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Domingo, 28 de Fevereiro de 2021

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A farinha nossa de cada dia - Por Marquelino Santana

A sua dimensão social de uma economia de subsistência ainda contribui de forma relevante para que o lar da família ribeirinha também adquira outras necessidades básicas para o seu auspicioso sustento.
Sexta-Feira, 29 de Janeiro de 2021 - 10:32

Entranhada aos modos de vida ribeirinhos, a farinha é uma indelével fonte alimentar inesgotável e divinizada, responsável pelo equilíbrio de estabilidade e sobrevivência da vida humana. A sua dimensão social de uma economia de subsistência ainda contribui de forma relevante para que o lar da família ribeirinha também adquira outras necessidades básicas para o seu auspicioso sustento.

Com clarividência podemos dizer que a farinha além de ser um suplemento alimentar de alto valor nutritivo, transformou-se num sublime e indispensável fenômeno de interação entre o peculiar e estetizante lar ribeirinho.

Na casa de farinha ou ao redor da mais simplória farinheira, ecoa um momento privilegiado da pureza da percepção humana, do gosto de relações prazerosas entre os familiares e de um profundo sentimento de perenidade da memória coletiva do lugar.

A farinheira surge como uma encantadora marca humanizada dos povos da floresta, ela afugenta a tristeza e provoca o deslumbramento esplendor de alegria e felicidade de seus atores sociais.


GEPCULTURA – FARINHEIRA – ASSENTAMENTO WÁLTER ARCE – BUJARI – ACRE – 2014.

A farinha está intrinsicamente presente nas cuias abarrotadas de Acaí, de Arabu, de Bacaba, de Patuá e no popular capitão, misturado com feijão e toucinho de porco. A farinha também está presente nos preparos do Chibé, da Jacuba, do Mujangué e no singular caldo de caridade, dentre diversas outras culinárias preparadas pelas populações originárias e tradicionais da Amazônia brasileira.

A farinheira é assim considerada um relevante marcador territorial estruturante de subsistência de uma coletividade. Conforme nos esclarece o escritor e geógrafo Almeida Silva sobre as coletividades indígenas da Amazônia brasileira, o entendimento destes coletivos é que como corporificado ao meio, exploram somente o necessário à sustentabilidade das sobrevivências física e espiritual.


GEPCULTURA – FARINHEIRA – ASSENTAMENTO TRIUNFO – PLÁCIDO DE CASTRO – ACRE – 2013.

O habitat humano é um espaço de ação dinâmico e possuidor de uma vivacidade metamorfoseada cotidianamente pelo tempo. Este conjunto de fenômenos sociais e culturais imbricados em suas temporalidades vão desta forma caracterizando e reconstruindo a identidade do ser, por isso, para Erick Dardel, a forma mais importante do espaço construído está ligada ao habitat do homem.

A farinheira das coletividades originárias e tradicionais da Amazônia passa por um processo hermenêutico de sentimento e pertencimento pelo lugar, tornando-se desta forma uma apropriação contínua de utensílios à incompletude do ser. Neste mesmo sentido, Lígia Saramago nos traz uma importante reflexão sobre a vida cotidiana ao nos informar que a ocupação humana do trabalho, leva, portanto, às configurações de regiões e lugares no entorno do mundo, bem como à sua rede de encontro, basicamente ao tornar presentes para nós aquilo que está ao alcance direto das mãos: as coisas, instrumentos e utensílios que nos cercam cotidianamente.

A mandioca vem do útero da terra para fecundar a farinha, e logo em seguida é batizada pela água e celebrada pelo fogo para alimentar a vida. Para Gaston Bachelard, as imagens do fogo têm uma ação dinâmica e a imaginação dinâmica do psiquismo, uma franja de excesso que colore tantas imagens literárias e nos desvenda uma realidade psicológica que nos traz a luz.

A farinha é um traço cultural marcante da vida ribeirinha, é uma dádiva encantatória da sobrevivência e uma imensurável cor que clareia e escuridão.

A farinha é um imaculado aroma que perfuma o bem viver, é um inefável alimento que combate, oblitera e ceifa a dor afrontosa da fome, e por isso, eternamente será a farinha nossa de cada dia.

Marquelino Santana é doutor em geografia, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina. 

Fonte - Marquelino Santana

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