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Terça-Feira, 01 de Dezembro de 2020

Livre

Prisioneiros da estrada - Por Marquelino Santana

A proeminente relação entre estrada e homem e o relutante e incessante movimento pela conclusão da histórica obra ferroviária, por vários momentos esbarrava na interrupção do trabalho.
Domingo, 01 de Novembro de 2020 - 09:56

Os operários da estrada de sangue, sem nenhum grau de abjeção, conduziam com hombridade e austeridade - mesmo numa asfixiante e alcantilada mão-de-obra - a imensurável ascensão da Madeira – Mamoré.

Mas diante dessa insuperável obstinação, os operários da ferrovia tinham o seu fadado mundo. No entretecer dos seus modos de vida, além da clarividente exploração, oriunda do antagonismo existente entre o capital e o trabalho, também havia naquela amálgama apátrida, as cotidianas arengas e dissensões que muitas vezes fomentavam o desregramento e a antipatia na extenuante e imensurável construção do operoso percurso ferroviário.

A proeminente relação entre estrada e homem e o relutante e incessante movimento pela conclusão da histórica obra ferroviária, por vários momentos esbarrava na interrupção do trabalho. Essa ruptura ocorria em decorrência de desentendimentos, ou entre operários e administradores, ou entre os próprios trabalhadores que em estado de arrelia, estavam, ora na fúria e volúpia de suas inquietações, ora no estarrecimento do exaurir de suas destemidas forças.

O resultado dessas conflituosas divergências e desses visíveis desatinos, era o desditoso cárcere, incontestável prova de desprezo e arrogância de um tribunal sem júri. À revelia da lei, os detentos, vítimas de um poder econômico coercitivo, eram acusados de atos debelatórios e insolentes, e condenados ao desdém das grades de ferro da cadeia.

A liberdade era escabrosamente cerceada de forma embrutecida, enquanto o prisioneiro da estrada era tratado com escárnio e estigmatização, através de um julgamento espúrio e de visão estereotipada da vida humana.

Homem de ferro condenado ao ferro, vítima sem defesa e sem absolvição, inépcia condenatória conduzida ao infortúnio e ausência do iniludível na solidão do insólito. Neste ínterim, a cadeia abrasadora e ardente sempre foi a dogmática hospedagem dos prisioneiros da estrada.

Marquelino Santana é doutor em geografia, pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina.

Fonte - Marquelino Santana

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