pacifica os povos indígenas por acreditar na comunicação e na convivência dos diferentes.

Esses anos loucos viram os trens da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré a todo vapor, vencendo as impossibilidades impostas pela floresta. Em cada estação, ouve-se os grandes sucessos musicais, como "Apanhei-te Cavaquinho" de Ernesto Nazareth, e a inconfundível voz de Louis Armstrong.

ESSES IMPOSSÍVEIS TÃO POSSÍVEIS

É a vez de Eurico Nelson, que nasceu na Suécia e aos 7 anos de idade vai morar nos Estados Unidos. Lá, torna-se Batista e trabalha como cowboy no Texas. Ao ler sobre a Amazônia brasileira, resolve vir para cá em 1891. Em Recife é ordenado Pastor. Em 1897 organiza a 1ª Igreja Batista do Pará. Em 1900, funda a 1ª Igreja Batista de Manaus e em 16 de outubro de 1921 Nelson e mais dez homens e mulheres organizam a 1ª Igreja Batista de Porto Velho no ideal de superar o impossível.

Certamente Epitácio Pessoa não tomou conhecimento da inauguração da 1ª Igreja Batista rondoniense. Nem Rodolfo Valentino, Chaplin, Gandhi ou Ford. Talvez as notícias do "Alto Madeira" não tenham sido lidas por Einstein ou Chanel, mas sim por Rondon e Eurico Nelson, pois estavam perto das impossibilidades amazônicas.

Mesmo assim, podemos imaginar agora uma tribuna de honra onde essas personalidades históricas estão celebrando o centenário dos batistas em Rondônia. Ao microfone, Epitácio incentiva os jovens a não desistirem dos sonhos, inclusive o de ser presidente do país. Com nobreza, Chaplin emociona os ouvintes reafirmando que todos devem lutar pela felicidade pessoal e social. Gandhi, aplaudido de pé, diz que é possível vencer qualquer dificuldade sem violência e com ética. Rondon fala à multidão (que anda tão sedenta de líderes!): "morrer, se for preciso; matar nunca!" Finalmente, Nelson afirma que vale a pena viver a impossibilidade da fé, segundo a vontade de Deus. Num aparte, desta tribuna imaginária o padre João de Britto Selva finaliza: "O difícil, a gente faz logo; o impossível, demora um pouco, mas a gente consegue também!"

Fonte - Moises Selva Santiago

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