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Domingo, 28 de Fevereiro de 2021

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Após especialistas criticarem, app do Ministério da Saúde para Covid-19 sai do ar

Plataforma foi criada para auxiliar médicos e enfermeiros de Manaus, mas qualquer pessoa podia acessá-la.
Sexta-Feira, 22 de Janeiro de 2021 - 10:40

O aplicativo do Ministério da Saúde "TrateCov", que recomendava o "tratamento precoce" a pacientes que têm sintomas que podem ou não ser da Covid-19, saiu do ar nesta quinta-feira (21). O "tratamento" indicado incluía medicamentos que, segundo demonstraram diferentes estudos, não funcionam contra a doença, como a cloroquina, a hidroxicloroquina e a azitromicina.

O G1 tentou acessar a página de diferentes computadores, mas ela não abre. O G1 também entrou em contato com a assessoria de imprensa do ministério e, até a última atualização desta reportagem, não havia obtido resposta sobre o motivo de o TrateCov estar fora do ar.

A plataforma foi lançada, inicialmente, apenas para profissionais de Saúde de Manaus, mas qualquer pessoa podia acessar, preencher o cadastro e obter as receitas. A cidade enfrenta um cenário de caos pela falta de oxigênio para pacientes – e recordes de mortes por Covid.

Ao divulgar inicialmente a página, o Ministério da Saúde afirmou que desenvolveu o aplicativo "para auxiliar os profissionais de saúde na coleta de sintomas e sinais de pacientes visando aprimorar e agilizar os diagnósticos da Covid-19".

Segundo a nota, "a plataforma traz ao médico cadastrado um ponto a ponto da doença, guiado por rigorosos critérios clínicos, que ajudam a diagnosticar os pacientes com mais rapidez. Depois disso, o TrateCOV sugere algumas opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada, sugerindo a prescrição de medicamentos".

Em nota, entretanto, o Conselho Federal de Medicina (CFM) afirmou que o aplicativo "assegura a validação científica a drogas que não contam com esse reconhecimento internacional" e "induz à automedicação e à interferência na autonomia dos médicos". Além disso, "não preserva adequadamente o sigilo das informações", "permite seu preenchimento por profissionais não médicos" e "não deixa claro, em nenhum momento, a finalidade do uso dos dados preenchidos pelos médicos assistentes".

O conselho pediu a "retirada imediata do ar" do aplicativo ao Ministério da Saúde.

Declarações

Nesta semana, a rede social Twitter colocou um alerta em uma publicação do Ministério da Saúde, apontando que houve "a publicação de informações enganosas e potencialmente prejudiciais" relacionadas à Covid-19. No post, a pasta indicava o "tratamento precoce" contra a doença.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, também mentiu ao dizer que nunca houve, por parte do ministério, recomendações de tratamento precoce.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro também defendeu o "tratamento" mesmo com a ineficácia comprovada deles.

Especialistas criticam

Médicos e cientistas ouvidos pelo G1 criticaram a página e reforçaram que não existe tratamento precoce para a Covid.

"É uma pena que o Ministério da Saúde ainda insista em colocar nas suas recomendações, que pressione médicos a usar, quando o consenso na literatura mundial e na recomendação das sociedades cientificas brasileiras é de não utilizar essas medicações", avalia o infectologista Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

"O uso de tratamentos ou de medicamentos em Covid-19 leve, seja preventivo ou na fase inicial, não encontrou até hoje nenhuma evidência científica que justifique a sua aplicação", afirma Kfouri.

"Eu vejo como a adoção de uma prática de curandeirismo, pelo Estado, como estratégia de saúde pública. É uma prática baseada numa crença, somente numa crença, de que [as pessoas] vão ficar curadas da doença e não vão desenvolver quadros graves. É um absurdo ser tratado como estratégia de saúde pública", avalia Alexandre Zavascki, médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

"Além disso, nós estamos fazendo curandeirismo não com ervas, com chá, estamos dando medicações não por um médico, mas por um aplicativo, que provavelmente não teve nenhuma validação científica da sua aplicabilidade, do seu poder discriminatório de diferenciar uma doença ou não, totalmente sujeito a fraudes", pondera.

"Estamos dando medicações com potenciais de toxicidade enorme. Nós vamos ter, sim, efeitos colaterais dessas medicações em decorrência da prática de prescrição por aplicativo", afirma.

Zavascki também alerta para o uso de antibióticos – como a azitromicina – em larga escala.

"É uma prática que todo mundo tem cuidado, porque isso tem consequências para o aparecimento de bactérias resistentes – você lançar antibiótico na população, isso não vai ficar sem consequências em larga escala", diz.

Kfouri reforça que vários estudos já foram feitos e nenhum comprovou eficácia nos tratamentos.

"Vermifugos [como a ivermectina], remédios para tratamento de malária, remédios para tratamentos de outros vírus como HIV e hepatite foram testados e todos eles, em vida real, com doentes, comparando com quem não toma nada, não mostraram nenhuma diferença no desfecho, seja hospitalização, prevenção, tratamento nas formas leves", disse Kfouri.

"Nas formas graves, nós aprendemos que algumas drogas como corticoides e anticoagulantes são benéficos. Mas para tratamento em casa, antibióticos, vermífugos, remédios para tratamento de malária não têm nenhum efeito e muitas vezes podem trazer malefícios, como alterações cardíacas pela hidroxicloroquina. Isso é contraindicado", reforçou.

Íntegra da nota do Conselho Federal de Medicina (CFM):

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

ESCLARECIMENTO À IMPRENSA

Após análise feita por conselheiros e assessores técnicos e jurídicos sobre o aplicativo TrateCov, recém lançado para auxiliar as equipes na coleta de sintomas e sinais de pacientes possivelmente infectados pela covid-19, o Conselho Federal de Medicina (CFM) alertou ao Ministério da Saúde sobre as seguintes inconsistências na ferramenta:

Não preserva adequadamente o sigilo das informações;

Permite seu preenchimento por profissionais não médicos;

Assegura a validação científica a drogas que não contam com esse reconhecimento internacional;

Induz à automedicação e à interferência na autonomia dos médicos;

Não deixa claro, em nenhum momento, a finalidade do uso dos dados preenchidos pelos médicos assistentes.

Diante do exposto, o CFM pediu ao Ministério da Saúde a retirada imediata do ar do aplicativo TrateCov.

Brasília, 21 de janeiro de 2021.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

Fonte - 20 - G1

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