Hospital da Candelária e a Cama de Ferro - Ma. Núbia Sussuarana

Nesse sentido, o ambicioso e desumano empreendimento no meio da floresta, foi prejudicado em sua continuidade.
Terça-Feira, 24 de Agosto de 2021 - 14:18

Co-autor: Anderson Leno Fernandes, designer gráfico e pesquisador

A Construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré - EFMM (1907-1912), resultou na morte, em grande escala, de trabalhadores vindos de várias partes do mundo. Os problemas de saúde enfrentados por doenças tropicais em geral, culminaram na perda considerável de mão de obra. Nesse sentido, o ambicioso e desumano empreendimento no meio da floresta, foi prejudicado em sua continuidade.

O contrato que ensejou a construção previa a entrega da obra em 4 anos, porém, devido às dificuldades impostas pelas patologias e pela própria floresta, promoveu alta rotatividade humana de trabalhadores que precisou ser contida. Nunca conseguiram contar o número de mortos em ocasião da construção da estação. Os que não morriam, voltavam aos canteiros da obra com a saúde debilitada; outros, assustados com o cenário de agonia e mortalidade, fugiam pela Selva, sós ou em grupos. Por isso, a necessidade de um hospital urgia naquele momento.

Hospital da Candelária

Candelária é um dos nomes dados à Santa Maria, mãe de Jesus por causa da Festa da Purificação, ritual que ficou conhecido pelo uso de candeias; por isso, candelária. Com este nome batizaram a vila, o hospital e o cemitério localizados a 2,5 quilômetros do Porto Velho, onde se encontrava o canteiro de obras da EFMM.

Segundo o historiador Manoel Rodrigues Ferreira, tanto o cemitério quanto o hospital, foram desativados no final da administração inglesa da EFMM, em 10 de julho de 1931, sendo que a unidade hospitalar, foi totalmente demolida, um ano antes da nacionalização do Complexo Ferroviário. Fato que, não foi justificado em documentos nem desvendado em fontes históricas. Contudo, as pesquisas não nos direcionam a outra linha de raciocínio, se não, a forte suspeita de queima de arquivos.

Hoje a Vila da Candelária que foi o primeiro habitacional dos trabalhadores (construtores) da ferrovia, se tornou um ponto de turismo importante e abriga elegantes restaurantes e petiscarias, bem frequentados. Do cemitério, resistem alguns sepulcros ornados a ferro e pedras, onde é possível identificar nomes de estrangeiros sepultados. Contudo, pelo que se sabe, muitos artefatos foram saqueados, como cruzes de ferro, pedras.

Como ironia da história, no caminho compreendido entre o hospital e a Vila Santo Antônio, foi formado outro cemitério, o das máquinas. Em 1972, na primeira paralização da EFMM, sobre a administração do 5º Batalhão de Engenharia e Construção – 5º BEC, algumas máquinas foram abandonadas e depenadas.

As peças de valor foram retiradas para a empresa que venceu a licitação de posse do acervo da ferrovia. Porém, várias entidades se mobilizaram contra esta ação, incluindo a importante participação do autor do livro “Ferrovia do Diabo”, Manoel R. Ferreira. Mas as máquinas que estavam em plena condições de operação, foram abandonadas ali; formando o “Cemitério das Máquinas".

Do hospital, nenhuma estrutura arquitetônica ficou erguida, de forma que somente com estudos arqueológicos podemos empreender pesquisas.

A Cama de ferro

D. Guiomar Lopes Sussuarana, ex seringueira, antes de entrar para o quadro de funcionários do Território de Rondônia como merendeira, trabalhou como doméstica na casa de pessoas importantes, uma destas, lhe presenteou uma cama de ferro rústica, de pés altos e colchão de mola. Esta cama ficou nos domínios de sua família desde meados de 1950, passando para filhos, netos e bisnetos. Seu filho caçula Antônio Lázaro L. Sussuarana, por exemplo, nasceu nela e o último membro da família que a usou foi uma de suas bisnetas, Rebeca L. Sussuarana Badra.

Mas como chegamos à conclusão da origem da cama? Esta cama me chama a atenção desde a infância pelas suas características peculiares. Assim, quando entrei na minha primeira graduação (História) em 1996, resolvi pesquisar sobre o móvel. Iniciei a investigação pelo método da história oral dentro da própria família; inicialmente, pelos membros mais velhos. Ao buscar outras fontes históricas que sustentassem as narrativas da memória familiar, desvendei um artefato rico e raro.

Semana passada dia 20 de agosto, com o total apoio do Governo do Estado de Rondônia, por meio da Secretaria de Turismo – Setur, a entreguei ao Memorial Rondon após várias tentativas frustradas de fazê-la compor os artefatos do Museu da Estrada de Ferro. Enfim, a memória de Rondônia deu um pequeno passo à frente. Mas não foi fácil. No ato da entrega um militar responsável pelo museu, disse:

 -Esta cama não é original, as peças não são partes do mesmo objeto e por isso não vão se encaixar.

Fiquei atônita e assustada, contudo, com a ajuda de um servidor da Setur, montaram os pedaços da cama que se encaixaram como se as velhas peças de ferro puro, de mais de 100 anos, fossem novas. A cama ficou mais composta do que eu, que não entendia o porquê tanta falta de civilidade por parte daquele cidadão, que se identificou pela patente num tom intimidador.

... o militar sem fardas, não desistiu e retrucou, esbravejando:

-Deveria entregar esta cama aos “Amigos da Estrada de Ferro” pois isto não faz parte da história de Rondon. Só vai entrar aqui, porque eu quero!

Ainda com medo, arrisquei alguns argumentos: Explicando que Rondon é patrono de Rondônia e este Estado, nasceu por causa da construção do Complexo Ferroviário cujo o Hospital da Candelária faz parte, e a cama, pertencia à unidade de saúde.

Ele não desistiu, continuou destilando em palavras todo seu mal humor. Eu sem entender, saí chorando na certeza de quem estava no lugar errado não era a cama e sim o militar.

A cama ficou lá, toda elegante, mais que ele; toda sóbria, mais que eu. Pensava que seria um momento feliz.

Fonte - News Rondônia

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