Sem remo e sem rumo - Por Marquelino Santana

Mas chega um tempo em que a verdejante mata parece exalar apenas abominação.
Domingo, 22 de Agosto de 2021 - 16:47

De onde menos se espera é que sai. Abnegados e à revelia da vida, ribeirinhos e remanescentes dos dois grandes surtos da borracha na Amazônia, acreditam que o mundo continua inócuo e inofensivo. Mas chega um tempo em que a verdejante mata parece exalar apenas abominação.

As águas da fronteira Brasil – Bolívia ensinam a humanidade que é preciso haver uma convivência pacífica e harmoniosa entre o homem e a terra, mas a realidade execrada de uma situação vigente nos leva a crer que o direito constitucional de ir e vir, não deve ser um privilégio para poucos, mas um direito de todos. 

A história social da borracha e a geografia fenomenológica do lugar são extremamente compelidas ao desditoso, e um ato insensato e descomedido, poderá doravante, colocar em estagnação e esfacelamento, os tradicionais modos de vida das populações ribeirinhas da Pan – Amazônia.

É de fundamental relevância lembrar que a peculiar e estetizante estrada de seringa era o cotidiano lugar onde o seringueiro sangrava as seringueiras e embutia as tigelinhas para dela extrair o precioso látex. Além da maviosa estrada de seringa, existia também o varadouro que conforme narra Pedro Ranzi – desembargador do Estado do Acre – “o varadouro é um caminho aberto no interior da mata. Estrada no meio da selva, que liga uma colocação a outra, onde passa comboio de animais, mulas e bois de carga, levando mercadoria e trazendo borracha ou castanha do centro para o barracão ou para a margem”.

Mas no espaço e tempo e na absurdez da vida, o poder do capital continua desalojando almas e ceifando sem comiseração os tradicionais modos de vida do afável povo ribeirinho.

Porém, precisamos acreditar de forma enteléquia, que a altivez do capital não continuará causando balbúrdia e malevolência, diante da bonomia ribeirinha. É necessário atentar para que a coerção de atos burlescos não se transforme em trapaça ardilosa e que o conluio da conspiração não se transforme em desregramento devasso.

Desta forma, vale ressaltar, que a sobrevivência de uma coletividade amazônica, baseada na pesca, castanha e farinha, não possa ser enclausurada ou ludibriada pelo deletério de um pó de brita, e que finalmente ela consiga sair do infortúnio de uma vida sem remo e sem rumo.

Marquelino Santana é doutor em geografia, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina. 

Fonte - Marquelino Santana

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