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Terça-Feira, 19 de Janeiro de 2021

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Rondônia nossa de cada dia - Por Marquelino Santana

Rondônia do estampido e virtuoso apito das locomotivas que ecoava sem exaurir-se.
Domingo, 03 de Janeiro de 2021 - 21:40

Rondônia de territorialidade intercultural. Na sua espacialidade e temporalidade você se fez singular e plural. Na ontologia histórica de homens e mulheres as suas simbologias heterotópicas se entranharam ao ser de cada bandeirante seu.

Rondônia de rios, matas e suas devaneantes encantarias mitológicas, de ancestralidades cosmogônicas dos povos originários e tradicionais que permanecem na vivacidade do imaginário imortalizado de sua gente.

Rondônia que ainda sente o ciciar das flechas indígenas perfurando silenciosamente a orla dos ventos e superando as suas desmensuradas rajadas para finalmente atingir de forma fulminante o corpo da caça, destinado à alimentação de suas coletividades ancestrais.


DANA B. MERRILL. ÍNDIOS KARIPUNA. MUSEU PAULISTA DA USP. ENTRE 1909 – 1912. RONDÔNIA

Rondônia de terras originalmente habitadas pelos Mura, Tupinambarana, Canichana, Torá, Matanawi, Nomos, Kawaib, Txapacura, Mojos, Munduruku e de uma vasta e imensurável rede étnica milenar, condenada por um tenebroso etnocídio promovido por uma sociedade envolvente pérfida, nefasta e aterrorizante.

Rondônia de nações originárias que na sua perspicaz obstinação, resistiu com a sua vigilante perseverança ao holocausto ominoso amazônico que ainda insiste em promover pelas mãos da concentração especulativa do capital, o encurralamento de suas terras, a espoliação de suas riquezas naturais, as dilacerações dos seus modos de vida, o segregacionismo de suas ritualísticas, o desapossamento do lugar, o alijamento linguístico – cultural e o desalojamento de suas almas.

Rondônia de veias tolerantemente abertas, sempre destinadas a acolher distintas civilizações milenares da forma mais complacente e generosa possível, desde os povos asiáticos que atravessaram o Estreito de Bering aos povos que aqui se estabeleceram através de correntes migratórias do Pacífico Sul. A mesma Rondônia Amazônica que também acolheu diversos povos africanos, oriundos das rotas comerciais face a expansão das grandes navegações europeias que se iniciaram a partir do século XVI para atender ao sistema escravocrata das Américas.

Rondônia do estampido e virtuoso apito das locomotivas que ecoava sem exaurir-se. Rondônia que alimenta os sonhos adormecidos nos dormentes que se esfacelam no silêncio das almas que os lapidou e que ainda tremem sob o impacto dos vagões na memória coletiva de seus remanescentes.


DANA B. MERRILL. AUTORIDADES EM VISITA AO TRECHO CONCLUÍDO DA FERROVIA MADEIRA – MAMORÉ. MUSEU PAULISTA DA USP. CERCA DE 1909 – 1910. RONDÔNIA

Rondônia de alma cultura universal, de esperanças transcendentais e de dimensões natural e social privilegiadas que na exaltação devaneante de seus sentidos, honrosamente celebra a sua viscosa criação. Rondônia de útero fecundo divinizado e de homogeneidades e heterogeneidades estetizantes. Rondônia que não é subserviente a concepções estigmatizadas da vida e que navega livremente no deslumbramento da Mãe-d’água que te banha quando acabara de nascer.


GEPCULTURA - SERINGUEIRO HERACLITO. RIO ABUNÃ – RONDÔNIA.

Rondônia que ainda escuta o tiro de espingarda no seringal, anunciando o nascimento de mais uma criança que será acalentada em seu colo. Rondônia que também escuta os pisados dos sapatos de seringa percorrendo a colocação e as batidas do machado tirando cavaco para acender o defumador. Rondônia que escuta o barulho da raspadeira, raspando a casca da seringueira para o tradicional corte da bandeira e a sua suntuosa sangria, destinada à estetizante extração do látex que silenciosamente escorre na tigelinha.

Rondônia que escuta o relinchar do comboio de burros adentrando ligeiramente com seus indissociáveis caçuás de cipós, entrelaçados nas duas extremidades da cangalha, responsável pela sustentação da carga nos lombos dos animais, tangidos sob o açoite dos chicotes nas veredas alcantiladas dos varadouros.

Rondônia que ainda sente o cheiro da fumaça do buião durante o fabrico da péla, e após este árduo processo de defumação da borracha natural, Rondônia sente a percepção da exaustão de seus atores tradicionais, e como recompensa também pode sentir o sabor inigualável da Arabu ou Mujangué, originalmente preparado à base de ovos, farinha d’água e açúcar gramixó para atenuar o cansaço extenuante dos seringueiros.


DANA B. MERRILL. PÉLAS DE BORRACHA AGUARDANDO AS COMPOSIÇÕES DE CARGA DA FERROVIA MADEIRA – MAMORÉ PARA SEREM TRANSPORTADAS. CERCA DE 1909 – 1910 – RONDÔNIA

Rondônia de vida metamorfoseada, com o advento dos dois grandes surtos da borracha, com a construção da Estrada de Ferro Madeira – Mamoré, com a criação de novos municípios, com a abertura de hidrovias e suas rotas fluviais comerciais, com a abertura de estradas e rodovias, com a implantação de redes bancárias, com a civilização do ouro, com o avanço de novas tecnologias que expandiram os meios de comunicação, juntamente com a “interneteuforia”, com o sistema de reestruturação de novas hidrelétricas, com o crescimento da indústria e comércio, e com o desenvolvimento econômico avantajado do agronegócio.


GEPCULTURA – HIDRELÉTRICA DE SANTO ANTÔNIO – RONDÔNIA

Rondônia dos três poderes da escola da aprendizagem do bem-estar social de todos: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. O primeiro planta a semente da aprendizagem ao criar e aprovar políticas públicas voltadas ao exercício pleno de cidadania. O segundo germina essa aprendizagem no sentido de implantar essas políticas públicas com transparência para que a sociedade possa colher frutos de qualidade na vida cotidiana. O terceiro acompanha o crescimento dessa aprendizagem e avalia se as lições de casa dos dois primeiros estão ou não aptas à aprovação.

À vara e remo, uns seguem os caminhos éticos propostos pela carta magna. Outros, porém, preferem cavar a própria cova, outros esperam no pé dela e os mais desregrados não conseguem mais se afugentar das amarras desta mácula funesta.

Rondônia que continua bravamente a sonhar com a melhoria da qualidade da educação pública e com a melhoria do sistema de saúde e os seus heróis e heroínas da pandemia vigente, uns sobrevivendo e curando, outros curando e morrendo. Rondônia que continua a sonhar com a melhoria dos setores de habitação, segurança, saneamento básico, preservação dos patrimônios culturais, geração de emprego e renda e um desenvolvimento sustentável que cada vez mais orgulhe a nossa bandeira, inclusive com incentivo fiscal para a valorização, industrialização e comercialização dos produtos da floresta, em benefício de suas coletividades originais e tradicionais amazônicas.

Rondônia que precisa se libertar de suas fronteiras facciosas, da hecatombe dos conflitos agrários, dos alarmantes índices de violência e mortalidade, da malversação do dinheiro público e do continuísmo incontrolável do feminicídio oriundo de uma sociedade sádica patriarcal.

No alvorecer da terceira década do século XXI, Rondônia é a nossa mágica e bela encantaria amazônica. Mas a menina encantada que nos acolheu e nos encanta, carece de ser verdadeiramente adotada pela bandeira mãe dadivosa na magnitude de sua riqueza nacional orçamentária.

A enclausurada tecnocracia republicana nacionalista precisa se desprender de seu histórico tendencioso de emperramento e estagnação com as unidades de federações amazônicas, fazendo com que as estrelas do lado de cá saiam da solidão e passem a brilhar com maior autonomia e dignidade.

Nesta complacente e imensurável celebração de criação, instalação e evolução do impávido e destemido Estado de Rondônia, queremos de forma briosa e imaculada, agradecer honrosamente a você Rondônia, por nos acolher e nos oferecer o sagrado pão da vida. Viva a Rondônia nossa de cada dia!

Marquelino Santana é doutor em geografia, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina. 

Fonte - News Rondônia

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