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Terça-Feira, 19 de Janeiro de 2021

Livre

A liberdade tem a cor da alma ribeirinha - por Marquelino Santana

a sua sublime exaltação de asas imaginárias dos sentidos, a liberdade não é subserviente às medidas do espaço e tempo, nem às ditaduras de relógios controladores da morte em vida.
Sabado, 26 de Dezembro de 2020 - 10:49

Entranhada na essência da alma ribeirinha, a liberdade divinizada é pura fascinação. A sua forma peculiar e sua estetizante exuberância cósmica se entrelaçam cosmogonicamente na ontologia humana transcendental e fecunda.

Na sua sublime exaltação de asas imaginárias dos sentidos, a liberdade não é subserviente às medidas do espaço e tempo, nem às ditaduras de relógios controladores da morte em vida.

O relógio da alma ribeirinha é mental, o seu mapa é mental, a sua carta magna é mental e a sua mentalidade hermenêutica é o principal marcador territorial dos seus tradicionais modos de vida.

A liberdade da alma ribeirinha tem a cor de suas encantarias florestais, tem a cor do sonho em devaneios e tem a cor do remanso das águas. A cor da alma ribeirinha é emancipatória por natureza, é metamorfoseada pelo tempo, é protagonista do pertencimento, e é sentimento enraizado da resistência e empoderamento humano.

Quem é remanescente ribeirinho nunca perde a cor de sua alma, nunca perde as suas simbologias identitárias, nunca perde a sincronia divinal com o rio, nunca perde a toponímia do lugar, nunca perde o imaginário da vivência familiar, nunca perde as singularidades e pluralidades do mergulho do rio, do pão e da vida, nunca perde a representação e a reflexão de cada história contada pelo pai, pela mãe ou avós, nunca perde a excelência da humildade e nunca perde a imaterialidade transcendental do ser.

A magnitude ribeirinha é uma dádiva do rio e da mata, a maviosidade do lugar é a quimera de esperança de cada rebento que vai desafiar os estudos na cidade, os objetos sagrados do sacrário estão grudados na alma de cada migrante que em lágrimas despediu-se do seu lugar original, o título acadêmico é apenas uma ascensão profissional sem insolência, enquanto a liberdade da alma ribeirinha parece viver em degredo.

Quando o escárnio da cidade enfadonha espolia a alma ribeirinha, ela tira o sentimento do belo, ela exaure o imaginário fabuloso, ela escamoteia a briosidade do ser, ela marginaliza a hombridade sem mácula e deixa em pranto um trabalhador honesto ver morrer uma criança ribeirinha que vivia dentro dele.

Mas foram muitas as crianças ribeirinhas amazônicas que adentraram na fúria da cidade grande para estudar e trabalhar. Certo dia tive a honra de ler e fazer uma reflexão da biografia de uma alma ribeirinha que ocupava uma cadeira titular de uma secretaria municipal de Porto Velho. Naquele momento eu senti a original cor de sua alma e certamente ao escrever suas sinceras e benevolentes letras “beiradeiras”, naquele momento ele voltou ao seu mundo ribeirinho.

Nada melhor depois de uma biografia – desabafo, sentar-se solitário à beira do Madeira e temperar a goela com um gole de aguardente e deixar que as lágrimas corressem nos afluentes de sua virtuosa face e temperasse um pouco as águas deste fabuloso rio. Afinal rio e mar, se não namoram, se encontram todos os dias. As três letras do mar é uma maviosa comunhão com algumas peculiares letras das inebriantes ondas dos banzeiros amazônicos. 

Neste singular e vivificante imbricamento silábico, só me resta dizer do orgulho que sinto em destacar este nome, oriundo do entrelaçamento de algumas sílabas extraídas das palavras mar e banzeiros, onde do mar retiro as três primeiras letras do seu primeiro nome, e do banzeiros, retiro as cinco últimas letras que formam as últimas letras do seu segundo nome.

Enfim, o mandato acabou, e a alma ribeirinha teve que desocupar a cadeira e humildemente fazer o que mais ele gosta: trabalhar na roça, uma prova irrefutável da ilibada conduta de um homem que me inspirou em dizer que a liberdade tem a cor da alma ribeirinha.

Marquelino Santana é doutor em geografia, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina. 

Fonte - News Rondônia

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