O LOBO NOSSO DE CADA DIA – por Moisés Selva Santiago

Jesus inicia a era cristã afirmando que cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto; temos no coração tesouros que podem ser bons ou maus
Terça-Feira, 14 de Setembro de 2021 - 17:51

Cem anos antes de Cristo, Plauto divertia as multidões nos teatros romanos, personificando suas aventuras pessoais. Este dramaturgo sutilmente lembrava aos espectadores: cuidado, pois o homem é o lobo do próprio homem.

Recuando mais no tempo, sábios, profetas e legisladores bíblicos ensinam sobre a responsabilidade pessoal: se alguém pecar, sofrerá as consequências; cada um morrerá pelo seu próprio pecado; o sábio, o zombador, o justo e o ímpio alcançam resultados diferentes (Levítico 5.17; Deuteronômio 24.16; Provérbios 9.12; Ezequiel 18.20).

Se atentarmos para o budismo, desde o século VI a.C. ouviremos que cada pessoa não pode negar sua responsabilidade no que faz e colherá os frutos de suas ações.

Jesus inicia a era cristã afirmando que cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto; temos no coração tesouros que podem ser bons ou maus; e no dia do juízo cada um dará conta de si mesmo (Lucas 6. 43–45; Mateus 12.36-37). E Paulo orienta o autoexame, porque prestaremos contas a Deus no tribunal de Cristo (Gálatas 6.4-5; 2 Coríntios 5.10; Romanos 14.12).

Desde o século VIII a oração "Confiteor" orienta à confissão a Deus pela culpa pessoal, a máxima culpa. No século XVII, Hobbes escreve "Do Cidadão" e insiste que os humanos precisam obedecer às leis naturais, estabelecer um governo estável, e entender Deus – realertando que o homem é o lobo do homem.

Se dermos asas a esses parágrafos, voaremos com Kierkegaard, Dostoievski, Nietzsche e Sartre, para citar alguns aeronautas que explicam a capacidade do indivíduo de agredir a si mesmo e aos outros, como se nele habitassem os tais canídeos selvagens que existem há uns trezentos mil anos.

Então, partindo do pressuposto que cada um é responsável pelos seus pensamentos, emoções, atos e omissões, o poder ameaçador e destrutivo do lobo tem se manifestado pelo menos em três grandes áreas: na religiosidade hipócrita, na política intolerante e no individualismo exclusivista.

A marca da religiosidade hipócrita é o abandono dos textos sagrados e a negação de que somos criaturas imperfeitas do útero ao túmulo. Ela prega que a culpa de nossos erros é do Diabo (e às vezes de Eva!). Isto gera adultos infantilizados que se recusam a amadurecer na fé em Deus e no autoconhecimento. É hipócrita porque, mesmo travestida de religiosa, tal atitude nega as leis supremas do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Além disso, fazem uma lavagem cerebral que incita as pessoas a abominarem a quem adora a Deus de forma diferente. Quando esses lobos surgem, as fogueiras das inquisições são acesas e outra vez a sociedade é prejudicada.   

Daí, o ataque da alcateia é consolidado na política intolerante. Quando tais políticos estão no poder, a "democracia" é boa desde que não haja oponentes. Quando ocorrem os problemas sociais, logo apontam que a culpa é da outra ideologia que os ameaça, como a espada de Dâmocles pairando sobre suas cabeças. Esquecem que política e democracia só existem com pluralidade ideológica, respeito e diálogo mútuo, e isto se consegue com a liberdade pacífica de pensamento e expressão na forma da lei.

Tais lobos atacam porque praticam o individualismo exclusivista. Sim, há aspectos positivos no individualismo; porém quando se torna exclusivista, egoísta, intransigente e intolerante, ele age (até violentamente!) para anular o outro que é diferente. Essa atitude umbilical se opõe à compreensão biológica, religiosa, filosófica, social, psicológica, política, econômica, histórica e ambiental de quem realmente somos. Então surge a matança da empatia, da alteridade, da solidariedade e do meio ambiente.

Infelizmente, a comédia de Plauto continua se transformando em tragédia cada vez que os lobos internos são libertados e anulam a responsabilidade pessoal, ao agredirem o outro, a sociedade, a Natureza e o estado democrático de direito. Em 1974 Roberto Carlos cantou que é preciso saber viver. No século XIII São Francisco de Assis nos ensinou a sermos instrumentos da Paz. Porque a plenitude da Vida somente se torna real no amor a Deus, a si mesmo e ao próximo: a receita para controlarmos o lobo nosso de cada dia. 

 

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foto: pixabay

Fonte - Moisés Selva Santiago

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