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Sexta-Feira, 22 de Janeiro de 2021

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A morte da verde mata e o cortejo da vida morta

Na estesia colossal e briosa de sua benevolência, a fabulosa mata não perdia seu esplendor e continuava impoluta no seu imensurável mundo singular, plural e holístico.
Terça-Feira, 08 de Dezembro de 2020 - 15:22

Era uma vez um suntuoso verde que sobrevivia no altívolo da natureza caudalosa. As árvores não eram ceifadas, os varadouros não eram cerceados, a exuberância verdejante não cessava e a dadivosa mata continuava a abrir suas janelas imaginárias para que o diáfano divino adentrasse silenciosamente e iluminasse a sua beleza maternal.

Embevecida pelo encadeamento arraigado de suas coletividades originárias, a verde mata continuava maviosa na sua magnitude imponente e originalmente aprazível na concatenação iniludível com seus atores sociais.

Na estesia colossal e briosa de sua benevolência, a fabulosa mata não perdia seu esplendor e continuava impoluta no seu imensurável mundo singular, plural e holístico. Na sua peculiar contemplação, enquanto estava sob a proteção de seus guardiães originais, ela lhes proporcionava uma moradia salutar, desmesurada e devaneante, como uma forma sublime e telúrica de manter a sua exuberância cósmica, transcendentalmente entranhada ao ser de cada coletividade que divinalmente a exaltasse numa dimensão cosmogônica e harmoniosa entre o homem e a natureza.

Mas a verde mata foi facciosamente sendo enclausurada pela sociedade envolvente, seus guardiães foram sendo ludibriados, o sol transformou-se num pai causticante, a terra mãe, sem comiseração, foi posta em estado de coerção, e a contumácia humana em estado debelatório e possuída por um malévolo desatino, provocou o descalabro desditoso do sagrado lar da verde mata.

A descomedida consciência humana em seu ato desvairado, anunciou um embate enrijecido e um ódio profundo pela natureza e pelas coletividades originárias e tradicionais da estetizante e virtuosa alma amazônica. O abrutamento exacerbado do homem no ápice de sua ignorância, dilacerou o relacionamento devaneante da memória coletiva com as encantarias florestais da dimensão cósmica divinal.

Seus guardiães eram criminalmente asfixiados, encurralados, desterritorializados e afrontosamente condenados ao cortejo fúnebre de pesaroso infortúnio. Sem comiseração, nem complacência, a força coercitiva do capital, culminava numa debilitação defraudada e degradante das minorias sociais excludentes e de seus tradicionais modos de vida.

O delituoso ato da derrocada humana demonstrava com clarividência a estagnação tendenciosa de um estado desmoralizante e a sua visível discrepância em atuar na defesa dos direitos das classes marginalizadas da floresta em decadência. O advento do ecocídio e do etnocídio de coletividades ancestrais, só reforça o intrigante embuste de um poder público que precisa urgentemente ser repensado, desemperrando suas ações e dinamizando na forma da lei, o enfrentamento à essas práticas genocidas e reacionárias que maculam de forma aviltante a nossa respeitosa carta magna.

Se a empáfia esdrúxula e criminosa de setores da sociedade envolvente, provocou a morte da verde mata e matou seus autênticos guardiães, certamente, os nossos direitos, eles nunca matarão.

Marquelino Santana é doutor em geografia, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina. 

Fonte - Marquelino Santana

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