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Sexta-Feira, 04 de Dezembro de 2020

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Os motivos que podem ter levado Trump a pedir adiamento das eleições

A sugestão vem no momento em que seu rival, o democrata Joe Biden, abre vantagem de dois dígitos sobre ele nas pesquisas nacionais.
Sexta-Feira, 31 de Julho de 2020 - 09:32

Minutos depois de os Estados Unidos anunciarem o pior resultado de seu Produto Interno Bruto (PIB) na história, com uma queda de 32,9% em termos anuais, o presidente Donald Trump foi ao Twitter. Sua mensagem, no entanto, não era sobre o tombo da economia. Em vez disso, ele questionou se a eleição presidencial, que acontece em menos de 100 dias, deveria ser adiada.

"Com a votação universal por correio, 2020 será a eleição mais imprecisa e fraudulenta da história. Será um grande constrangimento para os Estados Unidos. Adiar a eleição até que as pessoas possam votar de maneira adequada, segura e protegida???", postou o presidente.

É a primeira vez que o republicano, que concorre à eleição, menciona a possibilidade. A sugestão vem no momento em que seu rival, o democrata Joe Biden, abre vantagem de dois dígitos sobre ele nas pesquisas nacionais. Biden também surge à frente em Estados-chave na disputa marcada para o dia 3 de novembro — e nos quais Trump venceu em 2016 — como Flórida e Michigan. Na mesma semana, os Estados Unidos cruzaram a histórica marca de 150 mil mortos na pandemia de coronavírus.

"Trump tem três motivos pra sugerir esse adiamento agora: PIB, PIB e PIB", afirmou Michael Cornfield, professor de gestão política da Universidade George Washington.

A aposta que se provou arriscada

O resultado da economia é especialmente dramático porque comprova a falha no cálculo político do presidente, afirmam os analistas políticos. Até fevereiro de 2020, os americanos completavam o décimo ano seguido de crescimento econômico e viviam uma condição de pleno emprego. A pandemia de coronavírus demoliu esse cenário — e também o discurso da estabilidade e progresso que Trump se preparava para empunhar nas eleições.

Diante da recessão e do caos na saúde pública, sobrou para Trump a tentativa de se colocar como o presidente que retomou a economia após o choque pandêmico. Foi por isso que, a partir de maio, ele passou a pressionar os governadores para afrouxar medidas de isolamento e aquecer os mercados.

A redução no distanciamento social, no entanto, é apontada pelos especialistas como a responsável pela inflexão da curva de contaminação americana, que chegou a embicar para baixo até meados de junho, mas não sustentou a tendência. Pelo menos 40 dos 50 Estados americanos já registram nova alta dos casos, que é mais severa do que o primeiro pico: há 3 semanas, os Estados Unidos têm mais de 50 mil novos diagnósticos de covid-19 por dia.

"A economia não vai melhorar e a pandemia não vai desaparecer. Sobrou para Trump fazer o que ele faz sempre: provocar e criar distrações em relação a notícias que são muito ruins para ele", afirma o cientista político Michael Traugott, especialista em eleições da Universidade de Michigan.

Na última semana, diante dos indicativos de que seu plano naufragava, Trump mudou de postura em relação à pandemia — passou a qualificar como ato de "patriotismo" o uso de máscaras, que até então ele rechaçara. Também centrou foco na segurança urbana, cujos números têm piorado nas metrópoles ao redor do país, e optou por enviar tropas federais a cidades onde ainda há protestos contra o racismo, como Portland e Seattle, colocando-se como o fiador da Lei e da Ordem.

O democrata Joe Biden abriu vantagem de dois dígitos sobre Trump nas pesquisas nacionais

Por fim, aqueceu a temperatura da crise geopolítica ao acusar os chineses de tentar hackear a fórmula de vacina contra covid-19 e ordenar que Pequim fechasse seu consulado em Houston, no Texas — ao que os chineses reagiram na mesma proporção, exigindo o fechamento da representação americana em Chengdu.

Os cientistas políticos, no entanto, são céticos sobre o potencial desse novo discurso para reverter a aparente situação de desvantagem de Trump na disputa eleitoral.

"Trump precisa de uma cura milagrosa ou de um tratamento eficaz até outubro para ter uma chance de ganhar. E isso não virá da hidroxicloroquina ou do DNA alienígena", afirmou Cornfield, fazendo referência ao ressurgimento da defesa do remédio antimalária no discurso do presidente.

Nos últimos dias, Trump voltou a citar que acredita na efetividade da hidroxicloroquina contra a covid-19, embora até agora a ciência o desminta, e usou o vídeo de uma médica para apoiar essa afirmação. Entre outras coisas, essa médica afirma que terapias são feitas a partir de material genético alienígena.

Corrida contra o tempo

Na mesma mensagem em que sugere o adiamento das eleições, Trump ataca a possibilidade de que toda a votação seja feita via correio. De acordo com o presidente, o voto por carta poderia ser "fraudulento". Além do presidente, o procurador-geral William Barr também tem ido à televisão afirmar que o voto por correio seria uma porta aberta para interferência estrangeira nos resultados, um dos temas mais sensíveis no processo democrático americano desde que a Rússia foi acusada de influenciar os resultados em 2016.

"No momento, um país estrangeiro poderia imprimir dezenas de milhares de cédulas falsas, e (seria) muito difícil para nós detectar qual era a certa e qual era a cédula errada", afirmou Barr à Fox News há pouco mais de um mês.

O sistema, no entanto, é relativamente bem conhecido pelos eleitores americanos. Cinco estados, incluindo o republicano Utah, já converteram todas as votações ao modelo via correio. Outros estados possuem a opção de voto por carta ou em seção eleitoral. Em 2018, o próprio Trump votou por correio, de acordo com o jornal Washington Post.

Funciona assim: o eleitor recebe a cédula e dois envelopes. No primeiro, em branco, ele deposita o voto. No segundo, coloca o envelope com o voto e assina seu nome, conforme os registros oficiais. Daí remete tudo ao correio. Todos os envelopes só são abertos se a assinatura conferir. O segundo envelope é aberto e depositado em uma urna, sem que possa ser manuseado por pessoas.

"Todos os estudos mostram que praticamente não temos fraudes em eleições americanas. É um índice realmente próximo de zero, então dizer que o sistema é inseguro ou arriscado não corresponde com a realidade", afirmou Traugott.

Segundo o pesquisador, no entanto, o sistema por carta é mais caro e demandante em termos organizacionais. Isso porque as cartas podem ser enviadas com antecedência, não apenas no dia da eleição. E cabe às autoridades locais garantir a logística de segurança desses votos, de conferência e de contagem. Os votos só podem ser abertos após o término do período de votação no dia 3 de novembro, não importa quando eles foram enviados.

Mas os americanos têm visto um crescimento significativo do voto adiantado e pelo correio. Em 2016, cerca de 40% dos votos para presidente foram coletados dessa maneira, antes do dia da eleição.

"Esse ano, a expectativa é que mais de 50% dos votos sejam enviados mais cedo. A partir de setembro, o fluxo deve ser grande, mas os republicanos não estão liberando o dinheiro necessário para que as autoridades locais organizem a votação da melhor maneira, numa tentativa de forçar uma dificuldade e levar a mais questionamentos do processo", afirma Traugott, referindo-se a uma negociação que se arrasta há meses no Congresso americano sobre liberação de verba extra para financiar o pleito.

Segundo os analistas, o fato de que uma parte significativa do eleitorado deve firmar seu voto final dentro de um mês é outro fator a pressionar o presidente Trump. Se, em teoria, ele teria mais 90 dias para convencer os americanos a mantê-lo na Casa Branca por mais quatro anos, a universalização do voto por correio pode fazer com que ainda mais eleitores adiantem sua decisão, em um momento de baixa para o presidente.

Chance próxima de zero

Traugott destaca que, apesar de ser apenas um 'blefe', comentário de Trump causa efeitos nocivos à maior democracia do mundo ao jogar dúvidas sobre o processo de escolha de seu principal representante

Apesar do barulho causado pelas palavras de Trump, os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil foram unânimes em garantir que a chance de um adiamento da eleição é próxima a zero.

Isso porque a data da eleição é definida na legislação americana desde 1845. A lei diz que o pleito deve ocorrer na primeira terça-feira após a primeira segunda-feira do mês de novembro para todos os Estados. Nem mesmo durante a guerra civil americana, o conflito armado que mais matou pessoas nos Estados Unidos, as eleições presidenciais foram suspensas. Para alterar a data agora, a lei teria que ser mudada pelo Congresso, assinada por Trump e depois sobreviver a contestações na Justiça.

Nem mesmo os republicanos se manifestaram publicamente a favor da ideia, o que aumenta a possibilidade de que o tuíte de Trump seja definitivamente apenas um tuíte. Nas redes sociais, o governador de New Hampshire, o republicano Chris Sununu, afastou a ideia.

"Não se enganem: as eleições acontecerão em New Hampshire em 3 de novembro. Fim de papo. Nosso sistema de votação em New Hampshire é seguro e confiável. Fizemos isso corretamente 100% do tempo por 100 anos — este ano não será diferente", disse Sununu.

Para Traugott o comentário de Trump é apenas um "blefe". Ainda assim, segundo ele, causa efeitos nocivos à maior democracia do mundo ao jogar dúvidas sobre o processo de escolha de seu principal representante.

"O comportamento do presidente tem mostrado pouco respeito aos ritos democráticos. Um dos mais importantes é o reconhecimento de uma eventual derrota e a transferência do poder. Se o resultado for apertado para Biden, acredito que Trump não vá reconhecer até o dia da posse", afirma o cientista político.

Cornfield concorda com a avaliação do colega.

"Claro que pode haver problemas em meio à desinformação e novidades no processo. Mas as eleições vão acontecer, e serão garantidas pelas instituições caso o presidente insista em um inflamatório, diversionista e ditatorial movimento como esse. Apesar de estar sob severo estresse, esse país ainda é uma república democrática".

Fonte - Mariana Sanches - Da BBC News Brasil em Washington

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