Segunda-Feira, 24 de Agosto de 2020 - 14:35 (Colaboradores)

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A revolta dos seringueiros brasivianos - Por Marquelino Santana

A coletividade brasiviana foi condenada ao opróbrio e neste impropério muitos deles esmaeceram e partiram sem conseguir um pedaço de terra para descansar em paz.


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Os denominados seringueiros brasivianos eram habitantes do rio Mamu. Um caudaloso rio que é afluente do rio Abunã e fica localizado no Departamento de Pando – Bolívia, na fronteira com a Região da Ponta do Abunã no Estado de Rondônia. Após o advento do governo Evo Morales, a partir de 2006, os brasivianos foram expulsos dos seus lugares tradicionais por grupos paramilitares bolivianos. Escorraçados dos seus seringais, os brasivianos travaram uma nova luta: a pertinácia por um pedaço de terra em território brasileiro.

Mesmo depois de expulsos dos seus seringais tradicionais os brasivianos continuaram sendo humilhados. No ano de 2012 um oficial da Força Naval Boliviana, comandante de Puerto Manu, encontrou uma família de brasivianos que estavam trabalhando às margens do rio Abunã e resolveu sequestrar todos os seus pertences. Achando pouco, o oficial ateou fogo no tapiri da família, fato que provocou uma grande revolta dos demais seringueiros brasivianos. Em represália, os brasivianos reteram um motor de energia de um boliviano que estava às margens do Abunã.

Em resposta aos brasivianos o oficial da Força Naval Boliviana invadiu o território federal brasileiro para tomar satisfações com os seringueiros brasivianos. A afronta do oficial misturou-se à sua ousadia, culminado com um fato no mínimo inusitado: os seringueiros brasileiros ou brasivianos no momento em que o oficial invadiu o território brasileiro, seguraram o tenente e não o deixaram mais retornar ao comando boliviano. O oficial ordenou que o seu contingente se afastasse e esperasse o desfecho da situação: estava se iniciando a revolta dos seringueiros brasivianos.

Agora retido em território brasileiro, o oficial boliviano em seu vitupério não conseguiu argumentos convincentes à sua calinada e tentou ser comedido, mas o seu desbrio aviltante fez com que os seringueiros não o deixasse retornar ao seu comando naval. Além do despautério cometido o oficial também estava sendo acusado de extorquir todos os extrativistas que passavam pelo comando naval.

Sob um sol causticante e abrasador os seringueiros não arredaram o pé e exigiam a presença das autoridades federais para que o oficial pudesse ser liberado.

A polícia militar foi acionada e interveio na questão. O oficial foi encaminhado ao quartel da polícia militar do distrito de Extrema e em seguida conduzido ao comando da força naval boliviana em Guayaramerim no Departamento de Beni.

Em resposta à ação da polícia militar, a situação acirrou-se ainda mais. Os seringueiros decidiram bloquear o Porto Extrema, impedir o acesso de qualquer boliviano no porto e ainda reter todos os que se encontrassem nas suas imediações.

Integrantes do Projeto Ética e cidadania de Extrema entram em contato com algumas autoridades de Brasília e no mesmo dia eles recebem o apoio da Força Nacional que se encontrava em Porto Velho. Desta forma foram retomadas as negociações de forma diplomática com os seringueiros brasivianos do rio Mamu.

Às margens do rio Abunã realizamos uma audiência, e após a garantia de que o Itamaraty enviaria um diplomata até à região da Ponta do Abunã para dialogar com os manifestantes, o Porto Extrema, depois de três dias de bloqueio, foi finalmente liberado pelos seringueiros brasivianos.

O Ministério da Relações Exteriores enviou o Secretário Geral da Embaixada Brasileira em La Paz para ouvir os seringueiros brasivianos. Esta audiência diplomática foi um importante passo para que as famílias brasivianas pudessem enfim receber o tão sonhado pedaço de terra no Brasil.

No mesmo ano e em resposta ao governo boliviano pela invasão do oficial da Força Naval ao Brasil, o Exército Brasileiro inaugura o Mastro da Bandeira Nacional no mesmo local onde os seringueiros brasivianos reteram o oficial.

O espírito belicoso do oficial boliviano culminou num imbróglio diplomático entre os dois países e a sua ação pugnaz e afrontosa não reconheceu os valores de uma coletividade que até àquele momento estava a seis anos submetida a um verdadeiro estado de infortúnio e infelicidade.

O rio Mamu perdeu a sua exuberância e vivacidade por conta de um xenofobismo doentio. Em vez de se adotar uma linguagem diplomática cosmopolita e holística, adotaram a estúrdia de um comportamento estereotipado, voltado à execração de um ódio profundo.

A coletividade brasiviana foi condenada ao opróbrio e neste impropério muitos deles esmaeceram e partiram sem conseguir um pedaço de terra para descansar em paz.

Mas os brasivianos resistiram e não se intimidaram com a retirada humilhante a que foram submetidos. Eles não se renderam ao desdém binacional e mesmo sobrevivendo num assentamento distante do Mamu, esse rio divinizado ainda vive dentro deles.

Marquelino Santana é doutor em geografia, líder do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir e pesquisador do grupo de pesquisa Percival Farquhar o maior empresário do Brasil: Territórios, Redes e Conflitos na Implantação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM-RO) e na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (EFSPRG-PR/SC), da Universidade Estadual de Londrina e do grupo de pesquisa Geografia Política, Território, Poder e Conflito, também da Universidade Estadual de Londrina. 

Fonte: News Rondônia

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