News Rondônia Notícias de Rondônia, Brasil e o Mundo
Sabado, 28 de Novembro de 2020

Livre

Memórias póstumas do cantador brasiviano - Por Marquelino Santana

A criança apreendeu os cantos e encantos da fauna dos seringais e eloquentemente imitava com perfeição o cantar divinizante e enigmático dos pássaros num original e autêntico concerto no cenário dos palcos florestais.
Sabado, 21 de Novembro de 2020 - 08:49

Ás margens do caudaloso rio Mamu e na congruência dos seringais pandinos bolivianos, vivia o eloquente e intrépido cantador da mata. O cantador da mata era brasiviano. O destemido extrativista nasceu no seringal São João no Estado do Acre no ano de 1978, mas diante das truculências cometidas por grileiros de terras e jagunços naquela região, a família decidiu migrar para o tradicional Seringola do rio Mamu, tentando construir naquele espaço de ação, um lugar que oferecesse paz, aconchego e liberdade no Noroeste das matas pandinas bolivianas.

A criança apreendeu os cantos e encantos da fauna dos seringais e eloquentemente imitava com perfeição o cantar divinizante e enigmático dos pássaros num original e autêntico concerto no cenário dos palcos florestais.

O cantador brasiviano dos seringais do rio Mamu vivia sob os olhares patrióticos de duas repúblicas distintas: a brasileira e a boliviana. Mas para ele não havia nenhuma espécie de hostilidade ou xenofobia no colo binacional das duas bandeiras que sempre tremulavam na mais perfeita e inefável harmonia.

Para o cantador da mata não havia divisa, marco ou fronteira. As águas dos rios Mamu e Abunã, acolhia e unia diferentes identidades como prova irrefutável de uma paz fronteiriça internacional dos direitos humanos e de respeito e tolerância às diferentes diferenças, sociais, linguísticas e culturais de seus povos.

O exímio cantador brasiviano conhecia como ninguém as suas estradas de seringa. Do fabrico da borracha à temporada da castanha, os pássaros da mata sempre acompanhavam os seus tortuosos passos, cantavam juntos, cada um desafiando o outro para saber quem cantava melhor, mas a diferença estava na diversidade musical do brasiviano, que cantava igualmente todos os cantos dos pássaros, enquanto o árduo trabalho transformava-se no mais autêntico orquestrado concerto da floresta.

O cantador brasiviano nunca matou nenhuma espécie da fauna amazônica e também nunca matou nenhuma espécie aquática que vivia na imensidão das águas do Mamu. Cotidianamente ele alimentava-se de palmito, da tapioca, da garapa de cana, da rapadura, do alfenim, da batida, do chibé ou jacuba, da farinha, do leite da castanha, do Açaí, do Patuá, da Bacaba e de uma diversidade de frutas que a mátria florestal o alimentava, além dos tradicionais produtos cultivados na economia de subsistência.

Numa madrugada fria e chuvosa, o cantador e seringueiro brasiviano, sonhou com os espíritos da floresta. Correu com o caboclinho da mata, rezou com a mãe da seringueira, mergulhou nos braços da mãe-d’água, brincou com o menino boto e conversou com o velho da canoa. No diálogo com o velho da canoa, ele recebeu a surpreendente notícia que iria morar no céu, cantar no céu e mostrar todos os cantos dos pássaros da floresta amazônica boliviana.

No dia seguinte o cantador brasiviano entrou pela madrugada num varadouro que o levaria até a colocação onde ele costumeiramente quebrava castanha todos os anos. Mas nesse dia, curiosamente ele não cantou e não ouviu os pássaros cantarem e o seu pensamento estava apenas voltado para o sonho que teve com as encantarias florestais e principalmente com o diálogo estabelecido com o velho da canoa.

Ao chegar no local onde quebrava castanha o cantador brasiviano foi surpreendido e covardemente esfaqueado. Mesmo ferido ele conseguiu escapar e refugiar-se na dadivosa mata. A máquina dos trovões provocou fortes estampidos, as árvores tombavam revoltadas e os relâmpagos iluminavam os seus passos para que ele pudesse escapar. A floresta emudeceu e o cantador da mata foi misteriosamente envolvido por um manto branco que o protegia.

Um dia depois o cantador brasiviano foi encontrado na mata por um seringueiro que o socorreu até ao hospital regional de Extrema, e de lá socorrido às pressas até o pronto socorro no Município de Rio Branco no Estado do Acre. O exímio cantador não resistiu e veio a óbito no dia 25 de fevereiro de 2007 às dezenove horas e quinze minutos, tendo como causa da morte: hemorragia aguda de ferimento por arma branca.

O cantador brasiviano partiu, as encantarias da mata esmaeceram, a orquestra original do concerto dos palcos florestais foi tristemente afugentada, a exuberância cósmica pandina perdeu a sua viscosidade contemplativa e a substância ontológica do cantador brasiviano foi animar os anjos do céu conforme lhe disse em sonho o mítico velho da canoa.

O momento de pureza e percepção foi extinto, o fato foi engolido por um estereótipo diplomático internacional, o silêncio foi o julgamento dilacerado de concepções estigmatizadas, a vida familiar do cantador perdeu a exaltação dos sentidos e a celebração da missa foi o único consolo que recebeu.

O canto e os encantos dos pássaros foram ceifados, a confluência dos rios Mamu e Abunã perdeu sua dádiva divinal, o roteiro repugnante da história foi asfixiado pelo engodo de mentiras ardilosas, a verdade foi enclausurada pelo medo e mais uma vida seringueira foi sucumbida por uma insídia fronteiriça ludibriante.

O lamentável desfecho da morte tornou-se espúrio e estereotipado, o pedido de justiça da família foi estigmatizado no espaço e tempo, a resposta tornou-se evasiva e o único fato elucidado foi revelado pelo mítico velho da canoa: o cantador brasiviano foi alegrar a nostálgica e fúnebre epifania da imensidão celestial.

Marquelino Santana é doutor em geografia, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina. 

Fonte - Marquelino Santana

Comentarios

News Polícia

Editoria de Cultura

Editoria Geral

Siga-nos:

POLÍTICA PRIVACIDADE

Todos os direitos reservados. © News Rondônia - 2020.