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A flor do p鉶 - Por Marquelino Santana

Domingo, 04 de Outubro de 2020 - 16:06
Cosme era um posseiro que tentava reconstruir a sua vida depois de uma lament醰el separa玢o.

Era o ano de 2002. A radiante menina flor estudava na escola Bom Jardim no Distrito de Extrema de Rondônia. Seu avô era soldado da borracha e por vários anos foi gerente do seringal Mocambo. Cosme era o pai da menina flor. Certo dia a sua família foi escorraçada do seu lugar. Cosme era um posseiro que tentava reconstruir a sua vida depois de uma lamentável separação.

Ludibriado pela ganância do capital e aterrorizado por ações afrontosas à serviço do latifúndio, Cosme temia acontecer o pior com a sua família e preferiu sobreviver distante da avidez ambiciosa anunciada.

Cosme acompanhava de perto os estudos da menina flor e fez uma grande amizade com o professor de sua filha. Participava ativamente contribuindo com a manutenção da estrutura escolar e foi condecorado pela educação municipal com o título de “Padrinho da Escola Bom Jardim”.

Na cotidianidade da vida, sua filha avançava nos estudos e era sempre elogiada pelo professor, mas no raiar de um nefasto dia, a pequena estudante desceu do ônibus escolar na BR-364 e foi buscar um pão caseiro numa casa que ficava ao entorno da rodovia. De posse do pão e da mochila escolar, ela retornou feliz no caminho de casa, mas uma carreta em alta velocidade impediu que a criança concluísse o seu trajeto e a arrebatou rumo a um tenebroso matagal.

A família tomba em derrocada face ao descalabro, em desalento o pai chora extenuado, fragilizada, a comunidade entra em comoção, o benévolo e brioso professor, mesmo em estado de desolação, consegue ser relutante, e na essência de sua virtuosidade trabalha na confecção de um pequeno caixão.

A menina flor deixou o seu jardim, o jardim perdeu a sua mais radiante flor, a flor perdeu a sua vivacidade, suas pétalas ficaram grudadas ao pão, o pão fora regado por um fálico néctar que se exauria num inditoso e infortúnio gólgota, enquanto a menina flor se transformava na flor do pão.

A imagem lúgubre da criança no ominoso e funesto dia, misturava-se estagnada entrelaçada ao pão. O pão mudara de cor, e envermelhado diluía-se sobre o seu vestido branco de aniversário. Na lamúria da dor o pai aloja a flor do pão no útero da terra mãe. O lutuoso ato encerra o encadeamento inefável da vida com a dádiva familiar.

Dois anos depois é construída uma escola no assentamento Gedeão no Sul de Lábrea, Estado do Amazonas, na fronteira com a Região da Ponta do Abunã. A escola recebeu a denominação de Renata Amanda, uma homenagem ao nome da flor do pão.

Levamos Cosme para conhecer a escola. Ao chegar no local ele parou, olhou o nome da filha por um bom tempo, encontrou forças para entrar na escola e foi apresentado pela professora como o pai de Renata Amanda. As crianças levantaram-se e correram para abraçá-lo, a emoção tomou conta de todos.

O tempo passou, Cosme adoeceu e perdeu a batalha para um câncer que o devorou. Com saudades da filha ele partiu, e eternamente voltou a morar com a sua querida flor do pão.

Marquelino Santana é doutor em geografia, líder do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina. 

Fonte - Marquelino Santana

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