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Quarta-Feira, 25 de Novembro de 2020

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Jovem cafeicultor indígena segue o legado do pai e leva o 3º lugar no Concafé 2020

Tecnologias de produção sustentável transformam indígenas em produtores de Robustas Amazônicos especiais
Sexta-Feira, 06 de Novembro de 2020 - 20:10

Foto: Grazyelly Aruá e Nattielly Aruá

O Robusta Amazônico especial e sustentável da família indígena Aruá, mais uma vez, é motivo de orgulho para os rondonienses. O jovem cafeicultor Tawã Aruá, de 22 anos, conquistou o terceiro lugar no Concurso de Qualidade e Sustentabilidade do Café de Rondônia – Concafé 2020. Ele segue os passos do pai, Valdir Aruá, que, em 2018, ficou em segundo lugar no mesmo concurso e se tornou símbolo de uma cafeicultura inclusiva e sustentável na Amazônia. Eles são da aldeia São Luís, na Terra Indígena Rio Branco, no município de Alta Floresta D'Oeste, que fica cerca de 600 quilômetros da capital de Rondônia.

Antes da participação nos concursos, a cultura era apenas uma fonte de renda, mas, agora, há muito mais valor agregado. "Esta conquista é fruto de muita dedicação. O café é hoje pra gente a valorização e o reconhecimento do nosso trabalho e do nosso povo. Estamos provando que o indígena é capaz e que buscamos evoluir sempre", comemora Tawã. Ele faz planos de utilizar o prêmio para mais investimentos na lavoura, na família e num sonho: "quero fazer faculdade de odontologia e o café pode me ajudar muito", conta.

Assim como seu pai, Tawā representa os bons exemplos da cafeicultura de Rondônia, que evolui com a força dos jovens e a experiência dos pais. Em 2018, a conquista de Valdir Aruá deu início a um processo de transformação que tem mudado a forma de enxergar a cafeicultura indígena na própria aldeia, no estado e no Brasil. Uma conquista partilhada por toda a cadeia, já que os holofotes da qualidade e da sustentabilidade dos cafés do Brasil se voltaram para a produção de Robustas Amazônicos em Rondônia. 

É um café aliado da floresta. A produção da família Aruá não leva produtos químicos, é um Robusta Amazônico sustentável. É realizada com atenção a cada detalhe na colheita e pós-colheita. "Tenho muito orgulho pelo café especial que produzimos e por levar o povo indígena neste produto, que respeita a natureza. A floresta é muito importante, não só para nós indígenas como para o mundo todo. Não queremos e não precisamos desmatar. A área que temos aqui já é suficiente para uma boa produção e com qualidade", afirma o cafeicultor Valdir Aruá. 


Família Aruá, em Alta Floresta D'Oeste - Rondônia

Qualidade que transforma sonho em realidade

O segundo lugar no Concafé, em 2018, e o primeiro lugar, em 2020, selam um trabalho que teve início com um sonho, aliado a muita dedicação e a união de esforços. Enquanto trabalhava como motorista na aldeia, Valdir Aruá sonhava em ser reconhecido como um cafeicultor e que o fruto de seu trabalho, o Café Aruá, chegasse às mesas dos brasileiros. Era nas horas vagas, na lavoura próxima à sua casa, que ele e a família se dedicavam a concretização desse objetivo.

Foi aí que, no início de 2018, o senhor Valdir viu a oportunidade de dar continuidade passos mais largos rumo ao seu desejo. Por meio de um projeto de parceria entre a Embrapa Rondônia e a Secretaria de Agricultura de Alta Floresta D'Oeste – Semagri, com apoio da Funai, ele recebeu instruções técnicas e ajuda para construir o primeiro terreiro suspenso com cobertura de plástico transparente da aldeia. Mal sabia ele que, naquele momento, seu sonho ganhava forma e outros tantos passaram a sonhar junto.

A família colocou em prática todos os ensinamentos recebidos, passou a identificar as plantas com maior potencial e iniciou uma colheita cuidadosa e secagem lenta sob o sol amazônico e a brisa da floresta. Como resultado desse trabalho quase artesanal da família Aruá, ainda no primeiro ano de projeto, os microlotes de quase dez sacas participaram do Concafé e ganharam o prêmio de segundo lugar, assim como ficou entre os 20 melhores do Brasil, no Coffee of the Year - Conilon e Robusta, também em 2018.

O gesto de amor da família Aruá gerou uma verdadeira corrente do bem do café. Esse trabalho representativo para a cafeicultura Amazônica chamou a atenção da maior empresa de cafés do Brasil, o Grupo 3Corações, que abraçou a ação iniciada pela Embrapa Rondônia com os indígenas produtores de café e lançou o Tribos. Inspirado no trabalho dessa família de cafeicultores indígenas, o projeto se tornou o que talvez venha a ser um dos mais belos capítulos da cafeicultura brasileira. 

Trata-se de uma ação conjunta de parceria público-privada que tem como pilares o protagonismo indígena, a proteção das florestas e a produção de cafés especiais. Um projeto que começou em 2018, timidamente, com apenas três famílias, hoje atende 132. São indígenas de oito etnias, que residem em duas reservas e que estão recebendo apoio para produzir Robustas Amazônicos com qualidade, de forma sustentável ao tempo em que ganham uma fonte de renda com muito valor agregado.

O projeto Tribos é mais que uma relação comercial, é um projeto de desenvolvimento do conhecimento agronômico, ação social e valorização de todo o café produzido nas aldeias. Assim como também premia os indígenas que produzem os cafés mais raros e especiais em um concurso próprio. Em breve, estes Robustas Amazônicos especiais, sustentáveis e premiados devem chegar às mesas de todos os brasileiros. Mais que um simples café, o que se tem na xícara é origem, história, sonhos e inclusão social. Este projeto do grupo 3Corações conta com a parceria da Embrapa, Funai, Emater-RO, Secretaria Municipal de Agricultura de Alta Floresta D'Oeste e Câmara Setorial do Café do Estado de Rondônia.  

Para Enrique Alves, pesquisador da Embrapa Rondônia, a cafeicultura na Amazônia é feita de sonhos e superação.  Um verdadeiro exército de 17 mil famílias indígenas e pioneiras vindas de outros estados que têm em comum o amor a terra, ao ambiente amazônico e ao café. "Nem em seus melhores sonhos acredito que o senhor Valdir poderia imaginar que se tornaria mais que um cafeicultor. Seria um dos símbolos de uma cafeicultura que se reinventa para se tornar uma referência. Talvez não imaginasse que o seu amor pelo café pudesse perpetuar por gerações. Seus filhos têm orgulho dos pais que ajudaram a dar visibilidade ao cafeicultor indígena e à cafeicultura de Rondônia. Talvez esteja aí o maior prêmio que um pai pode receber: ver o seu filho dando prosseguimento ao seu sonho", comenta Alves. 

Ainda há muito a fazer para que seus cafés viagem tão longe quanto seus sonhos. Mas, ao ver seu filho Tawā receber o prêmio de melhor café Robusta Amazônico de 2020, o senhor Valdir sente que está um passo mais perto de ver o Café Aruá nas xícaras mundo a fora. "Orgulho do trabalho que estamos fazendo e que em breve todo o Brasil vai experimentar", conclui Valdir Aruá.

Confira vídeo sobre o café da Família Aruá:

Resultado do Concafé 2020

Foram cerca de R$300 mil em premiações, distribuídos em duas categorias: sustentabilidade e qualidade. O prêmio de sustentabilidade foi para a Família Bento, de Cacoal, que conquista pela quarta vez este título.

Na categoria qualidade, o 1º lugar foi para Luciana Flanklin, de Novo Horizonte D'Oeste, que levou um trator cafeeiro de R$ 130 mil. Este café campeão teve nota histórica no concurso que, de 90,42 pontos, considerado pelos degustadores como delicado, completo, com aroma floral, doce como mel de cana e com sabor de uva.

segundo lugar foi para Maria Cantuária, de Vilhena, que levou uma premiação de R$30 mil. Um café com 90,08 pontos, considerado exótico, com notas de hortelã, aroma  de jasmim, sabor de pêssego e acidez brilhante.

3º lugar foi para o indígena Tawã Aruá, de Alta Floresta D'Oeste, que levou um prêmio de R$15 mil. Seu café obteve 88,08 pontos, com notas florais, sabor vinhoso com toques de jabuticaba, maracujá e carambola e acidez brilhante.

4º lugar foi para Ismael Marques, também de Alta Floresta D'Oeste, premiado com R$10 mil. Seu café ficou com 87,92 pontos, classificado como refrescante, com aroma de jasmim, sabor de cacau e mamão.

Fonte - Assessoria
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