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Sexta-Feira, 04 de Dezembro de 2020

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Encantarias do seringal Pedra Chorona - Por Marquelino Santana

A toponímia de Pedra Chorona sempre nos instigou a descobrir o porquê desta denominação atribuída pelo velho Dino.
Sabado, 01 de Agosto de 2020 - 21:50

O seringal Pedra Chorona fica localizado à margem esquerda do rio Mamu, Município de Santos Mercado, Província Federico Román, Departamento de Pando - Bolívia. É neste exuberante seringal que sempre viveu o “velho Dino”. Conheci o Dino a aproximadamente quinze anos, nas minhas andanças pela floresta pandina do Noroeste boliviano, e a sua casa tornou-se um ponto de parada aprazível para saborearmos o seu café e nos alimentarmos de um diálogo dos mais originais e singulares, oriundos da beleza do seu ser.

A amizade construída ao longo do tempo nos fez se aproximar cada vez mais dos seus valores, e nesta empreitada axiológica, as perguntas e as respostas se entrelaçavam e brotavam naturalmente através de uma linguagem despossuída de estereótipos ou estigmatizações.

A toponímia de Pedra Chorona sempre nos instigou a descobrir o porquê desta denominação atribuída pelo velho Dino. A pedra está intimamente ligada ao seu imaginário. Dino repentinamente resolveu abandonar a tudo e a todos e decidiu morar sozinho e da maneira mais “isolada” possível.

Mas Dino não se sentia sozinho e muito menos isolado. Para ele a floresta é a sua melhor amiga e companheira. “Eu converso com as árvores, com os pássaros, com a água. Existe um respeito entre nós. Quando eu vou a Extrema, eu fico doido para voltar. Quando eu estou voltando que vejo o rio e a mata, já sinto uma alegria dentro de mim, e tenho certeza que eles sentem a mesma coisa também”. – Disse Dino.

Visivelmente concatenado com a benévola natureza, Dino foi o único seringueiro brasileiro ou “brasiviano” que não foi expulso do seringal Pedra Chorona pela milícia armada durante o estado beligerante. – Eles nunca me amolestaram em nada. Outro dia eu escutei um choro de uma criança, ela gritava de dor. Peguei meu barco e fui até lá saber o que estava acontecendo. Ancorei o barco no Porto Bolivar e subi até a casa onde a criança estava chorando. Foi na época que eles andavam tudo armado de espingarda expulsando os brasileiros. Eu passei por eles e eles ficaram tudo me olhando, baixaram até as espingardas. Cheguei na casa da criança que estava chorando, pedi uma bacia com água e botei perto da criança. Ela estava gritando de dor dentro da rede. Os pais estavam segurando nos braços dela e ela ficava sacudindo as pernas. Botei a minha mão direita na testa dela e a minha mão esquerda na barriga dela. Minhas mãos ficaram parecendo brasa de tão quente que estava. Tirei as mãos depois de uns vinte minutos. A criança não estava sentindo mais nada. Ela ficou boa e depois dormiu. Depois coloquei as minhas mãos dentro da bacia e começou a fumaçar. Era a doença saindo. Fui atrás da casa, cavei um buraco e joguei a água da bacia dentro. Depois tapei o buraco. Os pais ficaram chorando de alegria, me agradecendo. Eu pedi para eles agradecerem a Deus. Todo mundo aqui gosta de mim. – Disse Dino.

A casa do Dino sempre foi uma casa bem asseada e muito organizada. Não lhe faltava nada. No aparador as suas panelas brilhavam, um fogão de barro novo, carne de caça, uma rede limpa e uma liberdade imbricada à mãe natureza.

A casa coberta de palha e com paredes de Paxiuba, alojava as coisas mais simples e mais importantes que Dino utilizava: Bule, coador, rádio, candeeiro, ralador e demais utensílios necessários à sua vida cotidiana.

Sem empáfia nem embrutecimento, Dino não era adepto do nefasto mundo urbano. Pertinaz e relutante na vida, não considerava os seus modos de vida como algo operoso e demonstrava claramente possuir uma ilibada hombridade com o bem viver.

A sua casa de farinha era por ele considerada uma área de lazer. Ficava sempre alegre ao fabricar a sua farinha, pois ali sabia que haveria um retorno imediato para suprir as outras necessidades da casa.  

Nos seus tradicionais modos de vida, Dino nunca demonstrava marasmo ou extenuação das suas forças cotidianas, mesmo porque sempre foi considerado um verdadeiro herbário da mata.

Quando Dino partiu para outra dimensão da vida, o seringal Pedra Chorona partiu junto com ele. O rio Mamu não é mais o mesmo. O rezador levou as encantarias no seu ser, até que um dia o Deus criador resolva qual vivente alojará a sua original sabedoria.

Ao passarmos em frente à casa do Dino, parece sentirmos o cheiro do seu café. Mas uma forte abulia nos afugenta ao lembrarmos que o seu diálogo se exauriu. As encantarias do fabulo seringal Pedra Chorona adormece no nosso imaginário como um sonho colossal, enquanto o sol fulgente anuncia que para sempre estaremos concatenados na altivez imaculada de nossas almas.

Marquelino Santana é doutor em geografia e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas, Modos de Vida e Culturas Amazônicas – Gepcultura/Unir.

Fonte - Marquelino Santana

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