Livre

'Volto rápido' e 'tô apavorado': as últimas mensagens de vítimas da Covid-19. VEJA

A família acredita que ele, que era gerente comercial e morava em Tramandaí (RS), contraiu o vírus em uma viagem a trabalho.
Sabado, 10 de Outubro de 2020 - 08:29

"Eu volto rápido", escreveu a médica Monique Batista, de 29 anos, em mensagem enviada ao marido por meio do WhatsApp, pouco antes de ser intubada. Semanas depois, ela morreu em decorrência das complicações da Covid-19.

Monique é uma das milhares de vítimas do novo coronavírus no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, o país já registrou quase 150 mil mortes pela Covid-19 — o primeiro óbito ocorreu em 12 de março, conforme a pasta.

Em todo o mundo, mais de 1 milhão de pessoas já morreram em decorrência da doença causada pelo coronavírus. O Brasil é o segundo país com mais óbitos pela Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, que já registraram mais de 210 mil mortes.

Em meio aos números de mortos pelo vírus, há a noiva do Arthur, o irmão da Ana Claudia, o filho mais velho de Elisangela, a madrinha da Clara, a amiga da Cristina e tantas outras histórias.

Aos familiares e amigos das vítimas da Covid-19, restam a saudade e as lembranças. Em decorrência do isolamento imposto a pacientes com o coronavírus e da intubação adotada em casos graves, milhares de pessoas não conseguiram dar o último adeus.

Para muitos parentes e amigos, as mensagens trocadas por meio de aplicativos estão entre as últimas recordações. À BBC News Brasil, pessoas que perderam entes queridos mostram algumas das últimas mensagens trocadas, que ajudam a dar dimensão humana à tragédia por trás dos números.

'Volto rápido'


Monique e Arthur eram noivos e moravam juntos. "A gente se amava muito, nunca imaginei perdê-la", lamenta o rapaz. — Foto: Arquivo Pessoal

Monique Batista se formou em Medicina na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em meados de 2019. Desde o início da pandemia de Covid-19, ela estava na linha de frente do combate à doença, na cidade de Campo Verde (MT).

"O sonho da vida dela, desde a infância, sempre foi ser médica. Ela era extremamente prestativa e, mesmo sendo asmática, nunca pensou em parar de trabalhar quando a pandemia começou", diz o engenheiro agrônomo Arthur Varmeling, noivo da médica.

Em 11 de julho, Monique teve uma intensa falta de ar. Ela acreditou que fosse uma crise de asma. Após passar por exames, foi diagnosticada com a Covid-19 e precisou ser internada. Segundo o noivo, 60% dos pulmões dela já estavam comprometidos.

A asma é apontada por algumas entidades médicas como um fator que pode agravar o quadro de Covid-19. Há estudos, porém, que consideram que a doença não costuma representar um risco maior de complicações pelo coronavírus.

No caso de Monique, segundo Arthur, os médicos consideraram que a asma agravou duramente a situação dela. Ele conta que a falta de ar foi o principal sintoma da noiva.

A situação da médica piorou. Em 14 de julho, ela encaminhou mensagens ao noivo antes de ser levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Primeiro, Monique pediu que ele cuidasse da irmã caçula dela, Letícia, de 26 anos. "Seja apoio", escreveu. Em seguida, a médica disse que logo retornaria para casa. "Eu volto rápido. Eu prometo", afirmou, por meio de mensagens de texto.

Pouco antes de ser levada para a UTI, ela perguntou sobre a mãe, que ainda não sabia que a filha seria intubada. "Estou raciocinando, tentando ser o mais calmo possível para pensar em como falar com a sua mãe", respondeu o noivo.

Para Arthur, as últimas mensagens de Monique mostram o quanto ela se preocupava com a família. "Ela era inspiração e força para a mãe e para a irmã", diz o engenheiro agrônomo.

Naquela tarde de 14 de julho, Monique foi intubada na UTI de um hospital particular em Cuiabá. Ela permaneceu sob cuidados intensos durante quase um mês. "Foram dias conturbados, de muita oração e lágrimas", resume Arthur, que também teve a Covid-19, mas apresentou sintomas considerados leves.

Segundo o noivo, o quadro dela se tornou ainda mais grave após ela contrair uma infecção hospitalar na UTI. Monique morreu em 10 de agosto. "Tem sido um período muito difícil", diz o engenheiro agrônomo. Ele e Monique estavam juntos havia um ano e quatro meses. "A gente se amava muito. Nunca imaginei perdê-la", lamenta.

"Por toda a minha vida, vou cuidar da mãe e da irmã dela, como ela havia me pedido", afirma Arthur.

'Tô apavorado'


Em mensagens enviadas (nos balões brancos) dias antes de morrer, Felipe manifestou medo com os sintomas que teve da Covid-19 — Foto: Reprodução

Felipe Garcia, de 36 anos, estava assustado após apresentar sintomas da Covid-19, no início de setembro. Em algumas de suas últimas mensagens, expressou o medo da doença.

"Ora por mim. Tô apavorado", escreveu Felipe, em mensagens enviadas à irmã, a auxiliar comercial Ana Cláudia Garcia, na madrugada de 7 de setembro. Na data, o estado de saúde dele havia piorado.

A família acredita que ele, que era gerente comercial e morava em Tramandaí (RS), contraiu o vírus em uma viagem a trabalho.

Dias antes de apresentar os primeiros sintomas, Felipe dormiu na casa da irmã e do cunhado, em Gravataí, também no Rio Grande do Sul.

"Depois que o meu irmão foi embora, eu e meu esposo apresentamos sintomas, mas nos recuperamos. Acredito que o Felipe já estava com o vírus, ainda não tinha sintomas e transmitiu para a gente", explica Ana.

Logo que apresentou sintomas, Felipe passou a contar aos parentes sobre a sua situação.

"Desde os primeiros sintomas, o meu irmão procurou uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Tramandaí, mas foi liberado. Receitaram os remédios e disseram para ele ficar em casa", relata Ana.

Uma tomografia apontou, segundo a irmã, que 70% dos pulmões de Felipe haviam sido comprometidos pela Covid-19. "Ele estava gordo e acredito que isso piorou ainda mais a situação. Mesmo com as dificuldades dele, não quiseram interná-lo", critica Ana.

Distante do irmão, ela conta que ficou muito preocupada com ele. "Fiquei nervosa e com medo. Até pensei em buscá-lo em Tramandaí, mas ele não quis", relata.

"Sempre tive uma ligação forte com o meu irmão. Ele era uma parte de mim. Foi quem me ensinou a andar de bicicleta, dormiu comigo quando eu tive medo e era uma pessoa que eu sabia que podia ligar a qualquer hora", relata.

Nos dias 7 e 8 de setembro, Felipe contou à família, por meio de mensagens, que estava com muitas dificuldades para respirar, além de sintomas como febre e vômito.

Para Ana, as mensagens nas quais o irmão manifesta o desespero em razão dos sintomas da Covid-19 ilustram as duras consequências que a doença pode ter. "Me senti impotente. Toda a minha família está acabada com tudo isso", lamenta.

Ela conta que o último contato que teve com Felipe foi por meio de videochamada, por volta das 18h de 8 de setembro. "No mesmo dia, ele também conversou com a nossa mãe, com uma tia e com o filho dele (de três anos)", detalha Ana.

Fonte - Assessoria

Comentários

News Polícia

Editoria de Cultura

Editoria Geral

Siga-nos:

POLÍTICA PRIVACIDADE

Todos os direitos reservados. © News Rondônia - 2020.